Cinema

Brasil chega à toda ao Festival de Biarritz

Maratona cinematográfica franceca dedicado à América Latina seleciona cinco produções de diferentes cantos país nas três competições de sua 35ª edição, aberta via México

Brasil chega à toda ao Festival de Biarritz
'Coração de Lona', de Tuca Siqueira, representa o Brasil no âmbito dos longas de ficção de Biarritz Crédito: Divulgação

Vai se ouvir português aos montes, com temperos de diferentes regiões do Brasil, já, já em Biarritz, um éden à beira-mar situado no Sudoeste da França. A cidade é povoada por 25,7 mil moradores, que se estende por uma área de 11,66 km², localizada a 35 km da fronteira com a Espanha, em território basco. Fica pertinho de San Sebastián, cidade do norte espanhol que vai inaugurar seu festival anual nesta sexta, levando-o até o dia 26.

Nessa data de encerramento de suas atividades, é a vez uma competição cinematográfica voltada para a América Latina dar um sacode na rotina do território francês encarado como um oásis, não só por sua paisagem, mas também por sua potência cinematográfica. A abertura de Biarritz fica por conta do México e seu imparável "Moscas", de Fernando Eimbcke.

Com cinco filmes espalhados pelas três competições oficiais dessa maratona francófona (que se abre para a escuta de nosso idioma), o Brasil desembarca lá com títulos de distintas regiões de nosso território. Criado em 1979 e convertido numa das principais vitrines europeias para a produção latino-americana, o evento divide suas projeções entre o Casino Municipal, a Gare du Midi e o cinema Le Royal. Por lá já passaram nomes como Kleber Mendonça Filho, Ricardo Darín, Sebastián Lelio e Dolores Fonzi. Neste ano, a representação brasileira atravessa as disputas de longas de ficção, longas documentais e curtas-metragens, numa seleção em que questões de classe, raça, território e memória política dão ao país um peso especial.

O representante brasileiro na competição de ficção é "Coração de Lona", da pernambucana Tuca Siqueira. Com 95 minutos, o longa acompanha Inês, uma bailarina que vive com a família num circo em decadência. Depois de perder um filho, ela precisa atravessar uma dor que transforma a relação com o passado. Tuca trata a história como uma fábula realista sobre encerramento de ciclos e sobre o direito de sonhar, acompanhando personagens para os quais a imaginação funciona também como mecanismo de sobrevivência.

São dez concorrentes na briga pelo troféu Abrazo de melhor ficção. Nela se destacam ainda "Ceniza en la boca", "Hangar Rojo" e "Hiedra".

Macaque in the trees
'Pau D'Arco' se constrói nas franjas de uma chacina na Amazônia Paraense | Foto: Divulgação

O Brasil duplica sua presença na competição de documentários. "A Fabulosa Máquina do Tempo", quinto longa de Eliza Capai, parte de Guaribas, no Piauí, para acompanhar a passagem da infância à adolescência através dos olhos de uma menina de 10 anos e de suas amigas. Em meio à pobreza do sertão, elas imaginam uma máquina do tempo capaz de conduzi-las ao passado das mães e avós e, sobretudo, a um futuro no qual possam tornar-se mulheres livres. O currículo internacional de Capai aumenta o peso da candidatura: "Espero Tua (Re)Volta" passou pela Berlinale de 2019 e conquistou lá os prêmios da Anistia Internacional e da Paz. "A Fabulosa Máquina do Tempo" será exibido em Biarritz nos dias 27 e 28 de setembro. A outra aposta brasileira entre os documentários é "Pau d'Arco", primeiro longa de Ana Aranha, jornalista e documentarista com uma trajetória ligada à investigação de violações dos direitos humanos. O filme acompanha durante sete anos as consequências de um massacre ocorrido na Amazônia, no qual dez trabalhadores sem-terra foram mortos pela polícia. Um dos principais sobreviventes e seu advogado lutam por justiça e pelo direito à terra, enquanto novos acontecimentos levantam suspeitas sobre tentativas de silenciar o crime.

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A mirada feminina infanto juvenil torna 'A Fabulosa Máquina do Tempo', que nasceu na Berlinale | Foto: Divulgação

A competição documental reúne igualmente dez títulos. Destacam-se, além dos contendores nacionais, "Diciembre", "En Tierra" e "Llamarse Olimpia".

Há Brasil em dose dupla também entre os curtas. Em "Caso Isolado", de Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, um acidente envolvendo um entregador leva Cristina, mulher negra de pele clara, a trabalhar com a entrega de cosméticos pelas ruas de João Pessoa. Os encontros que se sucedem expõem tensões em torno de identidade, pertencimento racial e colorismo.

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'Caso Isolado' faz uma triagem de intolerâncias | Foto: Divulgação

Já o (badalado) filme "Os Arcos Dourados de Olinda", de Douglas Henrique, vai por outro caminho e transforma uma curiosidade histórica pernambucana em instrumento de reflexão política. O curta de 24 minutos recupera o embate entre a administração municipal de Olinda e a chegada do McDonald's, perguntando como a cidade se tornou a primeira do mundo a levar uma unidade da cadeia americana à falência. Completam a disputa de curtas produções como "Allá en el Cielo", "Chulquín" e "Época de plagas".

Mais do que uma mostra de cinema, Biarritz construiu ao longo de sua história uma espécie de embaixada temporária da cultura latina no Velho Mundo. Além das três competições, o festival promove debates, encontros literários, exposições e atividades profissionais voltadas à coprodução entre europeus e latino-americanos. À noite, o Casino transforma-se em pista para concertos e ritmos que vão da salsa e da cumbia à bossa nova e ao reggaeton. Em 2026, Cuba e Uruguai recebem atenção especial nessa micareta, que segue até 2 de outubro.