Televisão/ YouTube

Carioquice em tons de verde, branco e grená

Com espírito neorrealista à moda Nelson Pereira dos Santos, 'Nós Somos Do Rio de Janeiro' é uma série pilotada por Sidney Garambone com a qual a FluTV cartografa modos de viver

Carioquice em tons de verde, branco e grená
Sidney Garambone na Mangueira com o mestre de bateria Rodrigo Explosão Crédito: Divulgação FFC


Uma busca rápida pelo Fluminense Football Club no YouTube presenteia internautas com um exercício de neorrealismo de fazer gosto a quem viu "Rio Zona Norte" (1957) e outros marcos da cartografia de esperanças de nossa cinefilia. Bamba do jornalismo esportivo, hoje em ação nas narrativas audiovisuais da dramaturgia documental serializada, Sidney Garambone fez da FluTV um cinema (online, em casa... ou , em movimento, para quem vai de celular) que regista modos cariocas de ser... de amar... de resistir... e de torcer no projeto "Nós Somos do Rio de Janeiro". Parece a estética de Nelson Pereira dos Santos ("Rio 40 Graus"), mas em modo 2026.

Veio de expressão da verve de cronista desse mestre do jornalista, essa série conta com quatro episódios já no ar, cada um dedicado a um ponto (tricolor) da cidade: Favela dos Guararapes, Zona Oeste, Mangueira e Pequena África. Num momento em que muitos times, como Flamengo e Vasco, exploram a imagem de seus ídolos em longas (vide o recente "Zico, O Samurai de Quintino"), o Fluminense desbrava veredas entre a sociologia, a arte e o esporte com essa narrativa de imersão.

"Fazer a série 'Nós Somos do Rio de Janeiro' me fez lembrar os tempos de repórter da revista Domingo, do Jornal do Brasil, quando escaneávamos a cidade em busca de histórias. Sendo que, agora, através das lentes da FluTV, vamos atrás de histórias que conversem com a própria história do clube. E a experiência é gratificante e prazerosa", diz Garambone.

"É o Fluminense indo atrás de sua gente e não o torcedor visitando o clube. Do ponto de vista pessoal, é emocionante conhecer a viela onde mora Rodrigo Explosão, mestre de bateria da Mangueira, visitar o depósito do armazém onde o rapper Xamã trabalhava em Campo Grande, subir os degraus da antiga casa de Carlos Alberto Pintinho, no alto do morro do Borel. Estamos nos acostumando com a invisibilidade do outro. A série explodiu estas bolhas isoladas. Participar do CineFoot com a atual série foi uma experiência maravilhosa, porque normalmente sou espectador do festival".

O êxito de "Nós Somos Do Rio De Janeiro" amplia a relevância da FluTV como espaço gerador de tramas. Já foram rodados episódios (ainda inéditos) no Bóreu, no Rocha e nas cercanias do Maracanã. Estão em pré-produção investidas em Madureira e em Magé.

"A FluTV traz um componente muito especial, presente neste mundo novo das televisões de clube. Ela é vista pelo torcedor como um braço do clube, um canal oficial, mas sem ser vetusto. Quando chegamos uniformizados em alguma comunidade, mesmo os torcedores dos outros clubes não demonstram hostilidade, ao contrário, brincam e perguntam a razão de estarmos lá. Já o torcedor do Fluminense abre o coração sem pudor, mostra a casa, objetos, relíquias e faz questão de contar histórias familiares, como se a equipe da FluTV tivesse lugar de fala e de escuta para ele. A potência está aí. Com uma estrutura pequena, porém com passe livre para entrar não só na casa, mas na alma do torcedor".

Um dos pontos mais enriquecedores para Garambone é trabalhar com pessoas do Fluminense, intimamente ligadas ao dia-a-dia. "Leandro Carvalho, um dos apresentadores, é um canal de comunicação com as torcidas organizadas e conhece muitos personagens periféricos maravilhosos. E como é doutor em História e Sociologia, ele nos traz uma bagagem acadêmica fundamental. Sara Alexandre é uma jovem repórter da FluTV e que provoca empatia imediata quando vai conosco. O produtor Caio Blois inunda os episódios com referências culturais e as imagens de Daniel Planel são um capítulo à parte de sensibilidade", diz Garambone.

O jornalista está trabalhando também em um projeto que conte a história e a importância das músicas de arquibancada. "É sobre suas origens, como surgem, porque algumas fazem sucesso imediato com a torcida e outras são natimortas", diz Garambone, sob o contágio do cinema de não ficção. "Fiz dois curtas sobre o Bonsucesso e o São Cristóvão. É um caminho documental maravilhoso. Minha vontade é retomar isso, com outros clubes considerados pequenos da cidade. A gente vê nas redes sociais o sucesso de alguns perfis que fazem isso. As histórias não morrem. Precisamos cavá-las! Esses clubes talvez não sumam do mapa, talvez sim, mas a realidade financeira os deixou numa prateleira nostálgica. Visitá-los é como entrar de verdade num túnel do tempo. Este universo do futebol ainda resiste à modernização inevitável das cidades".