Cinema

A Testemunha' versão 2026

Beth de Araújo, cineasta americana filha de goiano, que sonha filmar no país do pai ganha mundo cinélifilo com 'Josephine', suspense que venceu Sundance e brilha no fim do Festival do Rio

A Testemunha' versão 2026
Mason Reeves, a personagem título de Josephine, é testemunha de um crime brutal Crédito: Divulgação

Eletrizante do primeiro ao derradeiro segundo, "Josephine - Fragmentos de um Crime", filme mais aguardado entre as estreias deste fim de semana de encerramento do 28º Festival do Rio, tem CEP estadunidense, é falado em inglês e conta com um astro do porte de Channing Tatum - mas... carrega DNA brasileiro. A assinatura da direção é de Beth de Araújo, americana de São Francisco, filha de um goiano de quem herdou a nacionalidade brasileira.

A cineasta traz sua joia às telas cariocas para três projeções. Há como vê-la na sexta-feira, dia 9, às 19h15, no Cine Odeon - CCLSR; no sábado, dia 10, às 21h15, no Reserva Cultural Niterói 1; e no domingo, dia 11, último dia do festival, às 21h45, no Estação Claro Gávea 5.

Tais exibições estão badaladas por conta da trajetória meteórica do longa-metragem, que venceu, em janeiro, o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio do Público no Festival de Sundance; atravessou o Atlântico para disputar o Urso de Ouro da Berlinale, em fevereiro; e, há duas semanas, brilhou na Espanha, no Festival de San Sebastián. Está já credenciado como uma das produções independentes americanas a serem observadas na corrida pelo Oscar.

Realizadora do cultuado "Suaves e Discretas" (2022), Beth transforma em cinema uma recordação traumática. Anos atrás, ela e o pai testemunharam uma agressão sexual e intervieram. A experiência tornou-se a matriz de "Josephine - Fragmentos de um Crime", misto febril de drama familiar, thriller psicológico e suspense de tribunal, no qual a realizadora investiga o que acontece quando uma criança passa a enxergar perigo em toda parte. "Eu não conseguia escrever sobre outra coisa", explicou a diretora sobre a longa gestação do projeto, que chegou a ser engavetado por dificuldades de financiamento. O jogo virou depois que Tatum assistiu a "Suaves e Discretas" e perguntou à realizadora o que ela preparava. A resposta era que havia um papel para ele. "Eu disse: 'Então vamos fazer o filme agora. Com Channing Tatum, vou conseguir o financiamento'", recorda Beth, em entrevista ao Correio da Manhã em San Sebastián.

Macaque in the trees
A presença de Channing Tatum, astro de quilate AA, em 'Josephine' tornou o projeto de Beth (abaixo) possível | Foto: Divulgação

Sua trama evoca "A Testemunha" (1985), de Peter Weir, mas sem Harrison Ford. Lá, um menino do povo Amish via um assassinato. Aqui, Josephine, de oito anos, vivida pela impressionante Mason Reeves, sai para uma corrida matinal com o pai, Damien (Tatum), no Golden Gate Park, em São Francisco, quando testemunha uma violência sexual. O episódio destrói sua sensação de segurança. Obrigada posteriormente a lidar com as consequências do que viu, a menina passa a enxergar a figura do agressor por todos os lados e reage ao medo com violência. Gemma Chan interpreta a mãe, completando uma família que tenta proteger a criança ao mesmo tempo em que se vê obrigada a enfrentar seus próprios limites.

É aí que o filme encontra sua potência. Beth trabalha o trauma como matéria de suspense e faz da percepção infantil uma espécie de câmera subjetiva emocional. Não há necessidade de flashbacks explicativos: a fotografia de Greta Zozula transforma parques, ruas, casas e espaços cotidianos em territórios potencialmente ameaçadores. "O elemento de thriller está, de certa maneira, contido no medo que as pessoas enfrentam diariamente diante da violência sexual", explica Beth. "O mundo parece muito perigoso para mim. E acho que a escuridão pode tomar conta da nossa mente".

Tatum, despido da embalagem de galã, encontra em Damien uma figura paterna de rara densidade. Beth pediu ao astro que engordasse, dispensasse maquilhagem e abandonasse qualquer glamour, mas o elemento decisivo veio da experiência pessoal do ator como pai de uma menina. Antes das filmagens, Tatum e Mason passaram bastante tempo juntos para que a proximidade física entre os dois surgisse diante da câmera como um reflexo, e não como marcação de cena.

Há ainda um cuidado particular na atuação de Mason. A jovem atriz nunca presenciou a encenação da violência sexual, não leu integralmente o roteiro e trabalhou as emoções mais pesadas a partir de memórias infantis que pudesse compreender. Beth preferiu preservar a atriz do conteúdo adulto e construir com ela equivalências emocionais para cada sequência.

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Beth de Araújo, cineasta | Foto: Divulgação

"Creio que o thriller é inerente ao medo que as pessoas enfrentam diariamente diante da violência sexual. Olhamos por cima do ombro, tomamos cuidado com os lugares onde colocamos nossos corpos. Isso, por si só, já é um thriller", defende Beth. "É curioso porque, quando fiz meu primeiro filme, achava que estava simplesmente fazendo um drama. Um amigo foi a uma sessão-teste e me disse: 'Você fez um filme de terror'. E eu respondi: 'Não queria fazer um filme de terror. Talvez eu simplesmente enxergue o mundo como um lugar horrível'. Talvez eu pressinta a violência ao nosso redor".

Segundo a cineasta, em "Josephine - Fragmentos de um Crime", aconteceu algo parecido. Nunca começo um filme com a intenção de trabalhar dentro de um gênero específico, embora meus gostos tendam para o drama e o thriller. Talvez eu gravite em torno desses gêneros porque é assim que o mundo me parece: perigoso. E a escuridão pode tomar conta da nossa mente quando tentamos compreendê-la. Era isso que eu queria explorar no trabalho com Mason e todo o nosso time".

O Festival do Rio 2026 apaga suas luzes neste domingo, com a entrega de prêmios.