Cinema

Dia de Concha de Ouro na cidade

'Tender Loving Care', longa que premiou o britânico Mike Leigh em San Sebastián traz ao Festival do Rio uma estética delicada

Dia de Concha de Ouro na cidade
Kate O'Flynn foi laureada em Donostia por sua atuação como assistente social à luz de Mike Leigh em 'Tendre Loving Care Crédito: Divulgação

Está confirmada a presença de "Tender Loving Care" no Festival do Rio 2026: sua estreia no evento se dá nesta quarta, às 14h15, no Cinesystem Belas Artes, em Botafogo. Trata-se de um ímã de suspiros, mesmo quando passa pela dolorosa seara da erosão da saúde (e da lucidez). É um Mike Leigh para sempre. Domingo, às 18h30, pouco antes de a maratona cinéfila carioca dar adeus à cidade, haverá mais uma projeção dele, às 18h30, no Est. Claro Rio. Sua passagem por San Sebastián, no norte da Espanha, em concurso, foi consagradora.

Há dois anos, o cinema estrangeiro, em especial o europeu, vive encantado pelo tema dos cuidados paliativos, examinando estratégias médicas, governamentais e parentais de amparar doentes e idosos com a dignidade acima da farmacologia. O tema encontrou seu apogeu em "O Quarto ao Lado", que deu o Leão de Ouro de Veneza ao manchego Pedro Almodóvar, em 2024. Naquele mesmo ano, o franco-grego Costa-Gavras tratou do assunto sob a perspectiva de um médico e de um filósofo em "Uma Bela Vida". Sua passagem pelo Festival de San Sebastián nº 72 terminou sem prêmios. Aliás, passou-se o mesmo com o ótimo "Hard Truths", que marcou a estreia do octogenário artesão britânico Mike Leigh no certame basco, após cinco décadas e meia de carreira. Este ano, ao se afinar com a discussão da finitude no cirúrgico "Tender Loving Care", ele voltou a Donostia e fortaleceu essa tendência conteudística. Com ela, numa toada das mais afetuosas, ganhou a Concha de Ouro e a láurea de Melhor Roteiro, além de render um troféu de atuação para sua afiada estrela, Kate O'Flynn.

A atriz interpreta Amy, trabalhadora da proteção de idosos e de menores que passa os dias ouvindo, acolhendo e tentando amparar vidas quebradas, ao lado da amiga Rosie (Alice Bailey Johnson), também assistente social. O cuidado, porém, deixa de ser apenas profissão quando Amy retorna para casa e encontra os próprios pais, Birdie (Marion Bailey) e Geoff (Paul Jesson), entrando na fase em que a autonomia já não pode ser tomada como uma certeza. Mike Leigh constrói vasos comunicantes entre a assistência social e a assistência familiar: a mulher que cuida de crianças e famílias vulneráveis precisa aprender a cuidar também dos que a criaram. Há, contudo, uma precisão visual que impede que "Tender Loving Care" se reduza à delicadeza de seu tema. Leigh trabalha os enquadramentos com esmero, encontrando na organização do espaço uma maneira de falar sobre abandono. O Festival do Rio termina no próximo dia 11.