Cinema

Concha da despedida para Mike Leigh

Aos 83 anos, saindo de cena sob o peso de problemas de saúde, diretor vence San Sebastián com 'Tender Loving Care', em meio ao êxito do diretor mineiro Gabriel Martins

Concha da despedida para Mike Leigh
No filme que pode ser a saideira de uma grande carreira, Mike Leigh volta a esgrimar com as práticas quotidianas da empatia, deslocando seu olhar para a realidade laboral do serviço social Crédito: Divulgação

Premiado em múltiplas frentes até ser anunciado como o ganhador da Concha de Ouro de 2026, o drama "Tender Loving Care", do britânico Mike Leigh, sagrou-se no sábado como o filme vitorioso do 74º Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, num momento de êxito em escopo global do diretor mineiro Gabriel Martins, o Gabito. Mesmo sem ter recebido estatuetas do evento basco, sua arte desbravou fronteiras da Europa com "Vicentina Pede Desculpas", representante brasileiro entre os 17 títulos da competição oficial do evento. Mas o belo longa de Martins recebeu a Menção Especial do Prêmio SIGNIS, uma premiação paralela à competição oficial que celebra produções de caráter humanitário.

Fala-se de figuras em fase outonal como Vicentina no belíssimo "Tender Loving Care". O realizador americano Ira Sachs foi o presidente do júri que o referendou com o mimo máximo de San Sebastián (também chamada de Donostia, na língua local). Seu colegiado incluiu a estrela brasileira Alice Braga; o cineasta, escritor e produtor japonês Genki Kawamura; a roteirista francesa Catherine Paillé; a atriz basca Patricia López Arnaiz; o ator sueco Bill Skarsgård; e o produtor britânico Mike Goodridge. Essa turma concedeu a láurea de Melhor Realização para a escandinava Amanda Kernell por "Brace Your Heart", no qual uma mulher se vê tomada por sentimentos proibidos em uma região rural.

O placar das juradas e jurados de Sachs foi aberto com o prêmio de Melhor Roteiro para Mike Leigh, dada a fúria afetiva de "Tender Loving Care", que pode ser a longa final do cineasta de 83 anos, em função de problemas de saúde - que começam a limitar seus movimentos. Ele só havia concorrido no festival uma vez antes, em 2024, por "Hard Truths".

É uma despedida em grande estilo, justamente porque se recusa a comportar-se como despedida. Na (aparente) trilha de simplicidade já vista em seu "Another Year" (2010), Leigh volta a esgrimar com as práticas quotidianas da empatia, mas desloca o seu olhar para uma realidade laboral particularmente ingrata. Amy (Kate O'Flynn) trabalha na protecção de menores e de idosos; a amiga Rosie (Alice Bailey Johnson) também pertence aos serviços sociais. As duas atravessam diariamente vidas quebradas, ressentimentos, precariedade e situações em que cuidar deixou de ser apenas uma virtude para se tornar profissão — uma profissão exercida num sistema público britânico corroído pela falta de apoio institucional. Amy oferece escuta, paciência e presença a desconhecidos e depois regressa a uma vida na qual as mesmas competências começam a ser exigidas dentro de casa. Birdie (Marion Bailey) e Geoff (Paul Jesson), os seus pais idosos, entram numa nova etapa da existência, quando a independência deixa lentamente de ser uma certeza. A produção rendeu o prêmio de Melhor Atuação protagônica a O'Flynn.

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'La Ilusion de un Verano em Fin' conqusitou os Horizontes Latinos | Foto: Divulgação

Canteiro competitivo de San Sebastián devotado a nuestras/os hermanas/os, a mostra Horizontes Latinas deu seu prêmio anual para a Argentina, com foco na potência criativa da fotógrafa argentina Alessandra Sanguinetti, que faz sua estreia no cinema com "La ilusión de un verano sin fin", documentário antes apresentado na seção Cineasti del Presente do Festival de Locarno, na Suíça, em agosto. Alessandra acompanha, ao longo de 25 anos, Guillermina e Belinda, duas meninas dos pampas que começaram a compartilhar fantasias e brincadeiras quando tinham apenas 9 anos. O projeto, iniciado em 1999, acompanha a passagem da infância para a adolescência e, depois, para o trabalho, a maternidade e caminhos cada vez mais distintos.

