Cinema

Renascimentos de grifes à italiana

Após a passagem de 'Succederà Questa Notte', de Nanni Moretti, Veneza expande sua investigação de novos veios autorais de sua nação ao conferir 'L'estranea', de Paolo Strippoli, nesta terça

Renascimentos de grifes à italiana

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Existe uma forte chance de o Brasil trazer o Leão de Ouro para cá este ano, mas terá de dividir seu troféu com a Itália, pois "Retorno a Buenos Aires" - uma investigação sobre as chagas das ditaduras sul-americanas - é uma coprodução com a pátria de Fellini, dirigida por um chileno, Marco Bechis, que tem ascendência italiana lá na Terra da Bota, onde o neorrealismo nos deu "Ladrões de Bicicleta" (1948) e "Roma, Cidade Aberta" (1945).

Mesmo com parte de seu DNA sendo brasileiro, o longa-metragem integra um grupo de cinco expressões autorais de peso que representam a tradição italiana entre os 21 concorrentes do Festival de Veneza. Concorrem com Bechis os diretores Paolo Strippoli, Edoardo De Angelis, Andrea Pallaoro e um titã: Nanni Moretti.

Ganhador da Palma de Ouro de 2001 por "O Quarto do Filho", esse bamba das comédias políticas (e do melodrama também) ficou 45 anos longe da competição do Lido — o centro nervoso dessa maratona cinéfila — depois de ser laureado com o Prêmio Especial do Júri por "Sogni d'Oro", em 1981 (em empate com "Eles Não Usam Black-tie", do carioca Leon Hirszman). Afastou-se por quiproquós políticos com a direção da La Biennale di Venezia, decorrentes de maus tratos a seu "Palombella Rossa" (1989), e fechou parceria estreita com Cannes, que, nos últimos anos, parou de dar bola (e estatuetas) para seu cinema corrosivo, mas popular.

"Succederà Questa Notte", com Louis Garrel e Jasmine Trinca, passou no domingo, marcando sua volta às gôndolas, numa comprovação de que a velha centelha autoral de sua pátria, maior rival de Hollywood na História, ainda provoca incêndios.

Nesse novo trabalho de Moretti, com as tintas agridoces habituais, quatro inquilinos moram no mesmo prédio, em uma cidade israelense. Cada um se depara com problemas pessoais e vagas emocionais. Suas vidas estão interligadas enquanto buscam realização, conexão e redenção. Já se fala numa láurea de Melhor Direção para o realizador e até no Grande Prêmio do Júri.

O que se fala mais, alto e forte, é que "Succederà Questa Notte" simboliza o que compatriotas dele chamam de Nuovo Risorgimento, um renascimento de veias estéticas. Um ressurgimento com uma força tão grande quanto a que se viu há 18 anos, quando "Gomorra", de Matteo Garrone, e "Il Divo", de Paolo Sorrentino, tiraram a indústria cinematográfica da Itália dos aparelhos de respiração que a mantiveram, a duras penas, por quase três décadas. Em tempos de derrocada daquele povo nas telonas, a ironia nannimorettiana de "O Crocodilo" (2006), "Aprile" (1998) e "Caro Diário" (1993) manteve a dignidade daquele audiovisual em alta.

"Muita coisa mudou no mundo, sobretudo a velocidade de consumo", disse Moretti ao Correio, em Cannes, ao iniciar "Succederà Questa Notte". "O sistema político já foi um sistema sólido, mas, neste momento, enfrentamos uma fase de desarticulação. Se pensarmos na Itália, falta um leme na execução da nossa atividade. O streaming surgiu hoje com força e funciona muito bem no sistema produtivo das séries, mas, no campo dos filmes, o papel criativo do diretor não é o que foi. Fui formado por um tipo de narrativa pré-1968 em que cada filme refletia sobre a realidade e sobre o próprio cinema, com Ermanno Olmi, Marco Ferreri, os irmãos Taviani, o Free Cinema inglês e a Nouvelle Vague. Um cinema que nos fazia não sermos imparciais".

