Nesta segunda-feira de tempo ruim no Rio, a TV Globo abre sai “Tela Quente”, às 23h30, para “Adão Negro” (2022). A sessão, (bem) dublada, assegura uma segunda chance de prestígio popular para uma adaptação de HQs da DC Comics. É um exercício radical na mitologia dos quadrinhos que foi recebida com (uma injusta) frieza em sua estreia. Hoje é noite de o vilão encarnado por Dwayne The Rock Johnson (e dublado por Garcia Júnior) provar para o público brasileiro o bom personagem que é. Seu trabalho no recente "Moana" foi beeeeeeem infeliz, mas aqui, na seara da Liga da Justiça, sua sorte é melhor.
Dono de um dos cachês mais altos de Hollywood da atualidade, Dwayne, um ex-campeão de luta livre, consegue se sair muito bem em sua incursão no filão de adaptações de super-herói, encarnando um ser sombrio, com poderes e onipotência de divindade. Ele só não dura muito tempo no ringue da excelência quando Pierce Brosnan aprece a seu lado. É o 007 da década de 1990 quem toma “Black Adam” (título original da fita) para si, ainda que seu astro principal filtre seus cacoetes interpretativos e encontre uma interseção entre a fúria e comiseração, num paradoxo raro. O diretor catalão Jaume Collet-Serra (de “A Órfã” e “Desconhecido”) não teve como trazer seu ator fetiche, Liam Neeson, pro elenco. Ainda assim, deitou e rolou no carisma de Brosnan, uma vez que sua especialidade são figuras heroicas grisalhas. Com um orçamento inflacionado de US$ 190 milhões para cerca de US$ 250 milhões, o realizador entrega à Globo hoje um eletrizante espetáculo visual decalcado de gibis da DC, a editora do Superman. Mescla bem Geografia com adrenalina (artigo escasseado pela correção política), abrindo fogo contra o intervencionismo militar exportado pelos EUA para o mundo. Ganha força plástica na direção de arte de Beat Frutiger e Tom Mayer, mesmo soterrado numa overdose de efeitos visuais.
Brosnan é o sol dessa narrativa, que frisa a dimensão soturna da DC-Warner-HBO Max no trânsito pelas mitologias dos comics, diferentemente do perfil parque de diversões da Marvel. Aos 75 anos, com cerca de 110 produções num currículo iniciado em 1980, Brosnan chamou a atenção dos brasileiros, na própria Rede Globo, como o Remington Steele da série “Jogo Duplo”, que durou 94 episódios, entre 1982 e 1987. A intimidade dele com o universo da espionagem deu uma guinada com o hoje esquecido “O Quarto Protocolo” (1987), de John Mackenzie, o que habilitou seu perfil pra herdar de Timothy Dalton o posto de James Bond. De “GoldenEye” (1995) a “Um Novo Dia Para Morrer”, lançado há 24 anos, ele foi um Bond rentabilíssimo, que garantiu à franquia 007 um faturamento estimado em US$ 1,5 bilhão. Depois disso, recebeu indicação ao Globo de Ouro (“The Matador”), cantou com Meryl Streep (em “Mamma Mia! O Filme”) e fez thriller premido na Berlinale com Roman Polanski (“O Escritor Fantasma”). Agora, é a vez de emprestar sua sabedoria a um dos personagens mais enigmáticos dos quadrinhos: Kent Nelson, o guardião do elmo mágico de Nabu, mais conhecido como Sr. Destino.
Criado em maio de 1940, por Gardner Fox, na revista “More Fun Comics” #55, Destino é a dose precisa de magia no planisfério pluralíssimo de vigilantes da DC, que encontra um lar na Sociedade da Justiça. Na trama filmada por Collet-Serra, ele vai até o reino de Kahndaq, uma mistura do Irã de hoje com o Iraque da Guerra do Golfo (sob uma ótica catastrofista), onde o Adão Negro desperta de um sono milenar para salvar seu povo do jugo de mercenários, a Intergangue. Sua violência desmedida obriga a Sociedade, liderada pelo Gavião (um inspirado Aldis Hodges), a agir, calcando-se nas habilidades de um par de jovens: Cyclone (Quintessa Swindell) e Esmaga-Átomo (Noah Centineo). Só o Sr. Destino parece capaz de tocar aquele coração empedernido pelo ódio e ofertar ao público, graças ao talento de Brosnan, uma aula sobre responsabilidade. No Brasil, Luiz Carlos Persy, um gênio da dublagem, empresta a voz a Brosnan.
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