ENTREVISTA

Werner Herzog: 'Não gosto da palavra obsessivo. Não sou obsessivo. Sou focado'

Werner Herzog: 'Não gosto da palavra obsessivo. Não sou obsessivo. Sou focado'
Werner Herzog Crédito: Jorge Fuembuena/SSIFF

A pedido do Correio da Manhã, ao fim desta entrevista, Werner Herzog gravou um áudio para Ruy Guerra, numa mensagem carinhosa. Há muito não se encontram, mas se admiram pacas, desde que trabalharam juntos, em "Aguirre, a Cólera dos Deuses", em 1972, no qual o diretor de "Os Cafajestes" (1962) ataca de ator, interpretando Don Pedro de Urúsua.

Ruy, que está com uma retrospectiva na Caixa Cultural, está com 95 anos. Herzog, nascido em Munique 84 anos atrás, aparece, com o semblante da juventude, no curta "Quarto 666" (1982), do compatriota Wim Wenders, que entrou no Festival do Rio, numa versão restaurada. Além disso, ofereceu à curadoria do evento carioca, chefiada por Ilda Santiago, o magistral "Bucking Fastard", que lhe valeu uma indicação ao Leão de Ouro de Veneza.

Essa joia estreia no Festival do Rio nesta quinta, às 19h, no Cinesystem Belas Artes, e passa de novo na sexta, às 14h15, no Estação Claro Rio. Duas irmãs da vida real, Kate e Rooney Mara vivem duas mulheres ligadas por laços fraternos, Jean e Joan, capazes de qualquer desatino por amor.

Nesta conversa, concedida ao Correio um dia depois de receber o Prêmio Donostia do Festival de San Sebastián, pelo conjunto de sua obra, o titã por trás de cults como "Fitzcarraldo" (1982) e "O Homem Urso" (2005), hoje dedicado a uma animação, avalia sua forma de filmar.

Houve um intervalo grande entre seus últimos longas de ficção e "Bucking Fastard", onde só as estéticas do real se beneficiaram de seu olhar. Por que houve esse hiato?

Werner Herzog - Não houve realmente um intervalo. Fiz outros dez filmes e escrevi três livros. Nos últimos 20 anos, acho que realizei sete longas de ficção. Isso é muito. Há cineastas em Hollywood que fazem um filme a cada oito, nove ou dez anos. Nesse período, continuei fazendo muitos outros filmes e escrevendo livros.

Hoje é mais difícil conseguir financiamento para realizar os filmes que o senhor deseja rodar?

Isso sempre foi um problema. Sempre trabalhei com pouco financiamento e, ainda assim, consegui fazer meus filmes. Consegui realizar todos os filmes que realmente queria fazer, sem nunca precisar ser um mercenário... e me vender para isso. Mas fácil não foi.

Há uma dedicatória a David Lynch no início do seu novo filme. Qual é a lembrança mais forte que você guarda dele?

Tenho duas. A primeira foi quando o conheci. Eu era amigo de Mel Brooks e, certo dia, disse a ele: "Vi um filme incrível, 'Eraserhead'. Está completamente fora de todas as normas". Eu tinha ouvido dizer que o cineasta era carpinteiro, que trabalhava construindo telhados, e perguntei a Mel se aquilo era verdade. Ele disse que sim. Continuei falando do filme até que Mel perguntou: "Você quer conhecer o cineasta?". Respondi: "Claro". Ele me levou pelo corredor do escritório, abriu uma porta e disse: "Este é David Lynch". David estava preparando "O Homem Elefante", que Mel Brooks produziu. Nós nos olhamos. David tinha visto alguns dos meus filmes. Ele me agarrou fisicamente e disse: "É muito bom conhecer você". Para mim foi a mesma coisa. Ali estava o homem que havia feito aquele filme sensacional, "Eraserhead".

E qual é a segunda lembrança?

Muitos anos depois, disse a David: "As pessoas ficam falando comigo sobre uma coisa chamada 'Twin Peaks'. Dizem que foi você quem fez". Ele respondeu: "Sim, fui eu. Venha à minha casa amanhã à noite e vou mostrar a você". David tinha uma pequena sala de projeção e exibiu aquilo só para mim. Em película.

E como essa amizade levou à dedicatória que abre "Bucking Fastard"?

Quando terminei de montar este filme, virei para o montador e disse: "Vamos ligar para David Lynch. Ele deve ser a primeira pessoa a assistir". E ele me respondeu: "Mas David morreu há um ano". De repente pensei: "Meu Deus, eu havia esquecido de que ele tinha morrido". Eu gostava tanto dele que isso se passou... ele seguiu comigo. Queria que ele fosse o primeiro a assistir ao filme. Não procurem significados mais profundos.

O senhor rodou a saga do conquistador Aguirre, nos anos 1970, tratando-o como um rebelde, e filmou muitos personagens movidos por impulsos extremos. Agora temos duas irmãs absolutamente tomadas pelo amor uma pela outra. Num tempo marcado pela inteligência artificial, esse apego tão humano pode ser entendido como uma forma de rebeldia?

Se olharmos para a inteligência artificial, talvez seja uma forma de rebeldia justamente porque isso é tão humano. Quanto do nosso pensamento, dos nossos sonhos, do nosso amor queremos delegar à internet? Mas tenho cuidado com a palavra "obsessivo", porque todo mundo acha que eu devo ser obsessivo. Não sou. Sou focado.

Existem imagens e entrevistas das irmãs reais que inspiraram o filme. O senhor pediu, porém, que elenco e equipe não assistissem a esse material. Por quê?

Eu conheci essas irmãs muitos anos atrás e disse a todos da equipe e aos atores: "Não assistam às imagens que existem delas". Nós não estamos contando a história delas. Eu inventei uma história completamente diferente da vida dessas duas irmãs. Dois corpos, mas uma só alma. Não queria que ninguém as imitasse. Precisávamos inventar as nossas irmãs. Se falarmos das irmãs reais, isso pode induzir o público ao erro, pois a história que conto é diferente.

O senhor realizou documentários e ficções. O que há na distância entre realidade e invenção?

Este filme é inventado, embora seja vagamente baseado numa experiência da minha vida. É preciso fazer uma distinção: uma coisa é experimentar a vida; outra é contar uma história. Isso fica muito claro quando olhamos para as paisagens do filme, para as cavernas na Irlanda. Elas existem de verdade, mas são transformadas em paisagens da alma. Existe uma transformação. E é isso que o cinema faz.