74° Festival de San Sebastián

O 'Nosso Lar' de Pablo Larraín

O 'Nosso Lar' de Pablo Larraín
Mercedes Morán vive Ema, uma médica que fala com espíritos, em "Mis Muertos Tristes" Crédito: Fábula / K&S Films

Dizer que fantasmas estão à solta em Donostia (nome da cidade de San Sebastián, no norte da Espanha, no dialeto local) não é mero jargão, a julgar pela programação do festival anual basco, hoje em sua 74ª edição, iniciada na última sexta por um filme alemão (de lastros turcos) com o título “Ghost Song”. A natureza espectral dos eventos da cidade alcançou uma dimensão épica na noite do domingo com o envolvente “Mis Muertos Tristes”, uma experiência narrativa de três horas e sete minutos dirigida pelo chileno Pablo Larraín, a partir do universo literário da argentina Mariana Enriquez. Trata-se de uma minissérie da Netflix, com estreia marcada para o próximo dia 24 que ganhou um corte em forma de longa-metragem, incluído no certame ibérico em disputa pela Concha de Ouro. É um fortíssimo candidato ao prêmio de Fotografia, a julgar pelos enquadramentos de Sergio Armstrong, parceiro habitual do realizador de “El Club” (2015) e “No” (2012).

Mercedes Morán, que presidiu o júri do Festival do Rio em 2023, tem uma atordoante atuação (a mais complexa de sua carreira) no papel de Ema, uma médica recém-aposentada capaz de ver, falar, ajudar e até curar espíritos. Ela tenta lidar com a morte da mãe e com as suas próprias contas por acertar. A chegada da sobrinha Julie (Carolina Sánchez Álvarez) e o assassinato de três adolescentes em Piedrabuena, bairro da periferia marcado pela violência, desencadeiam um estranho fenómeno que rompe o frágil equilíbrio entre vivos e mortos. Aquilo que, até então, constituía um fardo exclusivo de Ema começa a alastrar-se por toda a vizinhança: os mortos fazem-se presentes e ninguém poderá escapar ao som dos seus próprios fantasmas. Dolores Fonzi, atriz que brilhou em San Sebastián em 2025, na direção de “Belén”, entra no projeto como uma artista visual capaz de fotografar os ectoplasmas em busca de assistência, carente de um ajuste de dívidas pretéritas com um namorado morto por abuso de morfina.

Consagrado em Cannes, há 18 anos, com "Tony Manero" (2008), Larraín gravita agora pelas sendas do terror, com enorme destreza, mas evita o assombro, construindo um possante estudo da mediunidade. É um “Nosso Lar” hispânico pautado mais na empatia do que em doutrinas.


O Festival de San Sebastián segue até o dia 26, recebendo nesta quinta, em sua mostra mais concorrida, o longa mineiro “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.