50. Mostra de São Paulo

Joia rara, 'Di Cavalcanti' de Ana Carolina fala a dor com lirismo

Joia rara, 'Di Cavalcanti' de Ana Carolina fala a dor com lirismo
Imagem de arquivo de Di em processo de criação Crédito: Divulgação

Em tempos tóxicos, o veneno da palavra pode ser tão devastador quanto o de qualquer substância química hostil ao organismo humano, a julgar pelo que Ana Carolina (Teixeira Soares) nos ensina no modo como faz da fala um corpo fílmico. Em seu (desvairadamente) tocante “Di Cavalcanti”, que faz sua estreia mundial na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a maior diretora deste país transforma essa percepção numa experiência cinematográfica de rara insolência, em que a História da Arte brasileira se mistura à provocação política, à poesia e à performance, sendo um milk-shake disso tudo. O filme parte da figura de Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), um dos pilares do Modernismo nacional, para investigar a potência de um artista que fez da criação uma forma de intervenção na vida pública. Pintor, ilustrador, caricaturista, gravador, muralista, jornalista e escritor, Di ajudou a conceber a Semana de Arte Moderna de 1922, para a qual criou o catálogo e o cartaz. Sua obra procurou construir uma iconografia brasileira a partir de personagens populares, mulheres, trabalhadores e manifestações culturais como o samba. A cineasta, porém, não se limita à reverência biográfica: prefere convocar o pintor para um embate contemporâneo sobre a identidade, a liberdade e os destinos de um país dividido.

Existe um ditado do candomblé, associado à sabedoria de Exu, que diz: “O veneno que mata não é só aquele que entra pela boca, mas, também, o que sai dela”. É uma referência aos devastadores poderes do verbo. Poderes esses que “Di Cavalcanti” disseca a partir de um olhar histórico sobre o Modernismo made in Brazil. Quem perdeu a primeira projeção dele na Mostra, pode se aquietar. Novas sessões vão rolar. Tem uma marcada para 21 de outubro, às 22h20, no Reserva Cultural – Sala 2, e outra agendada para 26 de outubro, às 16h, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 5.

Uma das realizadoras convocadas por Wim Wenders para “/Chambre 666”, em 1982, curta icônico sobre o futuro do cinema, Ana Carolina figurou com destaque numa edição comemorativa da revista “Cahiers du Cinéma”, em 2019, dedicada às vozes femininas que mais repercutiram na direção de longas-metragens. Seu “Mar de Rosas” (1978), ao lado de “Tudo Bem”, de Arnaldo Jabor, e “Os Sete Gatinhos”, de Neville d’Almeida, compõe o mais contundente painel cinematográfico brasileiro sobre a falência da família burguesa. “Das Tripas Coração” (1982) levou a Cannes uma exposição do desejo que a ditadura tentava silenciar. Mais recentemente, “Paixões Recorrentes” (2022) sacudiu Roterdã com uma reconstituição histórica ambientada às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Em cada um desses trabalhos, a ironia afiada da cineasta se articula a uma forma de liberdade que também atravessa seus documentários, como “Getúlio Vargas” (1974).

Talvez por isso Ana Carolina seja sempre tratada como um titã em nossas telas. Cada nova manifestação de sua estética representa uma provocação e um recomeço para o modo como o Brasil se olha e se representa. “Di Cavalcanti” chega à Mostra como um rito de insubordinação, uma obra que confronta a pasmaceira ideológica e a polarização de um país às vésperas do segundo turno presidencial de 25 de outubro. Sua forma anfíbia mistura ficção, documentário, recital, aula de História da Arte e jogral. O resultado tem a insolência de quem não pretende separar a criação artística da disputa por um projeto de país. Julio Adrião, ator de presença vulcânica nos palcos, notadamente em “A Descoberta das Américas”, empresta ao filme um corpo em permanente combustão. Seu palavreado tem a empolação dos parnasianos, mas também a molecagem dos poetas modernistas, num embate entre solenidade e deboche que corresponde à própria natureza do personagem.

