Nos 25 anos que se passaram desde a consagração de "E Sua Mãe Também", de Alfonso Cuarón, onde se destacou ao lado do amigo Gael García Bernal, o capricorniano Diego Luna fez jus ao signo sob o qual nasceu, há 46 anos, em 29 de dezembro de 1979, e trabalhou pacas, em especial nas brechas (e nas vitrinas) que Hollywood lhe abriu. Foi dirigido por Steven Spielberg em "Terminal" (2004). Encerrou o Festival de Cannes de 2016, enfrentando Mel Gibson em "Herança de Sangue" (2016). Encarou Darth Vader no melhor filme da franquia "Star Wars" desde "O Império Contra-Ataca" (1980), o thriller estelar "Rogue One" (2016), que lhe acabou por se esticar na série "Andor", um sucesso da Disney . Esteve ainda na versão musical de "Beijo da Mulher Aranha" para as telas.
Fora isso tudo, o astro mexicano ainda criou uma carreira paralela como realizador, que o traz agora aos Horizontes Latinos, seção competitiva do Festival de San Sebastián, com "Cinzas na Boca" ("Ceniza em La Boca"), já assegurado pela Première Latina do festival do Rio 2026, que abre telas no próximo dia 1°.
No filme, o astro escancara as feridas da imigração ao falar de Lucila (Anna Díaz), que deixa seu país com o irmão, Diego, para reencontrar em Madri a mãe que, há oito anos trabalha ilegalmente na Espanha para sustentá-los. A promessa de uma vida melhor rapidamente dá lugar a uma experiência marcada pela precariedade, pela distância e pelas cicatrizes abertas pela migração. Adaptado do universo literário de Brenda Navarro, a produção tem roteiro de Abia Castillo, Diego Rabasa e do próprio Luna. Em conversa com o Correio da Manhã em Donostia, Luna falou sobretudo das fissuras familiares que encontrou nessa narrativa.
Existe um Diego Luna associado a espetáculos de Hollywood e outro que faz um filme personalíssimo como "Cinzas na Boca". Como concilia esses dois caminhos?
DIEGO LUNA - É o mesmo caminho. Acho que o desconforto traz a melhor versão da criatividade. Passei a vida procurando mudar de posição, tentando não me acomodar em lugar algum. Não procuro o conforto, mas justamente o desafio, o acidente, aquilo que pode nascer da busca. Comecei no teatro, depois fiz cinema, televisão, deixei de fazer TV durante muito tempo... voltei com "Andor". Gosto de produzir, mas também de dirigir. Gosto de testemunhar o processo dos outros para questionar o meu. O que me interessa é seguir mudando de lugar.
O tamanho de uma produção interfere na liberdade que você procura?
Não necessariamente. Existe esse discurso de "Hollywood contra o resto do mundo", porque gostamos de criar categorias para facilitar a compreensão. Mas existe muita coisa nesse papo. Quando fui ao Festival de Sundance pela primeira vez, percebi que havia uma comunidade enorme nos Estados Unidos fazendo cinema com os mesmos desafios que enfrentávamos no México. Hoje gosto de usar a palavra "independente" para falar de um cinema que persegue um ponto de vista. Pode ser grande ou pequeno. "Andor" era tão independente quanto "Cinzas na Boca". Era um projeto do roteirista Tony Gilroy, escrito e produzido por ele, com um ponto de vista por trás das decisões. O que dá integridade a um projeto não é o orçamento nem o país onde ele é feito. É a fidelidade a um ponto de vista.
"Cinzas Na Boca" fala muito sobre empatia. O que há de mais pessoal nesse projeto?
Depois da morte da minha mãe, meu pai teve de pensar constantemente na ajuda de que precisava para seguir adiante exercendo, de alguma forma, o papel de pai e a maternidade que me faltava. Muitas pessoas que amavam minha mãe apareceram na minha vida dizendo: "Nós a amávamos e, por isso, estamos aqui para você". Além disso, em nossa casa sempre viveu outra família. Meu pai decidiu compartilhar a casa com eles e aquela família tornou-se o nosso apoio, a outra perna que faltava à mesa. Cresci fazendo parte de duas famílias. Acho muito bonita a reflexão que o filme faz sobre a desumanização com que tratamos aqueles que nos ajudam e cuidam de nós. A personagem procura o abraço materno, procura esse cuidado porque cresceu sem essa imagem, sem esse abraço. E, paradoxalmente, passa a vida oferecendo aos outros justamente aquilo que não recebeu.
Há em "Ceniza en la boca" uma aproximação entre ficção e realidade, quase documental. É esse o cinema que mais lhe interessa hoje?
Interessa-me cada vez mais o cinema em que não encontramos a fronteira entre documentário e ficção, aquele que se aproxima de uma realidade existente. Gosto de filmes que nos ajudam a compreender o mundo que experimentamos quando saímos da sala. Isso não quer dizer que eu não goste de fazer outras coisas. Neste momento mesmo estou fazendo um filme da Disney. Mas gosto desse cinema que nos ensina a observar, que nos convida a olhar com curiosidade profunda para o mundo em que vivemos e para histórias que estamos ignorando. Gostaria que, depois deste filme, quando você visse uma mulher cuidando de um bebê num parque, pensasse na história de "Cinzas Na Boca".
É possível encontrar na criação desse filme o Diego Luna de "E Sua Mãe Também", de 2001?
Sem dúvida. Naquele filme experimentei pela primeira vez essa sensação de que o pessoal e o profissional podiam misturar-se. Fizemos uma história sobre amizade e eu a fiz com alguém que considero meu irmão, não apenas meu amigo, o Gael. É a relação de amizade mais longa que tenho. Éramos dois amigos interpretando outros dois amigos e conhecíamos muito bem aquelas personagens porque tínhamos os mesmos referenciais. Desde então começou essa necessidade de encontrar algo próximo de mim naquilo que faço. Se não encontro isso, não sinto completamente que estou num lugar onde possa ser útil — e onde o processo também possa ser útil para mim. Fui muito afortunado por me sentir acompanhado e protegido pela amizade e pelo carinho que me unem ao Gael.
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