ENTREVISTA

Tizuka Yamazaki: 'Quero morrer num set de filmagem'

Tizuka Yamazaki: 'Quero morrer num set de filmagem'
Tizuka Yamasaki, cineasta Crédito: Aladim Monteiro

Com projetos das mais variadas naturezas para tirar do papel, Tizuka Yamasaki embarca hoje numa cruzada para restaurar sua obra-prima, o épico "Gaijin" (1980), exibido na Quinzena de Cannes e na Berlinale. A repercussão mundial dessa produção, combinada com sua fortuna crítica das mais invejáveis, deveria lhe abrir portas. Não bastasse a consagração, os números falam pela artista. Ela assinou a direção de muito blockbuster ao longo de uma carreira perfumada a cifras altas na venda de ingressos. Nascida em Porto Alegre (RS), em 1949, com raízes japonesas bem fincadas na terra, passou parte da vida em solo paulista, estudou na Universidade de Brasília (UNB) e formou-se na Universidade Federal Fluminense (UFF) em Cinema. Deu seus passos profissionais iniciais em trabalhos variados de assistência em sets regidos por titãs do Cinema Novo (Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha). Passou pelas equipes de "O Amuleto de Ogum" (1974) e "A Idade da Terra" (1980) antes de migrar para o comando de produções tamanho GG. Radicada hoje em Atibaia (SP), ela soma seis títulos no rol das 200 maiores bilheterias nacionais, contabilizadas de 1970 aos dias atuais. Seu maior êxito: "Lua de Cristal" (1990), chicletinho que foi "O" filme da infância e da adolescência de parte considerável desta nação, celebrizado pela venda de 4.178.165 tíquetes ao som da canção homônima em que Xuxa fazia "glu-glu" para Sergio Mallandro. Foi com ela que Renato Aragão voltou a filmar, em 1997, após um hiato de seis anos longa da telona. Atraíram multidões com "O Noviço Rebelde".

Lotando salas a granel, entre a década de 1980 e o início dos anos 2010, os filmes de Tizuka pavimentaram um veio comercial exitoso (sempre com rotas autorais abertas) pra força criativa feminina deste país mobilizar postos de direção e desafiar sexismos históricos. Uma recente homenagem à sua obra no Festival de Inverno de Campina Grande (PB) fez o cinema rediscutir sua relevância. No eixo da autoralidade, ela deu à imigração japonesa um tratamento de saga histórica, num par de longas-metragens da grife "Gaijin" (primeiro, o colosso "Os Caminhos da Liberdade", e depois, o doce "Ama-me Como Sou"), ambos coroados com o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado, em 1980 e 2005. Além das tramas sobre o êxodo nipônico, inspiradas pelo fluxo de seus parentes da Ásia ao Brasil, Tizuka sempre foi craque em debater a coragem de mulheres que dizem não à opressão do machismo. Cabem aí tanto a Rainha dos Baixinhos de "Xuxa Requebra" (tufão pop do verão de 1998 para 99, visto por 2.046.033 pagantes) quanto a professora e poeta Anaíde Beiriz (1905 —1930), retratada pela diretora, com o apoio de uma Tânia Alves em erupção de talento, no belo "Parahyba Mulher Macho" (1983), cuja venda de entradas foi aquecida pelo interesse de 1,1 milhão de espectadores.

Faz tempo que Tizuka não lança um longa em tela grande. Teve "Encantados" no Festival do Rio de 2014 e emplacou "1817: A Revolução Esquecida", em duo com Ricardo Favilla, há nove anos. No meio do caminho, não desgrudou da caça aos editais, mas estes nem sempre são justos com artistas do quilate dela, que fez História.

Neste momento em que a produção brasileira mais esperada pelo mercado é dirigida por uma cineasta de apelo popular ("Minha Melhor Amiga", de Susana Garcia), Tizuka faz um balanço do que é ter um filme a caminho dos multiplexes e avalia uma trajetória que segue no gerúndio.

Como você avalia o espaço para o seu cinema hoje no audiovisual brasileiro, com toda a relevância do seu trabalho sobre grandes representações femininas e sobre miscigenações entre culturas? Seis das 200 maiores bilheterias brasileiras de todos os tempos são suas e, ainda assim, seu último longa tem dez anos. O mercado hoje está aberto à sua ótica popular?

