Cinema

Clementino Jr: 'Meus filmes são minhas pegadas neste plano'

Clementino Jr: 'Meus filmes são minhas pegadas neste plano'
O diretor Clementino Jr Crédito: Claudia Belle/Divulgação

Francisca Xavier Queiroz de Jesus (1932-2020) é viva. Vive na saudade da gente, na memória das lutas decoloniais do Brasil, nos acervos da TV, nas recordações das batalhas do povo preto deste país para ser respeitado e... agora... viverá lindamente na programação do Festival do Rio 2026, como personagem (e força vital) de um documentário dirigido por seu filho. Agendado de 1° a 11 de outubro, a maratona cinéfila carioca terá Clementino Junior em seu rol de vozes autorais - e nem poderia ser diferente, dada sua vastíssima (e potente) produtividade como diretor.

Ele pede bênção à sua figura materna... que carrega em sua persona um alto grau de maternidade em relação a toda esta nação... no filme "Amor e Fé: Chica Xavier". Já, já, será anunciada a programação do evento, com as salas e horários da projeção dessa carta de amor.

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Chica Xavier foi uma das atrizes negras de maior visibilidade, brilhando no teatro, cinema e, principalmente, na televisão | Crédito: Acervo de família

Atriz do mais alto quilate dramático, Chica nasceu em Salvador, em 22 de janeiro de 1932. ´É baiana de Oyá. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1953, onde se tornou um ícone do teatro, cinema e televisão, consagrando-se como símbolo de representatividade para gerações de atores e atrizes negros. Passou pelo "Orfeu da Conceição", em 1956, de Vinícius de Moraes, e seguiu. Debutou nos palcos ao lado de Clementino Kelé, com quem permaneceu casada por umas seis décadas. Clementino Junior é testemunha desse amor.

Realizador de joias como "Romão" e "Curai-vos", Clementino contabiliza hoje 36 filmes em seu currículo. "Amor e Fé: Chica Xavier" é o seu terceiro longa documental, antecedido de "Anjo de Chocolate", de 2013, e "Trem do Soul", de 2021. É professor na PUC-Rio, formando cabeças com sua mirada inclusiva, carioquíssima. "Nasci e vivo até hoje (fora um intervalo de dois anos que passei em Moçambique) no Humaitá, no sovaco do Cristo", diz o cineasta e educador, que, em entrevista recente ao Correio da Manhã, celebrou a relevância do Festival do Rio pro povo desta cidade. "Foi onde descobri, em sessões de filmes orientais e africanos, outras narrativas além das hegemônicas". Agora, uma vez mais, o Redentor, o signo da Première Brasil, abre seus braços para sua estética e para Chica Xavier. O papo a seguir é sobre ela e seu legado.

Quantos e que Brasis cabem na figura de Chica Xavier e de que maneira fazer um filme sobre ela é desbravar esses locais?

Clementino Junior - Durante o processo de produção do documentário, com roteiro de Bruna Christine, sempre brinquei com ela que minha mãe Chica é o "Forrest Gump" dentro da cultura brasileira. Minha avó foi funcionária de Anísio Teixeira, para quem meus pais trabalharam no recém fundado INEP nos anos 1950, mesma década da estreia dela no teatro, junto com Kelé, em "Orfeu da Conceição", no Teatro Municipal, com Vinícius, Jobim, Abdias e Niemeyer. Estava com o Dream Team negro de "Assalto ao Trem Pagador", enquanto trabalhava no serviço público com gente do naipe de Manoel Diegues e Darcy Ribeiro. Esteve no coro de Erlon Chaves defendendo "Quero Mocotó" no Festival da Canção no Maracanãzinho em 1970, e atuou em dezenas de novelas, dando corpo e alma a inúmeras personas negras, em especial a ialorixá Magé Bassã de "Tenda dos Milagres". Não é de se estranhar que o título de sua mais recente biografia se intitule "Chica Xavier - Mãe do Brasil", pois sua imagem sempre acolheu e ilustrou o povo brasileiro em todas suas camadas, a partir de sua baianidade.

Que primeira memória associa Chica Xavier e cinema?

Com certeza a sua única cena em "Assalto Ao Trem Pagador", contracenando com meu pai Clementino Kelé, que foi tão marcante, que fez o diretor Fábio Sabag lembrar dela em suas primeiras oportunidades de participações em novelas na TV Globo, o que foi o caso de sua participação em "Cabana do Pai Tomás", que inaugurou sua carreira em telenovelas.

Que linha dramática desenha seu filme?

O filme trabalha algumas camadas de uma mulher baiana que migra para o Rio de Janeiro com as metas de se estabelecer e trazer sua mãe de Salvador, estudar para ser atriz, e conhecer seu pai. Essa história apresenta a mãe que, mesmo com as demandas da atriz e do serviço público, traz a família, a religiosidade e a política no mesmo peso.

De que maneira as narrativas as narrativas audiovisuais têm sido essências às lutas decoloniais do país?

O Brasil se vangloria de uma diversidade que não se percebe plena em todos os setores, se não houver políticas públicas que as garantam. Quando trago a Chica Xavier, que atuou como conselheira da Fundação Palmares, com outros grandes nomes do Movimento Negro, na preparação do que veio a ser a Lei 10639/03 (Lei pelo ensino de história e cultura afro-brasileira), ainda antes do primeiro governo Lula, venho desmistificar a imagem construída de atrizes que quase sempre apareciam em papéis subservientes, ou personagens sem histórico ou agência. Tento trazer luz para o seu protagonismo nos bastidores da História. A geração das "Damas Negras" - Chica Xavier, Ruth de Souza, Lea Garcia, Zezé Motta e todas as suas contemporâneas - contribuíram para além das telas. Se hoje temos mulheres negras transformando a cadeia audiovisual, as pioneiras plantaram muitas sementes para que as de hoje colhessem os frutos.

Que novos filmes você tem para lançar além do .doc sobre ela? Que outros curtas e longas estão em andamento?

Ainda em novembro lançarei um curta-metragem de "humor negro" chamado "Branco", fruto do edital SESC Pulsar, onde falo de saúde mental e pressão por produção e visibilidade de autores negros na cadeia do audiovisual e, para 2027, tenho o longa híbrido "Chão de João", codirigido por Márcio Januário, onde quatro atores constroem e buscam identidade em quatro personalidades afrodescendentes e gays da história: João do Rio, Joãosinho da Gomeia, Joãozinho Trinta e Madame Satã. Por enquanto, são os projetos prestes ao lançamento.

Em que momento você sentiu que o cinema é a sua forma de expressão?

Na época do vestibular, virada dos anos 1990, abri mão de cursar cinema para cursar design, pensando em me tornar quadrinista. O curso me desestimulou ao desenho, mas me apresentou parceiros de vida como Marão, dentre outros animadores, com quem me iniciei no audiovisual a partir da animação. Através dessa linguagem, realizei meus três primeiros curtas, dos 36 filmes que lancei de maneira independente e, majoritariamente, autofinanciados. Hoje me vejo como o professor (que nunca cursou Cinema) da práxis e da experimentação que faz filmes nas "horas vagas", mas não deixa de expressar ou condicionar seus desejos aos editais. Meus filmes são minhas pegadas neste plano.