Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Marcus Majella abriu 2026 tentando lotar as salas de projeção com "Agentes Muito Especiais". Não chegou a leva-lo à condição de fenômeno pop, mas assegurou um arranque de 105 mil tíquetes para nosso cinema, num primeiro semestre minguado para o público da produção nacional. Agora que vivemos tempos mais alegres, com a coqueluche "Minha Melhor Amiga", esse bamba da gargalhada retorna as telonas com a terceira parte de uma franquia aberta lá em 2017: "Um Tio Quase Perfeito". Na parte três, já em cartaz, o ator Tony (Majella) está se sentindo cada vez mais abandonado pelos sobrinhos, que cresceram e estão independentes. Até que um dia uma surpresa vira sua vida de cabeça para baixo: um bebê é deixado na porta de sua casa. Sob a direção de Pedro Antonio, o longa abre sorrisos em cada multiplex onde é exibido. Nesta conversa, Majella fala da maturidade desse papel e de seu ferramental cômico.
"Um Tio Quase Perfeito 3" começa com uma experiência que pode ser bastante dolorosa: Tony percebe que os sobrinhos cresceram e já conseguem imaginar uma vida que não depende tanto dele. O que esse sentimento de deixar de ser indispensável diz para você sobre amor, família e sobre aprender a permitir que quem amamos siga o próprio caminho?
Marcus Majella - O Tony é um cara muito legal. Tenho um carinho enorme por ele, pois são dez anos de convivência com este personagem, acompanhando o crescimento dele. Acho bonito poder mostrar seu amadurecimento. No terceiro filme não poderia ser diferente. Ele passa a viver uma certa crise de ninho vazio quando percebe que o tempo passou, que as crianças cresceram e agora buscam ser mais independentes, irem atrás de seus sonhos e interesses o que, eventualmente, não o inclui mais. E, sim, acho que isso diz muito sobre o amor. Sobre continuar estando presente e sendo importante para quem a gente ama e, ao mesmo tempo, deixar ir... deixar viver, experimentar, crescer. O tio Tony está neste aprendizado.
Tony nunca precisou ocupar o lugar tradicional de pai para construir uma relação profundamente paternal com aquelas crianças. Na sua própria trajetória, como homem queer e artista, o quanto lhe interessa defender no cinema a ideia de que uma família pode nascer de diferentes formas de afeto, cuidado e pertencimento?
Acho que o cinema é uma vitrine maravilhosa de contar histórias e, de certa forma, ensinar por meio delas, principalmente porque a gente vive em um país com famílias muito diversas. Para mim, o conceito de família é quem está presente, quem cuida, quem dá amor, quem segura a sua mão quando você precisa. Ser tio, também pode ser uma referência. O Tony não é o pai daquelas crianças e mesmo assim exerce uma função muito importante na vida delas e elas na dele. Acho que os vínculos podem nascer de lugares diferentes. O que faz uma família é o afeto, o cuidado e a presença.
Agora aparece Alice, um bebê que obriga Tony a começar tudo outra vez: fraldas, noites sem dormir, medo, responsabilidade. Existe alguma coisa nessa experiência da personagem que fez você pensar sobre paternidade, sobre cuidar de alguém ou mesmo sobre aquilo que queremos deixar para uma geração que vem depois da nossa?
O Tony me deu algo muito especial e que vejo com muito carinho, que é a proximidade com o público infantil. Conviver com esse público ao longo dos filmes me fez ter uma percepção bastante real sobre o cuidado e a grande responsabilidade que é cuidar de uma criança. Ser pai é algo que mudaria completamente a rotina e as prioridades e, hoje, sinto que vivo outro momento, de querer conhecer o mundo, viajar, descobrir lugares novos. No momento, quero poder ter e viver esta liberdade.
Você construiu boa parte da sua carreira fazendo as pessoas rirem, mas o humor também pode ser uma maneira de falar de solidão, inadequação, rejeição e desejo de pertencimento. Houve algum momento da sua vida em que percebeu que aquilo que fazia o público rir também poderia ajudá-lo a compreender e expressar quem você era?
Acho que o humor sempre foi uma forma muito natural de me relacionar com o mundo. Eu sou uma pessoa que observa muito e acho que a comédia nasce muito desse olhar para as situações do cotidiano, para as nossas contradições e aquilo que às vezes é difícil de falar de uma maneira mais direta. Para mim, rir também sempre foi uma forma de aproximação. Quando você consegue fazer alguém rir, cria uma intimidade muito grande. Com o tempo, fui entendendo que podia usar isso não só para divertir, mas também uma ferramenta de expressão mesmo.
Uma franquia que atravessa tantos anos acaba registrando o envelhecimento real de seus atores e o crescimento das crianças diante da câmera. Quando olha para o Marcus que fez o primeiro "Um Tio Quase Perfeito" e para o homem que chega agora ao terceiro filme, o que você sente que perdeu, conquistou ou aprendeu nesse intervalo?
Ao longo desses dez anos, é muito bonito ver a mudança em todos, nos personagens e no elenco. A vida do Tony mudou assim como a minha. Com o tempo, acho que também fui emprestando um pouco das minhas coisas para o Tony, sentido seu crescimento, amadurecimento, e acho que ele foi ficando um pouco mais parecido comigo. Talvez porque, durante este tempo, eu tenha aprendido a olhar para o Tony da mesma forma que me vejo: com menos certezas e mais humanidade. Também é muito louco lembrar das crianças do primeiro filme e perceber que elas cresceram de verdade! O tempo passou para todo mundo e o público acompanhou essa história durante anos, então voltar para esse universo é estar em um lugar muito carinhoso de afetividade. Tem um significado muito especial.
Tony é professor de teatro, e você é um artista cuja formação passa fortemente pelo palco, embora tenha conquistado uma enorme projeção no audiovisual. O que o teatro ainda oferece a Marcus Majella que o cinema e a televisão não conseguem oferecer — e o que você gostaria que o cinema brasileiro ainda lhe permitisse experimentar como ator?
Eu amo o teatro. Inclusive, depois de algum tempo mais focado em televisão e cinema, estou com planos para voltar aos palcos e estou muito feliz e ansioso com isso. O teatro é um espaço sagrado mesmo, com uma troca muito especial com o público. Você está ali, olhando para as pessoas, sentindo a respiração, a risada, o silêncio... não tem como repetir. Na TV e no cinema, a mágica é diferente, porque você pode chegar a pessoas do Brasil inteiro e até de lugares que você nem imaginava. E eu também adoro isso. Já para a minha carreira, o que eu gosto muito é de me desafiar, experimentar. Eu amo fazer comédia, mas também adoraria fazer um personagem que me provoque de outra forma.
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