Terminada a festa de Donóstia, o cinema se volta para o Festival do Rio 2026, que abre suas atividades nesta quinta, no Cine Odeon, com a projeção de "A Bola Preta", um épico queer de Los Javis, apelido do duo espanhol Javier Calvo e Javier Ambrossi. Essa narrativa sobre a luta de diferentes homens gays contra a homofobia, da década de 1930 aos dias de hoje ganhou o troféu de Júri Popular de San Sebastián. O longa, com Penélope Cruz e Glenn Close, foi o título escolhido pela Espanha para representá-la na caça a uma vaga ao Oscar. Neste fim de semana, o público carioca vai conferir seu esplendor.

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As dores de uma Palestina sob ameaça estão no doc. 'Naza' | Foto: Divulgação

Também a partir desta quinta o RJ confere o .doc ganhador da mostra Perlak de San Sebastián: "Naza", um soco no estômago. Ganhadores do Oscar por "Sem Chão" (2024), Rachel Szor e Yuval Abraham uniram forças novamente para escancarar as dores da Palestina num longa, que assegurou à dupla o Prêmio Especial do Júri de Veneza, uma espécie de medalha de bronze. Filmado à noite, dos telhados de Tel Aviv, este documentário investigativo examina as vítimas civis das operações militares de Israel em Gaza e os sistemas por trás dos assassinatos seletivos de palestinos.


Documentando o tempo das Gerais

Documentando o tempo das Gerais
O cineasta mineiro Gabriel Martins em sua passagem por San Sebastián Crédito: Rodrigo Fonseca

Mesmo sem receber prêmios oficiais em San Sebastián, "Vicentina Pede Desculpas" chega com badalação ao Festival do Rio, que começa nesta quinta-feira (1). O longa terá sua primeiro exibição em solo brasileiro e entra com força na briga pelo Redentor de Melhor Longa de Ficção da Première Brasil. E já conta com data de estreia no streaming: 20 de novembro na grade da Netflix.

Nascido num 22 de dezembro há 38 anos, o que o aproxima da influência astral do signo de Capricórnio, Gabriel Martins tem em seu (já bem respeitável) currículo o roteiro do sucesso de bilheteria "Alemão", de 2014, a concepção de uma série baladada da TV a cabo ("O Natal dos Silva") e o cult "Marte Um" (2022), que o levou a Sundance. Agora, na esteira do sucesso de "Vicentina Pede Desculpas" pelo mundo, seu trabalho criativo tem que se articular com sua paticipação em sessões lotadas de fãs curiosos por suas escolhas estéticas.

"Não acredito no cinema como uma experiência distante da vida", disse o diretro ao Correio da Manhã em Donóstia, antes de dar uma dimensionada na força da produtora que mantém nas Gerais com os amigos André Novais Oliveira, Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia: a Filmes de Plástico. "Os vazios que por vezes aparecem no meu cinema refletem o que penso sobre ausência, sobre silêncio", explica.

Sua estrela-assinatura é Rejane Faria, que vive Vicentina, septuagenária assombrada pela chance de seu filho ter causado o acidente em torno do qual o novo filme de Gabriel gira. "Estamos todos muito adoecidos neste tempo de julgamentos e o longa fala sobre como viver um luto que se torna público. Há uma busca por uma verdade, mas existem várias verdades", disse o realizador no festival.

Ao Correio, Gabriel comentou a formação de seu elenco coadhuvante, que vai de Grace Passô a Thalma de Freitas, passando por Karine Teles e Carlos Francisco.

"Gosto de colocar na experiência de um filme pessoas que admiro, pois vira um mecanismo de afeto que me faz filmar melhor" , diz o cineasta, citando como exemplo a breve, mas tocante aparição do crítico e pesquisador Adilson Marcelino (responsável por um inventário sobre mulheres no cinema nacional) como ator. "Mesmo que fora do Brasil as pessoas não saiba quem ele é e sua importância, eu sei quem é o Adilson e conheco a sua força".

Acerca da força das Gerais nas telas, Gabriel fala da construção populacional de um estado associado a uma ideia de interior do país. "Minas é um estado grande. Os vários rostos que aparecem no ônibus no início do filme contam a história de pessoas que se mudaram de cidades pequenas para uma região metropolitana como BH, onde parte do filme foi feito, sendo que eu venho de Contagem", diz Gabriel. "Sendo ficção ou não, um filme é sempre o documentário de um tempo". (R. F.)