Cinema

'Uma Batalha Após A Outra' recebe novo prêmio internacional

Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica elege longa de Paul Thomas Andersom, o maior vencedor do último Oscar, para receber seu Grand Prix em San Sebastián nesta sexta

'Uma Batalha Após A Outra' recebe novo prêmio internacional
Teyana Taylor recebeu o Globo de Ouro por sua atuação como Perfidia Beverly Hills no longa que deu o Oscar a PT Anderson Crédito: Divulgação

Pelas listas do momento, arrisca-se dizer que "A Odisseia" ("The Odyssey"), de Christopher Nolan, é (incontestavelmente) o melhor espetáculo cinematográfico de 2026... além de ser um dos mais rentáveis da História, com uma arrecadação estimada e US$ 1,6 bilhão. Há quem diga que esse posto, já, já, vá para "Digger", de Alejandro González Iñárritu, com Tom Cruise, que vai estrear em outubro. Fala-se ainda de "Woman Unknown", que deu o Leão de Ouro para May el-Toukhy no último sábado.

No entanto, no Festival de San Sebastián n° 74, que abre suas telas nesta sexta-feira (18), o posto de "O" Filme do Ano cabe a uma sessão de 2025, que se arrastou sob holofotes janeiro e fevereiro adentro: o thriller "Uma Batalha Após A Outra" ("One Battle After Another"). Hoje na HBO Max, o longa-metragem que deu o Oscar a Paul Thomas Anderson (e papou mais cinco estatuetas da Academia de Hollywood, entre elas a de Melhor Longa) vai ganhar um novo pico neste fim de semana, na Espanha, ao receber o Grand Prix Fipresci.

É a quarta vez que o cineasta americano conquista a láurea concedida pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), numa votação que mobilizou 591 jornalistas e críticos de 69 países. A produção estrelada por Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Benicio del Toro, Regina Hall e Teyana Taylor foi escolhida entre todos os longas lançados desde 1º de julho de 2025. Ano passado, o ganhador foi "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles. Fundada em 1925 e recém-chegada ao seu centenário, a Fipresci é a mais antiga associação internacional de profissionais da crítica e do jornalismo cinematográfico. Desde a criação de seu Grand Prix, em 1999, sua lista de laureados reuniu realizadores como Jean-Luc Godard, Pedro Almodóvar, Michael Haneke, Terrence Malick, Aki Kaurismäki, Alfonso Cuarón, Chloé Zhao, Ryûsuke Hamaguchi e Cristian Mungiu. Paul Thomas Anderson já havia vencido com "Magnólia" (1999), "Sangue Negro" ("There Will Be Blood", 2007) e "Trama Fantasma" ("Phantom Thread", 2018). A consagração de "Sangue Negro", aliás, levou o realizador ao palco do Teatro Kursaal, o centro nervoso de San Sebastián, em 2008.

Com orçamento estimado em cerca de US$ 170 milhões, "Uma Batalha Após A Outra" tem sido "O" ganhador de todas as competições por onde passa por ser, entre muitas coisas, um tratado antitrumpista, uma reação do cinema dos EUA a um líder que opera na chave do ódio e fomenta conflitos a fim de alimentar a necessidade de "pão e circo" de um povo (mal) educado pelos Bush e por Reagan. A percepção de que sua dramaturgia se move a partir da rebeldia de uma mulher preta, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), que trata homens com a mesma voracidade e o mesmo desdém com que as forças femininas foram tratadas ao longo da História, dá ao longa de PTA uma carga politicamente poética. Há, ainda, uma reflexão frontal sobre o racismo, encarnada no núcleo em torno do Coronel Steven J. Lockjaw, o ferrabrás vivido por Sean Penn. Sua bilheteria foi de US$ 213 milhões.

Livremente inspirado na prosa de "Vineland" (1990), de Thomas Pynchon, o filme acompanha Bob (DiCaprio), um ex-revolucionário que vive afastado da militância, entre a paranoia e as drogas, ao lado da filha, Willa (Chase Infiniti). Dezesseis anos depois dos acontecimentos que marcaram sua juventude radical, o reaparecimento de um antigo inimigo, Lockjaw (Penn), e o desaparecimento da garota obrigam Bob a regressar à ação. Anderson transforma essa busca numa espécie de colisão entre ideais revolucionários de outrora e a América contemporânea, atravessada por racismo, autoritarismo e violência militar.

"Paul é leal à sua equipe e tem a habilidade de extrair o melhor de cada um pois luta por aquilo em que acredita, a começar por seus atores", disse DiCaprio ao Correio da Manhã, numa entrevista via Zoom, ao lado de Benicio Del Toro, organizada pela Golden Globe Foundation. "É a partir de um revolucionário numa espiral de sacrifício, vivido por mim, que ele discute sua ideia de lealdade. Fizemos algo que lembra clássicos do cinema político como 'The Parallax View' (no Brasil, 'A trama', de Alan J. Pakula). Temos dramas políticos tratados com humor".

A vitória na votação da Fipresci amplia uma temporada de consagração internacional para "Uma Batalha Após A Outra", que saiu da última edição do Oscar com troféus em categorias como Melhor Filme, Direção, Produção De Elenco (Casting), Ator Coadjuvante (Penn), Roteiro Adaptado e Montagem. Na eleição da crítica mundial, o longa de Anderson superou quatro finalistas de peso: "A Amiga Silenciosa", de Ildikó Enyedi; "A Voz de Hind Rajab", de Kaouther Ben Hania; "Hamnet", de Chloé Zhao; e "Fjord", de Cristian Mungiu.

A entrega do Grand Prêmio Fiptesci será realizada em meio à gala de abertura de San Sebastián, onde será exibido o longa "Ghost Song" ("Geister"), do diretor teuto-turco Fatih Akin. Seu novo filme concorre à Concha de Ouro de 2026, que tem entre seus competidores a produção mineira "Vicentina Pede Desculpas", de Gabriel Martins.