Empregada em referência ao cinema, à literatura e a quadrinhos com CEP na França, a palavra polar não se remete ao frio, e sim, a investigações policiais e ao combate à rapinagem e a todas as formas de usar a brutalidade em prol da Maldade. Esse filão teve um mestre, José Giovanni (1923-2004). O Festival de San Sebastián dedicar hoje, em sua 74ª edição, espaço nobre a uma ampla retrospectiva da obra desse craque do roteiro e da direção, reunindo 20 longas-metragens de sua lavra produzidos entre 1960 e 2001.
O ciclo recupera praticamente toda a obra do cineasta como realizador, além de vários filmes cujos roteiros assinou para mestres como Jacques Becker, Jean-Pierre Melville, Claude Sautet, Jacques Deray, Henri Verneuil e Robert Enrico. A mostra transforma a cidade basca numa espécie de cartografia do cinema criminal francês, percorrendo quatro décadas de histórias sobre homens perseguidos pela lei, códigos de honra, amizades postas à prova e personagens que tentam encontrar alguma dignidade em ambientes onde a moral institucional já perdeu sua autoridade.
Nascido em Paris, nos anos 1920, como Joseph Antoine Roger Damiani, Giovanni teve uma vida marcada por episódios dramáticos que moldaram sua obra. Condenado à morte por homicídio, viu a pena ser comutada para trabalhos forçados e transformou a experiência prisional em matéria-prima de romances e roteiros. A publicação de "Le Trou", em 1958, abriu-lhe as portas da literatura policial e, logo depois, do cinema, convertendo sua experiência pessoal com a prisão, o crime e a Justiça numa das matrizes mais singulares do polar — denominação francesa para as narrativas policiais — no pós-guerra.
A retrospectiva percorre cronologicamente essa trajetória, começando por "Como Fera Encurralada" ("Classe Tous Risques") e "A Um Passo da Liberdade" ("Le Trou"), ambos de 1960, seguidos por "Un Nommé La Rocca" (1961), "Sinfonia Para Um Massacre" ("Symphonie Pour Un Massacre", 1963), "Avec La Peau Des Autres" e "Os Profissionais do Crime" ("Le Deuxième Souffle"), estes dois últimos de 1966. São trabalhos que ajudaram a consolidar Giovanni como um dos grandes roteiristas do cinema criminal francês, capaz de alimentar o imaginário de realizadores de personalidades tão distintas quanto Becker, Melville e Sautet. Os títulos brasileiros de "Como Fera Encurralada", "A Um Passo da Liberdade", "Sinfonia Para Um Massacre" e "Os Profissionais do Crime" constam em bases de lançamento e catalogação brasileiras.
"Em seu cinema, o Mal surge das circunstâncias sociais e políticas, dos efeitos de uma guerra mundial e das diferenças de classe", explica ao Correio da Manhã o crítico e historiador espanhol Quim Casas, curador da retrospectiva. "Para ele, eram muito importantes os conceitos de lealdade, amizade e traição, algo que, por exemplo, o aproxima de Sam Peckinpah no western e no thriller. O mundo do crime, a passagem pela prisão, a guerra, o colaboracionismo durante o conflito, a sobrevivência no pós-guerra... Tudo isso constitui e modela seus personagens — e a ele próprio —, e Giovanni nunca pretende emitir julgamentos morais."
É justamente nessa recusa a sentenciar seus personagens que reside uma das modernidades de sua dramaturgia. O criminoso, para Giovanni, não é apenas uma engrenagem necessária ao funcionamento de uma história policial. É alguém produzido pelas circunstâncias, pelos afetos, pela História e por decisões tomadas diante da necessidade de sobreviver. Casas destaca "Mon Ami Le Traître" (1988) como síntese dessa estratégia.
"É um bom exemplo nesse sentido: o retrato de um colaboracionista que pode dialogar com 'Lacombe Lucien', de Louis Malle. Giovanni expõe o fato — colaborar com os nazistas para salvar a própria pele — sem questioná-lo nem defendê-lo", diz o curador.
O programa passa ainda por "Ho! A Face de um Criminoso" ("Ho!"), "Le Rapace" e "Os Sicilianos" ("Le Clan Des Siciliens"), marcos do fim dos anos 1960, antes de alcançar a etapa em que Giovanni assumiu plenamente a direção. É daí que saem "Dernier Domicile Connu", "Un Aller Simple", "Où Est Passé Tom?", "Scoumoune, O Tirano" ("La Scoumoune"), "Dois Homens Contra Uma Cidade" ("Deux Hommes Dans La Ville") e "Le Gitan", produções que ajudaram a redefinir o imaginário do polar europeu e nas quais os limites entre legalidade e justiça passam a ocupar posição central.
Essa tensão alcança especial contundência em "Dois Homens Contra Uma Cidade", estrelado por duas potências do cinema francês, Jean Gabin e Alain Delon. O passado do realizador deixa então de funcionar apenas como combustível subterrâneo da ficção e emerge diretamente na discussão sobre a pena capital. A França só aboliria a guilhotina em 1981.
"É um aspecto importante: a lei social contra a ética dos delinquentes. Mas, como quase tudo no cinema de Giovanni, isso surge de sua própria experiência", afirma Casas. "Ele foi condenado à morte. Não apenas por ter passado por essa experiência, mas certamente influenciado por ela, realizou esse filme com Gabin e Delon, que é, essencialmente, um manifesto contra a pena de morte. Existe uma moral no cinema de Giovanni, mas ela não obedece às regras morais impostas pela sociedade. É dessas dualidades e contradições que nasce o interesse de muitos de seus filmes e romances."
San Sebastián segue até sábado (26), quando o presidente do júri, o cineasta Ira Sachs, diretor de "Frankie" (2019), anunciará as premiações oficiais e o ganhador da Concha de Ouro. Sachs comanda um júri que inclui a brasileira Alice Braga. O Brasil terá ainda uma de suas sessões mais aguardadas no fim da semana com "Vicentina Pede Desculpas", novo longa de Gabriel Martins, de "Marte Um" (2022), que chega ao País Basco após sua estreia mundial no Festival de Toronto.
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