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'Moscas': cult em P&B que zumbe encanto na MUBI

'Moscas': cult em P&B que zumbe encanto na MUBI
"Moscas" conta com "Chaves" como sua referência Crédito: Berinale.de

Escalado para os Horizontes Latinos de San Sebastián (de 18 a 26 de setembro), o drama de CEP mexicano “Moscas” enfim tem espaço no Brasil, mas diretamente no streaming, na MUBI. É a pedida ideal para as plataformas digitais neste feriadão. Ao longo de seus 99 enxutos e comoventes minutos, este “Central do Brasil” do México, dirigido por Fernando Eimbcke (de "Olmo"), cozinha o melodrama na água fervente do humor e do legado analógico dos nos 1990 para mostrar como a inocência de uma criança pode desarmar muita guerra. Saiu do Festival de Berlim com o Prêmio do Júri Ecumênico por sua empatia latente.
No roteiro escrito por Vanesa Garnica com Eimbcke, a solitária Olga (Teresita Sánchez) leva uma rotina avessa a afetos até se ver obrigada a alugar um quarto em casa para conseguir dinheiro para uma intervenção cirúrgica aos pés. Um homem (Hugo Ramírez) se candidata à vaga, sem lhe contar que tem um filho pequenino, Cristian (Bastian Escobar). A mãe do menino está hospitalizada, a lutar contra uma doença terminal. Em determinado momento, Olga terá de tomar conta do guri, o que a retira da sua zona de conforto e conduz o público a situações onde o humor surge com naturalidade, com ecos de "Chaves", mas à moda do neorrealismo de Vittorio De Sica ("Ladrões de Bicicleta").
"Oscar Wilde dizia: 'Onde há dor, há um lugar sagrado'. As pessoas deste meu filme se juntam por motivos que doem, mas existe luz nessa história", disse Eimbcke ao Correio da Manhã.
Walter Salles e seu “Central foram uma inspiração direta do realizador - ao lado de "O Garoto", rodado por Charles Chaplin em 1921 -, ganhou o Urso de Ouro em 1998, deflagrando a chamada Nova Onda Latino-Americana, que fez o cinema (o nosso e o) de nuestros hermanos empregar um conjunto de procedimentos documentais para narrar, na ficção, urgências de seus territórios. A consequência dessa marola foram sucessos como "Amores Brutos", "Cidade de Deus", "O Outro Lado da Lei" e "Temporada de Patos", rodado por Eimbcke lá em 2004.
"Filmamos 'Moscas' como se fosse um documentário pois eu queria a energia vital das ruas no filme, sem ter que parar o trânsito para isso, cuidando apenas de avisar as pessoas de que havia um filme sendo feito e consultando-as sobre autorização do uso de imagem para o caso de elas aparecerem", disse Eimbcke, que extrai uma interpretação tocante de Bastian.
Ao ser laureado em Berlim, o cineasta cravou: “O grande realizador Jean-Luc Godard dizia que o ponto central do cinema não é fazer filme político é fazer filmes politicamente. Outro mestre, Charles Chaplin, dizia que cinema não é lugar para passar mensagem, pois as mensagens devem ser passadas em plenárias. Neste palco, eu passo uma mensagem: 17.000 crianças morreram em Gaza. Clamo para que as pessas percebam isso, pois esse filme é dedicado a toda às crianças do mundo", disse Eimbcke, que ganhou ainda um prêmio da massa leitora do Berlinler Morgenpost.