O mais sólido — e radical — concorrente ao Troféu Redentor de Melhor Roteiro fez-se notar e aplaudir na Première Brasil com “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira”, que marca a volta da equipe criativa de “Mulher do Pai”, sensação do Festival do Rio de 2016. Agora, Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão dividem a direção, a quatro mãos, numa simbiose plena, para investigar cicatrizes ainda abertas pelos Anos de Chumbo, estabelecendo uma conexão geográfica, pelas vias do trauma, entre Brasil e Uruguai. A trama parte de Luiza (Maria Galant), uma jovem de 27 anos que, em Porto Alegre, em 2019, começa a receber pela internet vídeos enviados por uma desconhecida, gravados no país vizinho, nos quais uma mulher chamada Verónica conta histórias de sua juventude — até que o aparente engano desemboca numa perturbadora revelação familiar. É uma narrativa em que a palavra se impõe como soberana absoluta, costurando não ações — sem jamais resvalar numa veia meramente descritiva —, mas inquietações, silêncios e resfolegos, num inventário dos desmontes familiares produzidos sob os golpes do martelo das ditaduras sul-americanas. Carrega ecos do "Vertigo" ("Um Corpo Que Cai", de Hitchcock) na sua fixação por um ente já finado que parece insistir em fica... ainda que na forma de outra pessoa.
Enquanto os diálogos pavimentam uma medida de mundo, amparados por uma montagem enxuta de Oliveira e Tula Anagnostopoulos, a fotografia de Bruno Polidoro espatifa os signos produzidos pelos verbos e substantivos que ganham corpo sobretudo na boca de uma impressionante Verónica Perrotta, encontrando um repertório próprio de representações do real e recusando-se a simplesmente ilustrar aquilo que se diz. Dessa fricção entre palavra e imagem nasce uma dinâmica formal de risco, mas de enorme potência poética, reforçada pelo desenho de som de Miriam Biderman e Ricardo Reis e pela música de Lee Ranaldo.
“Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira” é uma experiência áspera, inquietante e de difícil acomodação, mas que se impõe justamente pela originalidade com que transforma os escombros políticos do continente em matéria íntima, fazendo da memória familiar uma câmara de ressonância da História.
O Festival do Rio 2026 termina no domingo.
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