Um presente cinéfilo aguarda o público da 50ª Mostra de São Paulo e vem lá de Cannes: às 18h, no Cultura Artística, haverá uma projeção de "Fjord", do romeno Cristian Mungiu, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes, em maio. No próximo dia 26, o longa volta a ser projetado, agora às 20h10, no Cine Sesc. Em seu elenco está Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel. O astro divide com a norueguesa Renate Reinsve o protagonismo de "Fjord", de Mungiu.
Formam em cena o casal Gheorghiu: ela, Lisbet, é escandinava; e ele, Mihai, é romeno. Os dois se mudam com os filhos para uma vila da Noruega situada no fundo de um fiorde. Essa família muito religiosa rapidamente faz amizade com seus vizinhos, os Halberg. Apesar de seus diferentes estilos de educação, as crianças dos dois clãs criam laços estreitos. Um dia, quando os professores notam sinais de maus-tratos em Elia, filha mais velha dos Gheorghiu, a suspeita se instala. Será que as práticas educacionais convencionais de Lisbet e de Mihai ultrapassaram o limite da violência?
A investigação que se segue mergulha toda a vizinhança no caos, num ranço de xenofobia no ar. "Eu não julgo as personagens, mas há um debate no centro de tudo: se você olhar para as diferenças, atrás só das estranhezas, verá apenas inimigos", disse Mungiu a Cannes. "É mais fácil se unir ao gado e pastar na relva dos algoritmos. Mas o cinema no qual eu acredito prefere tirar a plateia da condição de rebanho e deixar o povo pensar".
Ao ser abordado pelo Correio da Manhã, na Croisette, pouco antes de receber a Palma, ao ganhar o Prêmio da Crítica e o do Júri Ecumênico, Mungiu celebrou a resiliência de sua pátria nas artes. "Embora eu não creia na ideia de 'cinemas nacionais', pois as grandes narrativas são universais, fico feliz em perceber o respeito em torno de um cinema feito com ousadia na Romênia, há muito referendado por Cannes, que aposta na originalidade e celebra a vida", disse Mungiu ao Correio da Manhã, no desfecho do festival francês. "Este objeto aqui (a Palma) vai fazer as pessoas de diferentes lugares do mundo descobrirem a nossa história".
Não foi a primeira vez que Mungiu segurou o tal "objeto". Em 2007, ele deu a seu país a sua primeira Palma de Ouro com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", ao narrar a saga de uma jovem estudante para ajudar uma amiga a abortar num momento opressivo do comunismo romeno, em 1987, sob a mão de ferro do governante da época, Nicolae Ceausescu (1918-1989). Dois anos antes de sua estreia, em 2005, Cannes recebeu um óvni de CEP romeno, chamado "A Morte do Sr. Lazarescu", de Cristi Puiu. Esse cult de Puiu abriu os olhos do mundo para a realidade da Romênia, que começou o século XXI filmando num sistema simbólico muito peculiar, compartilhado por outras vozes autorais de prestígio, como Mungiu, ao revelar, numa abordagem quase naturalista, com câmera digital e orçamento mirrado, o garrote de um estado corrupto no pescoço de toda uma geração. Ali nasceu a Primavera Romena.
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