79º Festival de Cannes

Reencontro com os Dardenne, nos sorrisos de Tori e Lokita

Reencontro com os Dardenne, nos sorrisos de Tori e Lokita
"Tori et Lokita" foi laureado em Cannes em 2022 e retorna, via Espanha, na seção Agenda 2030, num debate sobre a juventude Crédito: Divulgação - SSIFF

Patrimônio cultural da Bélgica, para onde sempre leva troféus, a cada vez que desfila por uma mostra de cinema de prestígio, a obra realista dos irmãos Jean-Luc e Pierre Dardenne, famosos por conquistarem a Palma de Ouro de Cannes um par de vezes (em 1999, com “Rosetta”, e em 2005, com “A Criança”), vai bater ponto em San Sebastián este ano de novo, numa mostra dedicada a debates sociais da juventude, a Agenda 2030. Os dois vão mobilizar as atenções dos convidados estrangeiros de seu festival e as plateias espanholas, uma vez mais, com o áspero “Tori et Lokita”, laureado com o Prix du 75ème (prêmio especial de 75 anos de Cannes) na Croisette, em 2022.
Leveza nunca foi a homilia da dupla, mas o recente “O Jovem Ahmed” – que rendeu a eles o Prêmio de Melhor Direção em Cannes, em 2019 – e “O Garoto da Bicicleta” – pelo qual conquistaram o Grande Prêmio do Júri no festival francês, há onze anos – eram mais arejados, abertos a conciliações. Mas o novo conto moral deles – acerca do modo como o Velho Mundo lida com imigrantes – não dá licença alguma à esperança. É uma narrativa dotada de precisão cirúrgica, sem perder um plano para o acaso, tensa em seu compacto espaço de tela – 1h28 que passam redondinhos. Seu novo exercício autoral é uma radiografia da desumanidade que circunda os estrangeiros da África na Europa, sob o fantasma do racismo e da exclusão. É um longa pontuado de amargura sobre um casal de irmãos – a adolescente Lokita, encarnada (muito bem) por Joely Mbundu, e um guri, vivido por Pablo Schils – que se aproximam de contraventores pra conseguir os meios (leia-se € 11 mil) para custear seus documentos e ficarem em terras belgas. Lembra a corrida contra o relógio de Marion Cotillard em “Dois Dias, Uma Noite” (2014), um dos exercícios autorais mais populares dos Dardenne.
“Existem nódoas de esperança que alimentam a vida contemporânea de resiliência e que se faz valer a partir das escolhas que fazemos ao largo de nossa moral. É sobre essas escolhas que eu irmão e eu falamos”, disse Jean-Luc ao Estadão no Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, um fórum de lançamentos francófonos, quando “Tori et Lokita” entrou em produção. “Nosso cinema se baseia na observação, no entendimento, na empatia”.
“Tori et Lokita” passa em San Sebastián fora de concurso. O festival termina no sábado, dia 26, com a entrega de prêmios pelo júri chefiado por Ira Sachs. Nesta quinta, Sachs e seu colegiado votante assistem a “Vicentina Pede Desculpas”, novo longa de Gabriel Martins, de “Marte Um” (2022), vindo de Minas Gerais.
Estrelado por Rejane Faria, o drama mineiro acompanha uma professora aposentada de 75 anos que procura as famílias das vítimas de um acidente de ônibus provocado pelo filho, morto na tragédia, depois que surgem suspeitas de que ele teria derrubado intencionalmente o veículo de um viaduto.  
Até o momento, o alemão "Krux" e o argentino "Glaxo" (produzido por Rodrigo Teixeira) são os concorrentes mais badalados.