Sete anos se passaram desde a vitória brasileira em San Sebastián com "Pacificado", na briga por um Concha de Ouro que, até hoje não ganhou uma companhia de CEP nacional. Em sete décadas e meia de história do festival espanhol, só o longa-metragem de Paxton Winters foi coroado com prêmio máximo da maratona basca: "Pacificado", de Paxton Winters, em 2019. Filmado no Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, esse misto de drama e thriller transformou moradores da comunidade em parceiros de sua construção narrativa. Hoje ele pode ser visto no Disney .
É possível que ele receba um parceiro mineiro. Nesta quinta-feira, Gabriel Martins tenta ampliar a lista de conquistas do Brasil em solo basco com "Vicentina Pede Desculpas", o primeiro representante nacional desde a vitória de Paxton a disputar a competição oficial. Enquanto acompanha à distância a nova investida brasileira, Winters finaliza um thriller de tons humanistas rodado integralmente no Iraque, com Garrett Hedlund (de "Na Estrada"), e começa a escrevet com seus parceiros dos Prazeres uma nova história para filmar no Rio.
"É realmente difícil colocar em palavras a importância que San Sebastián teve. 'Pacificado' começou como um projeto muito pequeno, desenvolvido em conjunto com a comunidade do Morro dos Prazeres. Nem sequer tínhamos certeza de que encontraríamos financiamento, por isso estávamos preparados para fazer o filme com nossos smartphones, se fosse necessário", conta Winters ao Correio da Manhã.
O que nasceu dessa disposição artesanal acabaria projetado numa das vitrines mais cobiçadas da Europa. "Pacificado" saiu da 67ª edição do festival com três distinções: a Concha de Ouro, o prêmio de Melhor Ator para Bukassa Kabengele e o reconhecimento à fotografia de Laura Merians.
A escala da vitória modificou imediatamente o destino internacional de uma produção que havia sido concebida quase no corpo a corpo com a favela. "Já ficamos eufóricos apenas por termos sido selecionados para o festival, quanto mais para a competição. Então, ganhar não um, mas três grandes prêmios do júri foram uma conquista extraordinária, não apenas para a equipe, mas para a vida do filme", recorda o diretor, que filmou "Crude", na Turquia, em 2003, e mudou-se para o Brasil, com quase 40 anos, vivendo parcialmente no Morro dos Prazeres, onde ainda tem uma casa.
"Quando você vence num festival importante como San Sebastián, de repente o mundo inteiro passa a se interessar em ver seu filme. Começam a chegar convites de muitos outros grandes festivais, e a repercussão dos prêmios na imprensa também dá um impulso enorme à produção. Isso mudou completamente a trajetória de 'Pacificado'."
A lembrança mais afetiva de Winters, porém, não cabe numa estatueta. Está associada ao tamanho que aquela pequena experiência dos Prazeres ganhou quando chegou ao País Basco. "Primeiro, havia a dimensão da tela e do cinema. Quero dizer, aquela sala comporta algo como 2 mil pessoas. É realmente incrível. Depois da projeção, o público forma uma fila e aplaude os realizadores enquanto eles saem. Foi extremamente emocionante para toda a nossa equipe. A maioria de nós estava chorando. É um daqueles momentos que você nunca esquece."
Rodado num Rio ainda marcado pelos rastros das Olimpíadas de 2016, "Pacificado" observa a tentativa de reconstrução de uma família pela ótica de Tati (Cássia Gil), menina criada pela mãe, Andréa (Débora Nascimento), e pela bisavó Dona Preta, vivida pela saudosa Léa Garcia. A rotina das três é sacudida pela saída de Jaca (Bukassa Kabengele) da prisão. Ex-chefe do tráfico e pai que Tati praticamente não conheceu, ele retorna aos Prazeres tentando estabelecer outra relação com a filha e, sobretudo, encontrar uma existência possível fora do circuito que o levou ao cárcere.