Tizuka Yamasaki - Talvez dez anos seja muito tempo entre um filme e outro, mas eu sempre levei muito tempo para fazer um filme depois do outro. Trabalhei bastante com filmes históricos, épicos. Eu já dizia lá atrás que levava dez anos para conseguir dirigir, levantar o dinheiro, e mais dez anos para botar o filme na lata. São filmes caros, por isso levam muito tempo. No meio do caminho, fui aceitando algumas encomendas, como os filmes da Xuxa, o filme do Renato Aragão, o "Aparecida - O Milagre", do Paulo Thiago. Isso ia permitindo levar adiante outros projetos enquanto eu batalhava para conseguir o restante do dinheiro para terminar meus filmes. Foi o que aconteceu com "Encantados", "Gaijin - Ama-me como Sou", "Gaijin - Os Caminhos da Liberdade", "Parahyba Mulher Macho". Estou mais ou menos acostumada com essa demora.

Falando em "Gaijin — Os Caminhos da Liberdade", há planos de relança-lo, dentro ou fora do Brasil, ainda este ano?

Estamos em conversa com a Cinemateca Brasileira e avaliando também possibilidades de patrocínio em outros lugares para restaurar a cópia do primeiro "Gaijin". Ela precisa ser recuperada: a pista de som está muito ruim e as imagens estão manchadas. Estamos batalhando para viabilizar esse trabalho. Hoje, quando o mundo — principalmente a Europa — vive novamente um conflito em torno da imigração, acho que seria um filme muito bom para refletir sobre o assunto. Vamos ver o que acontece. Acredito que, a qualquer momento, possamos conseguir.

Nesta quinta-feira, estreia "Minha Melhor Amiga", de Susana Garcia, com Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, cercado pela expectativa de alcançar uma bilheteria de peso num ano especialmente difícil para o cinema brasileiro. Susana é hoje uma das diretoras de maior apelo popular do país e trilha um caminho que você ajudou a pavimentar para muitas cineastas. Que conselho daria a ela, sobretudo quando seu filme é tratado como uma esperança de renovação para as salas?

Cada filme tem uma trajetória particular. Não sei o que dizer para a Susana, mas vai dar certo. Eu não sou a pessoa mais adequada para aconselhar sobre lançamento, pois existem os distribuidores, que deveriam estudar as melhores datas e oferecer essa orientação. É preciso fazer e lançar. Caso não dê certo, faz-se outro. Não há jeito: é isso que sabemos fazer. Na minha época, éramos também responsáveis pela produção e não havia como esperar. A gente metia bronca, lançava e torcia para dar certo. Lembro, por exemplo, de "Bete Balanço" (do qual Tizuka foi produtora executiva), que estreou num período considerado completamente negativo. Todo mundo dizia que a data de sua estreia era ruim, mas nós não adiamos, e o filme foi um sucesso enorme. Às vezes, uma época aparentemente desfavorável é justamente aquela em que a plateia está pronta para receber determinado filme.

Como a espera por recursos, nos editais, mudou de significado para você, com o tempo?

Os últimos dez anos me envelheceram. Estou com 77 anos. Ainda tenho energia para fazer muitos filmes. Quero morrer num set de filmagem. Mas existe uma segregação etária. É claro que a nova geração não me conhece. A geração mais nova que conheceu os filmes da Xuxa já está hoje com 40, 50 anos. Então, é como se a gente estivesse recomeçando. É como se eu tivesse que dizer: "Olha, fiz uns filmes aí que deram certo e quero fazer outro". E aí é preciso tentar ganhar os julgadores dos projetos pela ideia que você quer desenvolver.

Esse modelo de financiamento por editais se ajusta à sua maneira de fazer cinema?

Sempre fui ressabiada com essa história de editais, porque sou de uma geração antiga, que acha que cinema tem que ser movido pela emoção da história que se quer contar. Quando você coloca um projeto dentro de um edital, meio que encaixota uma ideia criativa em respostas muito objetivas sobre produção, distribuição, sobre aonde aquele filme vai. Hoje, não tem jeito: você precisa dos editais para... pelo menos... começar um projeto. Já não acho tão complicado, porque fui me acostumando, mas acho horrível essa distância entre o diretor e o projeto, sem que você possa apresentá-lo pessoalmente à banca.

Por que essa apresentação pessoal faria diferença?

Porque, às vezes, a gente ainda não sabe exatamente o filme que vai fazer. O filme acontece durante a trajetória. Você tem uma ideia boa para começar, mas, no decorrer do filme, acontecem coisas que o enriquecem e que são impagáveis. Isso não tem como você colocar num edital. Sei que estou perdendo nessa jornada, mas essa tem sido a maneira de conseguir algum investimento para começar e desenvolver um projeto.

De que maneira, com todos os sucessos que fez durante os anos 1980 e 1990, seu cinema fez o público nacional encontrar novos veios populares?

