Cinema

Aí vem a (diretora da) 'Noiva!' comandar a gôndola

Meses depois de lançar um terror feminista com Jessie Buckley, Maggie Gyllenhaal expande seu prestígio ao comandar o júri do Festival de Veneza, onde exibe um curta 'hors-concours'

Aí vem a (diretora da) 'Noiva!' comandar a gôndola
Maggie Gyllenhaal assume a presidência do júri de Veneza Crédito: La Biennale

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Responsabilizada pelas decisões mais controversas do time de juradas/os da Berlinale de 2017, quando o Urso de Ouro foi para a húngara Ildikó Enyedi, a atriz e diretora Maggie Gyllenhaal vai se envolver em novas provocações a partir desta quarta-feira, tão logo "Ink", de Danny Boyle, dê a largada para o 83º Festival de Veneza. Desta vez, essa estrela presidirá o coletivo avaliador, aplicando suas reflexões críticas aos títulos indicados ao Leão dourado.

Aos 48 anos, Maggie se dirige a seu posto, no Lido, num momento de conversão de sua trajetória: a figura famosa por atuações intensas firma seu nome, cada vez mais, como cineasta. É dela a responsabilidade de conduzir a avaliação dos 21 filmes em concurso, numa seleção que traz veteranos do naipe de Werner Herzog, Hirokazu Kore-eda e Lee Chang-dong. O festival acontece até 12 de setembro e o Brasil estará nesse certame, representado por uma coprodução com a Itália, rodada em Porto Alegre, mas ambientada na Argentina: "Retorno a Buenos Aires".

É o novo exercício autoral do chileno de ascendência italiana Marco Bechis, diretor de "Terra Vermelha". O longa é produzido por Fandango, 39 Films e Karta Film, em parceria com a brasileira 34 Filmes e a Rai Cinema. O enredo acompanha o ativista Mariano Guerra, que retorna à Argentina depois de 33 anos para testemunhar no processo contra militares da ditadura que o sequestraram, torturaram e mantiveram em cativeiro.

Para Maggie, Veneza será um local de encontro com expressões geopolíticas como a de Bechis, mas também será uma espécie de palco de confirmação para seus talentos de contadora de histórias com a câmera na mão. Além de julgar os concorrentes, ela apresenta "Flesh Impact", um curta de 22 minutos exibido fora de competição. A produção é estrelada por Ellen Burstyn (homenageada do evento), Dakota Johnson, Sepideh Moafi e Peter Sarsgaard (seu marido). É a história de uma misteriosa mulher idosa que aparece para uma audição num pequeno teatro de Nova York, enquanto relatos sobre sua carreira começam a revelar segredos e equívocos sobre sua identidade. Maggie assina roteiro e direção.

O curta aprofunda uma mudança profissional que começou com "A Filha Perdida", estreia de Maggie na direção que chegou à competição de Veneza em 2021 e lhe rendeu uma indicação ao Leão de Ouro. O longa deu a ela a láurea de Melhor Roteiro na terra das gôndolas. Cinco anos depois, ela volta ao Lido não apenas como realizadora, mas como a autoridade responsável por presidir o júri que definirá os rumos da mostra. Ao seu lado estarão a tunisiana Kaouther Ben Hania, o compositor britânico Daniel Blumberg, o pesquisador italiano Francesco Casetti, o francês Xavier Giannoli, a afegã Shahrbanoo Sadat e o diretor de Hong Kong Johnnie To.

A respeitabilidade que ela conquista acontece depois de uma experiência comercial bem menos favorável. Segundo dados de bilheteria, "A Noiva!", seu segundo longa, produzido com orçamento estimado em US$ 80 milhões, somou cerca de US$ 24 milhões mundialmente. O resultado ficou muito abaixo das expectativas para uma produção da Warner Bros. liderada por Jessie Buckley e Christian Bale. O fracasso nos cinemas, contudo, não encerrou a vida do filme. Ao contrário: a releitura punk e feminista de "A Noiva de Frankenstein", de James Whale, encontrou uma segunda circulação no ambiente doméstico e chegou aos catálogos da HBO Max e da Prime Video. É nesse território que o filme vem consolidando uma reputação de obra de culto, alimentada por sua combinação pouco convencional de horror, romance, musical e melodrama.

"A Noiva!" transformou a criatura de Mary Shelley em uma mulher que precisa descobrir a própria voz. É um reflexo de Maggie. Filha dos cineastas Stephen Gyllenhaal e Naomi Foner, ela começou a atuar no início dos anos 1990 e, três anos depois de sua estreia em "Waterland", mudou-se de Los Angeles para Nova York para estudar Literatura na Columbia University. Foi nesse período que, segundo ela própria contou, percebeu uma lacuna curiosa em sua formação:

"Não li 'Frankenstein' quando precisava, mesmo tendo cursado Letras/Inglês, o que me leva a querer entender o que sua autora, Mary Shelley, teria a nos dizer sobre o mundo de hoje", afirmou a atriz e diretora em entrevista online na época da estreia de "A Noiva!".

Foi justamente a memória da leitura tardia de Mary Shelley, combinada ao impacto de "A Noiva de Frankenstein", que alimentou seu segundo longa. A figura da personagem interpretada por Elsa Lanchester em 1935 tornou-se, para Maggie, uma oportunidade de inverter a lógica de um imaginário cinematográfico no qual as mulheres frequentemente ocupavam o lugar de objeto. A identificação com a cineasta Ida Lupino — atriz que também assumiu a direção e enfrentou gêneros dominados por homens — aparece inclusive na escolha dos nomes de personagens de "A Noiva!".