Com 50 anos de longas na carreira, a começar por "Eu Sou Autossuficiente" (1976), Moretti foi a clareira que, pelas vias da ironia e da sátira política, manteve a grandeza do cinema italiano viva e festejada na década de 1980. Começou ali a Idade Média midiática em que Silvio Berlusconi (1936-2023), no comando político daquele país, sucateou a produção audiovisual local, a fim de valorizar mais a TV do que a telona. Uma terra de gigantes — Rossellini, De Sica, o já citado Fellini, Visconti, Antonioni, Pietro Germi, Pier Paolo Pasolini, Elio Petri, Lina Wertmüller, Valerio Zurlini —, próspera na seara dos filmes de gênero, seja no terror (com o giallo de Dario Argento), no faroeste (com as macarronadas de Sergio Leone, Tonino Valerii e Sergio Corbucci) ou nos épicos de gladiadores (o peplum), minguou por um bom tempo, de 1984 a 2008, vendo suas fontes de fomento à produção cinematográfica escassearem. Até campeões de bilheteria como Carlo Pedersoli e Mario Girotti (conhecidos como Bud Spencer e Terence Hill) deixaram de fazer os longas da franquia "Trinity", sob a guilhotina de Berlusconi, restando visibilidade a poucos cineastas. Giuseppe Tornatore (com "Cinema Paradiso") e Roberto Benigni (com "A Vida É Bela") souberam flertar com as receitas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Resistentes do movimento moderno também se mantiveram firmes, como o finado Bernardo Bertolucci (1941-2018) — que fez incursões pelo Oriente e filmou em outras línguas — e o até hoje imparável Marco Bellocchio, que filmou "O Traidor" (2019) no Rio e está rodando "Falcon", com Pierfrancesco Favino, sobre o empresário Sergio Marchionne, da Fiat. Mas esses dois são crias dos anos 1960. Moretti, não. É, portanto, cria de outra Itália, desmobilizada da tradição e mesmo da revolução dos modernos do nuovo cinema de vanguarda. Nem por isso deixou de buscar revoluções, filme a filme.

Há outros revolucionários como ele na grade de Veneza, mas fora de concurso. Um deles é Mario Martone (de "Nostalgia"), que conta com o Raul Cortez chamado Toni Servillo à frente de "Scherzetto". O astro, premiado com a Copa Volpi de 2025 — o troféu oficial de Melhor Atuação de Veneza, entregue a ele por Fernanda Torres, que era jurada no ano passado — por "La Grazia", regressa agora no papel do ilustrador Daniele Mallarico. Aos 70 anos, ele terá de cuidar do neto, Mario, que tem cinco anos e é um pequeno furacão.

Com status de medalhão autoral, Gianni Amelio ("As Chaves de Casa") clama para si os holofotes do Lido com "Nessun Dolore", escalado em exibições paralelas à corrida ao Leão. É um drama intimista sobre imigração, estrelado por Alessandro Borghi ("As Oito Montanhas") e Valeria Golino ("Rain Man"). Em sua narrativa, um fenômeno contagiante do sono atinge toda a população de uma cidade. Dois escoteiros continuam sendo os únicos acordados.

Nesta terça-feira, a competição pelo Leão de Ouro confere "L'Estranea", de Paolo Strippoli. Em seu enredo, uma mulher aparece inesperadamente à porta da casa da filha para lhe contar a verdade sobre sua família — uma verdade ligada a um pacto firmado muitos anos antes com uma desconhecida. Com a revelação, um segredo enterrado durante anos está de volta para cobrar seu preço.

Nesta quarta-feira, é a vez de "Il Fuoco Che Ti Porti Dentro", de Edoardo De Angelis (o mesmo do épico bélico "Comandante"). Seu protagonista, Antonio, deixou Nápoles muitos anos atrás e construiu em Milão uma família e uma carreira de sucesso, mantendo-se distante de sua mãe, Angela — uma mulher excessiva, para o bem e para o mal, mas irresistível. Ela vai visitá-lo no Natal e parece decidida a ficar.

Exibido no domingo e na segunda-feira a uma Veneza curiosíssima, "The Echo Chamber", de Andrea Pallaoro, pode dar a Copa Volpi à veterana Susan Sarandon, hoje proscrita nos EUA por atos políticos avessos ao trumpismo. Sua premissa veio de Bertolucci (que nos deixou em 2018). Em seu olhar para o amor e os espaços, Leo (Luca Marinelli) e Anne (Alicia Vikander) perseguem um ao outro, aproximam-se, perdem-se e voltam a se procurar. Não conseguem se separar, mas tampouco conseguem se libertar. Pelos cômodos ressoa a voz de Ava (Sarandon), atravessando o tempo e fazendo emergir aquilo que resiste — ou aquilo que já não pode mais ser contido.

Veneza anuncia sua premiação no dia 12, data em que se saberá a sorte de "Retorno a Buenos Aires" e de Marco Bechis, cineasta antes conhecido por "Terra Vermelha" e "Garagem Olimpo". Estrelado pelo italiano Adriano Giannini, o filme reúne Paula Cohen e Eduardo Hoy, do Brasil, em papéis de destaque, além das atrizes argentinas Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss. Cineastas de peso de nosso front autoral, como Cibele Amaral ("Momento Trágico") e André Ristum ("Meu País"), estão nos créditos de produção da fita.

Em "Retorno a Buenos Aires", o personagem central, Mariano Guerra (Giannini), é chamado a retornar à Argentina para testemunhar no julgamento dos militares que o sequestraram e torturaram durante a ditadura militar — a mesma que, em 1978, organizou a Copa do Mundo de Futebol enquanto o país vivia sob uma repressão clandestina. A história dialoga diretamente com a trajetória do próprio Bechis, que foi preso político durante a ditadura argentina, vivência que marca sua filmografia e confere ao longa um caráter testemunhal.

Resta saber seu impacto sobre a presidente do júri, a atriz e cineasta Maggie Gyllenhaal, e os demais integrantes do colegiado.