Meu currículo é muito variado. É uma miscelânea. Mas, na verdade, eu percorro assuntos que me interessam. Se é filme infantil, novela ou longa-metragem, não importa. Sou um pouco levada pela paixão que aquele tema desperta em mim. E existe uma coisa interessante: os filmes antigos estão sempre sendo reexibidos. Não tenho muito essa preocupação de pensar que meu último longa foi feito há dez anos. Agora mesmo estive em Campina Grande, no Festival de Inverno, exibindo "Gaijin - Os Caminhos da Liberdade", "Parahyba Mulher Macho", "Lua de Cristal", um compacto de "O Pagador de Promessas", da TV Globo, e "1817 - A Revolução Esquecida". É muito bom porque você vê, anos depois, que o filme continua funcionando ou que pode ganhar uma nova leitura.

O período em Atibaia, sobretudo a partir da pandemia, mudou a maneira como você passou a pensar novos filmes?

Em 2019, fechei meu apartamento no Rio de Janeiro e fui provisoriamente para Atibaia, para ficar com a minha mãe, que, naquela época, estava com 95 anos. Logo depois veio a pandemia, e minha companhia era muito importante para tentar protegê-la da covid-19. Acabei gostando de ficar em Atibaia, uma cidade pequena do interior de São Paulo onde passei a infância. Foi muito bom reencontrar gente que para o carro para você atravessar a rua, que cumprimenta você naquela coisa interiorana simples e afetiva. Essa restauração de um período da minha vida me fez muito bem. Nessa situação, comecei a fazer projetos. Montei uma carteira enorme. Até então, eu não conseguia pensar num novo projeto quando estava com a cabeça mergulhada em outro, em realização. A pandemia me trouxe essa possibilidade, de que gostei muito: procurar temas, procurar assuntos e começar a desenvolvê-los.

Que Brasil apareceu nessa busca por novas histórias?

Minha família é uma família de agricultores. Minha avó e meu avô pagaram meus estudos com o que produziam na roça. Sempre digo que eu talvez seja uma das poucas cineastas que têm, por família, um vínculo muito forte com a terra. Pensei que poderia chegar mais perto desse universo interiorano, agrário. Desenvolvi uma novela a partir de um crime ligado ao meio ambiente e do deslocamento de uma família que sai do Sul do Brasil e vai morar numa espécie de quilombo. A história acompanha a tentativa de desvendar o crime que atinge o chefe dessa família. É um projeto de que gosto muito.

A investigação da formação brasileira continua sendo uma preocupação central na sua obra?

Muito. No meio desse caminho, fui buscar alguma coisa em Darcy Ribeiro, por quem sempre tive enorme admiração. Nessa jornada, cheguei à Fundação Darcy Ribeiro e descobri um livro que desconhecia, "Diários Índios". É o registro de uma incursão de Darcy, entre 1949 e 1950, entre os Kadiwéu, no Mato Grosso do Sul. Ele conviveu com indígenas e voltou profundamente marcado pelo que encontrou. Eu quis imaginar uma nova incursão, mais de 70 anos depois, para dizer ao Darcy o que está acontecendo hoje: essa afirmação da cultura indígena, com descendentes dos povos que ele conheceu defendendo seus territórios e criando formas de fazer valer a própria cultura.

O interior também despertou em você o desejo de voltar à fantasia?

A primeira coisa que me passou pela cabeça quando fiquei em Atibaia foram as histórias de assombração que ouvíamos na infância, de que gostávamos e que também nos davam um medo enorme. Desenvolvi um projeto sobre assombrações no interior de São Paulo, não apenas em Atibaia, mas nos arredores. Fiz um projeto de minissérie, com vários capítulos. Cada episódio contava uma história num lugar diferente, mas havia uma protagonista que atravessava tudo, ligada ao espiritismo. Chamava-se "Clara e os Espíritos". Mandamos para alguns editais, mas não vingou. Gosto muito dele porque acho que tem tudo a ver com a cultura brasileira, principalmente com a cultura interiorana.

E os grandes projetos históricos? Ainda existe desejo de voltar a eles?

Sim. Tirei do baú alguns projetos antigos, épicos, históricos. Mas, se a gente mal consegue fazer um filme barato, imagine um filme de produção cara. Mesmo assim, insisto muito nisso. Primeiro porque acho que precisamos contar a história do Brasil. E não contar de uma forma chata, mas contar a história do país envolvida por algum romance, por alguma história pessoal. "1817 - A Revolução Esquecida", por exemplo, nasceu de um projeto de longa-metragem. "1817" acabou sendo uma saída para fazer uma produção barata sem abandonar o tema.