Cinema

Claire Denis, 80 (de vida; 180° de criação)

Pilar entre as mulheres que redefiniram o ofício de dirigir cinema, a artesã autoral francesa vai ao Festival de Veneza com curta inédito ligado a um projeto audiovisual antissexista

Claire Denis, 80 (de vida; 180° de criação)
Em 13 maio, Claire Denis recebeu a Carroça de Ouro, honraria destinada a autores cuja liberdade de visão e rigor de encenação tenham marcado a história do cinema Crédito: Jorge Fuembuena/SSIF

Cerca de quatro meses depois de receber de Cannes uma das honrarias que promovem cineastas de talento ao status de artesãos autorais, a francesa Claire Denis, recém-chegada aos 80 anos, ganha os holofotes de outro festival tamanho GG, onde lança um novo filme, "Avec Kim", como parte de um projeto feminista de reflexão sobre o lugar profissional das mulheres na indústria do audiovisual. No sábado, dia 5 de setembro, às 16h30, a cineasta apresenta o curta na Sala Perla, do Palazzo del Casinò, no Lido, dentro das Giornate degli Autori, mostra paralela da 83ª Bienal de Veneza.

No domingo, dia 6, às 10h, ela volta ao centro das atenções num debate no Hotel Excelsior ao lado da diretora norueguesa Mona Fastvold, da musicista Kim Gordon e das atrizes Suzanne Lindon e Amanda Seyfried, num encontro dedicado às possibilidades de se fazer cinema para além do diálogo.

A passagem veneziana dá continuidade a um ano de consagração para Claire. Em 13 de maio, na abertura da Quinzena dos Cineastas, em Cannes, ela recebeu a Carroça de Ouro, honraria concedida pela Sociedade dos Realizadores de Filmes da França a autores cuja liberdade de visão e rigor de encenação tenham marcado a história do cinema. A distinção, criada em 2002, colocou-a numa linhagem que inclui nomes como Agnès Varda, David Cronenberg, Jim Jarmusch, Jane Campion, Martin Scorsese, John Carpenter, Andrea Arnold e Todd Haynes.

"Não penso um filme como trama, penso nele como experiência, e experiências envolvem conexões territoriais, relações com espaços. O meu ponto de vista é o de uma francesa, mas é um ponto de vista que foi edificado observando expropriações culturais", disse Claire ao CORREIO DA MANHÃ numa conversa em San Sebastián, festival onde presidiu o júri em 2023. A noção de território que atravessa sua fala ajuda a entender uma filmografia construída em permanente deslocamento geográfico, afetivo e político, da África de "Chocolate" ao espaço sideral de "Vida Celeste", passando pelos corpos disciplinados de "Bom Trabalho" e pelos choques culturais do recente "A Cerca".

Agora, é Paris que volta a servir de mapa. Com 12 minutos, "Avec Kim" acompanha uma jovem mecânica interpretada por Suzanne Lindon, que deixa uma garagem ao volante de um possante automóvel dos anos 1980 e atravessa as ruas da capital francesa. O percurso é regido pela música de Kim Gordon, ex-integrante do Sonic Youth, que também atua no curta. A viagem vai acumulando pequenos encontros cotidianos até desembocar na aproximação entre a jovem motorista e uma viajante misteriosa vinda do norte, papel da própria Gordon. Eric Gautier responde pela fotografia e Guy Lecorne pela montagem.

A estreia ocorre dentro do Miu Miu Women's Tales, iniciativa criada em 2011 que entrega anualmente a duas realizadoras a missão de conceber filmes capazes de investigar experiências femininas por perspectivas autorais. Claire divide a edição de 2026 com Mona Fastvold, roteirista indicada ao Oscar por "O Brutalista", famosa como diretora por seu trabalho em "O Testamento de Ann Lee". A norueguesa apresenta "Discipline", curta de 14 minutos protagonizado por Amanda Seyfried, ambientado num austero internato do norte da Itália, onde bonecas em tamanho natural e manipuladores mascarados cumprem uma rotina que caminha para uma explosão de ruptura e transformação. Os dois filmes serão exibidos em sequência no dia 5.

A dobradinha de Claire e Fastvold se prolonga na manhã seguinte, quando as duas participam da conversa "Bodies and Objects: Filmmaking Beyond Dialogue", mediada pela escritora e curadora britânica Lou Stoppard. Kim Gordon, Suzanne Lindon e Amanda Seyfried completam a mesa, concebida para discutir como corpos, objetos, gestos, sons e movimentos podem assumir funções narrativas geralmente entregues à palavra. Mais tarde, o programa promove encontros com Zoey Deutch e Antonia Gentry, no próprio dia 6, e com Thuso Mbedu e Cailee Spaeny, no dia 7.

É um território que parece feito sob medida para Claire. "Eu não filmo heróis. Os personagens que abordo estão às voltas com o desejo e com a morte, ou seja, dois tabus. Não há heroísmo nos meus filmes, nem conquista. Há a percepção de nós mesmos", explicou a diretora ao Correio. Esse princípio organizou obras como "Nenette e Boni", ganhador do Leopardo de Ouro em Locarno em 1996, e "Stars at Noon", Grande Prêmio do Júri de Cannes em 2022, além de "Bom Trabalho", "Trouble Every Day", "35 Doses de Rum" e "Vida Celeste".

Macaque in the trees
Isaach De Bankolé encara Matt Dillon em 'A Cerca', longa mais recente de Claire, indicado à Concha de Ouro de San Sebastián | Foto: Divulgação

Sua expressão estética mais recente em longa-metragem, "A Cerca", reforça essa vocação para mapear relações de poder. Extraído de "Combat de Nègre et de Chiens", de Bernard-Marie Koltès, o filme se passa num canteiro de obras da África Ocidental e reúne Matt Dillon, Tom Blyth, Mia McKenna-Bruce e Isaach de Bankolé. A chegada de um homem que exige o corpo do irmão morto numa obra faz emergir tensões coloniais, raciais e econômicas entre europeus e africanos.

"Foi Isaach quem me apresentou a Bernard-Marie Koltès, ainda nos anos 1980. Quando li a peça dele, fiquei interessada pela forma como ela trazia uma perspectiva africana sobre os laços familiares. Ao adaptá-la para as telas, alterei certos elementos que estavam demasiado presos a uma lógica da década de 1980", explicou Claire. Para ela, o cinema nasce justamente desse atrito: "Busco falar sobre o ódio que brota no multiculturalismo sempre do lado de quem é pobre. Discutir o ódio é uma decisão consciente".

Em Veneza, porém, a escala é outra. No lugar do canteiro africano, há uma mulher, um automóvel, Paris e a pulsação sonora de Kim Gordon. "Avec Kim" concentra em 12 minutos algo que Claire Denis vem perseguindo há quase quatro décadas: corpos atravessando territórios e encontrando, no movimento, uma maneira de revelar aquilo que a palavra sozinha não alcança.