Um dos atores mais prolíficos (e inventivos) deste país, onde também é um sazonal diretor, Caco Ciocler vive momentos similares aos da experiência de Michael Keaton em "Birdman" (de 2014) na delícia que é "Overman". Calorosamente aplaudida no Festival do Rio, essa produção de Iafa Britz funciona na telona como se fosse um exemplar da revista "Mad" em forma de filme.
Seu realizador, Tomás Portella, teve um cuidado que pouquíssimos cineastas (Ang Lee é o mais notório nessa seara) têm ao adaptar HQs: incorporar plasticamente no plano, pelas vias dos enquadramentos, a estética das artes gráficas. Seu filme parece uma tirinha viva, graças à sagacidade de Cláudio Amaral Peixoto na direção de arte, em sintonia com os quadrinhos da Laerte. Talento que ainda não desfruta do prestígio merecido, o diretor, conhecido por "Desculpe O Transtorno" (2016) e "Operações Especiais" (2015), embrenha-se por um mar de quadrinhos brasileiríssimos a fim de dar ao nosso cinema um super-herói que seria reprovado pelos Vingadores e faria o Deadpool passar vergonha.
Assim mesmo, o Overman de Caco Ciocler é chamado pelo governador do Rio para a Secretaria de Segurança Pública. Diante do talento magistral de seu protagonista, essa convocação é bem justificada. E dela há de brotar um mar de risos. Caco faz de seu vigilante uma mistura de Hellboy com o Pacificador de John Cena. Victor Lamoglia rouba muitas cenas pra si (como já é seu costume) no papel de um Robin comunista.
Já Karina Ramil faz da Mulher-Cachorro uma Viúva Negra subtropical cheia de empoderamento e graça. O que ela entrega é destemido, assim como Maria Lucas (no papel de uma celebridade midiática) numa mirada crítica para o heroísmo que mais parece Chapolim Colorado, só que com ação a granel.
Perfumada de antropofagia, a narrativa de Portella se sganzerla bem no diálogo com Laerte, um signo trans. Sua obra (e sua vida) são transgressão pura. "Overman" segue nesse barato, vestido por Reka Koves e Nathalia Campos, que dão aula de saber pop na confecção dos figurinos.
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