Macaque in the trees
A picardia dá o tom da atuação de Tuna Dwek ao lado da erupção vulcânica de Júlio Adrião | Foto: Divulgação


Na genealogia de Ana Carolina, “Di Cavalcanti” conversa mais diretamente com “Gregório de Mattos” (2003), seu experimento jogralesco sobre o poeta baiano conhecido como Boca do Inferno, também chamado de Pica-Flor. A incontinência formal dos dois filmes é semelhante: um fluxo de consciência que harmoniza digressões, provocações e reivindicações sociais, fazendo da palavra uma arena. Se, naquele longa, Waly Salomão expunha as entranhas de um poeta que transformou a língua em instrumento de ataque, aqui Adrião rasga o próprio miocárdio para dar corpo a um sujeito falido, ligado por parentesco a um tio que foi amigo e correspondente do pintor. A figura de Di, assim, não é tratada como peça de museu, mas como uma presença que continua a perturbar os vivos.

O multiartista plástico e gráfico que começou a trabalhar como ilustrador em 1914, participou da articulação da Semana de 1922 e absorveu as influências das vanguardas europeias sem abandonar a busca por uma linguagem nacional foi também um homem de convicções políticas. Filiado ao Partido Comunista do Brasil em 1928, Di Cavalcanti enfrentou prisões, satirizou o militarismo e defendeu uma arte figurativa comprometida com a realidade social. Em telas como “Samba” (1925) e “Cinco Moças de Guaratinguetá” (1930), elaborou uma iconografia de cores quentes, formas curvilíneas e corpos monumentais. Nos murais, como o painel do Edifício Triângulo, em São Paulo, e “Candangos” (1960), em Brasília, levou sua atenção aos trabalhadores e à formação do país para a escala pública. O filme de Ana Carolina não pretende catalogar essa trajetória: convoca seu legado para lembrar que toda escolha estética também pode ser uma escolha política.

Há ainda uma passagem especialmente perspicaz pela biografia de Di: seu trabalho no Correio da Manhã, onde atuou como ilustrador antes de ser demitido. O episódio ajuda a situar um artista que circulou entre a imprensa, a militância e as artes visuais, sem aceitar que os espaços de criação estivessem apartados das tensões do seu tempo. Em Ana Carolina, esse dado biográfico ganha ressonância porque o próprio verbo, a palavra impressa e a disputa pela representação pública são elementos constitutivos de seu cinema.

Nesta volta ao circuito cinéfilo, Ana Carolina conta com Luis Abramo, um de nosso mais criativos diretores de fotografia, como artesão de sua luz e como seu produtor. Traz de seus trabalhos anteriores um diabrete, o ator Luiz Octávio Moraes, sempre pimpão em cena. Pimpona também é a elegância da atriz Tuna Dwek, sobretudo ao desfilar muitas línguas em cena, indo do Francês ao Inglês, num pulinho pelo Italiano. É marota pacas em sua forma de sintetizar a força feminina em torno de Di, como um ex-amor do "personagem" de Adrião. Vale destacar ainda que a pesquisa traz a assinatura da bamba Angela Zoé, com citação nos créditos de imagem para Cavi Borges. 
 
Em “Paixões Recorrentes”, assim como fez em seu longa inaugural, o já citado “Getúlio Vargas”, documentário de 1974, Ana Carolina apostou numa alegoria sobre a intolerância em que nos afogamos quando polarizamos tudo sem conseguir fincar os pés em nada. “Di Cavalcanti”, embalado por uma trilha sonora envolvente, percorre as ruas do Rio com a esperança ébria de emoção dos trovadores. Há nesse movimento um sinal de resistência e de aposta no sonho democrático como possibilidade de futuro. É quase como se a cineasta nos lembrasse que imaginar um país livre também é um ato de criação. E isso é bonito demais, vindo de uma porta-voz da coragem.

A Mostra segue até o dia 29 de outubro. Até lá, vai rolar muita água, e em sua correnteza, muito filme bom deve aparecer. Mas sua curadoria, ao escalar "Di Cavalcanti", de Ana Carolina, já assegurou para si a certeza de ter revelado uma obra-prima.