Laura Merians fotografou esse processo procurando os olhos dos personagens. Seu trabalho transformou a geografia da comunidade em estado emocional e assegurou um dos três prêmios conquistados pelo filme em San Sebastián. Darren Aronofsky, diretor de "Cisne Negro" e "A Baleia", integrou o time de produtores de uma obra cuja dimensão internacional jamais apagou sua raiz carioca. Ao contrário: para Winters, o processo de realização nasceu justamente da convivência com os Prazeres.
É por isso que a presença de "Vicentina Pede Desculpas" na competição deste ano produz um eco particular. Gabriel Martins, diretor de "Marte Um" (2022), chega a San Sebastián com outra cinematografia construída a partir da periferia brasileira.
Produzido pela Filmes de Plástico, coletivo surgido em Contagem, Minas Gerais, seu novo longa é estrelado por Rejane Faria como uma professora aposentada de 75 anos que procura as famílias das vítimas de um acidente de ônibus no qual seu filho morreu. A jornada começa quando aparecem suspeitas de que ele próprio teria provocado deliberadamente a queda do veículo de um viaduto.
Winters conhece e admira o trabalho de Martins e evita assumir a posição de veterano disposto a ensinar o caminho das pedras ao brasileiro que agora entra no páreo pela Concha. "Para ser sincero, hesito em dar qualquer conselho ao Gabriel, porque ele e sua equipe são cineastas excelentes. Sou um grande admirador do trabalho deles e do espírito coletivo com que fazem cinema", diz Winters. A única advertência diz respeito ao turbilhão emocional provocado pela competição: "Estar concorrendo é incrivelmente empolgante, mas também pode ser um pouco estressante. Eu diria apenas para ele tentar conhecer o maior número possível dos outros cineastas em competição, porque isso ajuda a fazer com que a experiência deixe de girar apenas em torno da disputa."
Há também recomendações menos solenes. Winters sugere a Martins aproveitar a gastronomia de San Sebastián e a beleza de uma cidade litorânea na qual identifica até parentescos afetivos com o Rio de Janeiro. "É uma cidade muito bonita e, como o Rio, tem praias ótimas. Uma delas tem até um Cristo olhando para ela. Mas, acima de tudo, eu diria para tentar aproveitar cada momento. Tudo passa incrivelmente rápido. E, por último, quero desejar boa sorte a ele e a toda a equipe."
Enquanto "Vicentina Pede Desculpas" entra em campo para tentar aumentar a representação brasileira na galeria da Concha de Ouro, Winters trabalha numa geografia radicalmente distante daquela que lhe deu o troféu. Seu próximo longa foi rodado integralmente no Iraque e tem Garrett Hedlund, de "Tron: O Legado" (2010) e da série "Tulsa King" (2022-2026), no elenco. O diretor acaba de concluir uma nova montagem e espera iniciar agora a trajetória internacional da produção.
"É sobre um sargento americano que se vê prisioneiro na casa de um jovem iraquiano que começa a se envolver com a insurgência, para horror do pai e da irmã desse rapaz", explica. O desenho inicial de filme de guerra, porém, é progressivamente desmontado pela mudança do ponto de vista. "À medida que a história avança, a perspectiva se desloca lentamente para incorporar a experiência da família iraquiana. Quando as circunstâncias obrigam todos a fugir juntos na velha van da família, o thriller de guerra transforma-se numa jornada tensa e profundamente humana, na qual as fronteiras entre inimigo e aliado, captor e prisioneiro começam a se confundir."
A possibilidade de regressar a San Sebastián com o novo trabalho provoca uma resposta bem-humorada: "Veremos! Acabamos de terminar uma nova montagem do filme e, obviamente, adoraríamos levá-lo para lá".
Mas a geografia que transformou a carreira de Paxton Winters continua a puxá-lo de volta. O cineasta mantém sua casa no Morro dos Prazeres e prepara, ao lado de Maga, seu parceiro de escrita na comunidade, um novo roteiro para ser filmado outra vez naquele território. "Estamos muito entusiasmados com esse projeto, porque é uma história contada a partir de uma perspectiva que nunca vimos desta maneira antes", antecipa.
É um retorno que fecha um círculo sem encerrá-lo. "Pacificado" é só início de uma epopeia criativa de Winters com a cidade.
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