entrevista

Francisco Gaspar: 'Adoro ator que erra o texto, mas não perde a ação, a pulsação, o olho no olho'

Francisco Gaspar: 'Adoro ator que erra o texto, mas não perde a ação, a pulsação, o olho no olho'
Francisco Gaspar com o Kikito de Melhor Ator em curtas por sua atuação em 'Pão Doce', de Wesley Gabriel Crédito: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Paraense de São Domingos do Araguaia, a região da guerrilha homônima (tema de um roteiro de sua autoria que anseia dirigir em breve), Francisco Gaspar deixou Gramado com lágrimas nos olhos com sua atuação em "Pão Doce", um curta-metragem com CEP em Guarulhos sobre os abusos laborais cometidos nas margens de nossa CLTs. Seu personagem é o padeiro Fernando, encarado como um líder por sua equipe e visto como um quindim por sua filhinha pequena, que está aniversariando.

No dia dos parabéns da garota, ele acaba sendo forçado pelo chefe (papel de Vinícius de Oliveira) a esticar o turno um pouquinho. O pouquinho vira muitão, numa escala de abusos que o diretor dessa produção, Wesley Gabriel Silva Santos, filma sob uma ótica (e uma ética) neorrealista, numa contundência social que, há muito, o nosso cinema não via. Chorou geral com ele, menos o Kikito. O deus-sol da alegria preferiu sorrir para o astro, sob a forma de um troféu. A estatueta de Melhor Ator em Curtas Nacionais de 2026 foi o reconhecimento de uma interpretação avassaladora.

Gaspar, que se reconhece como PCD auditivo ("desde 2024 uso aparelho") e se autodenomina "um jovem de 59 quase virando 60 ", compõe Fernando na via do "brasileiro chamado esperança". Ou seja, seu Fernando é aquele tipo que quebra o coco, mas não arrebenta a sapucaia - como seu intérprete.

"Sigo estudando Interpretação até hoje, desde 1985", conta Gaspar. "Fui reprovado em todas as escolas de Arte Dramática de São Paulo na década de 1980. Eles disseram que eu não servia pra graduação, mas esqueceram de combinar comigo pra parar. Desisti de fazer Artes Cênicas como graduação e me formei em Jornalismo, mas segui fazendo Teatro. Sigo até hoje, lindamente autodidata. Fui à guerra e sigo vivo".

Em Gramado, compararam Gaspar ao Grande Otelo de "Rio Zona Norte" (1957). Confira seu modo Otelo... e entenda sua grandiosidade artística... no papo a seguir:

O que Gramado trouxe de mais relevante para a sua carreira de ator no simbolismo que circunda o teu Kikito, conquistado há uma semana com "Pão Doce"? Que descobertas esse festival te proporcionou?

Francisco Gaspar - Eu tenho o Festival de Cinema de Gramado em três momentos na minha vida. A primeira vez foi em 2007, quando ganhei o Kikito de Melhor Ator em Curta Metragem pelo filme "O.D. Overdose Digital", de Marcos DeBrito. Ele é meu parceiro no cinema e já trabalhamos juntos desde 2001. Ali foi uma abertura significativa dos olhos dos produtores de elenco e diretores sobre o meu trabalho. A segunda vez foi em 2014, quando regressei ao Palácio dos Festivais com um longa, "A Estrada 47", de Vicente Ferraz. Esse, sim, posso dizer, foi o meu mestrado em cinema, afinal, era o meu primeiro protagonista em longas. Novamente, depois de o filme vencer o festival, os olhos e o "Ação!" voltaram pra mim com força contratual. Agora, em 2026, é a terceira vez: retorno a Gramado com esse curta, "Pão Doce", de Wesley Gabriel Silva Santos, e, mais uma vez, sou eleito o Melhor Ator da competitiva de curtas. Felicidade não comporta tudo que sentimos quando somos reconhecidos pela força do nosso trabalho. Acho que plenitude me agrada mais. O que eu disse no meu discurso de recebimento do troféu é o que nós, atores e atrizes, sentimos: o reconhecimento de que o nosso trabalho comunica e toca as pessoas.

Que recheio afetivo há na massa do teu "Pão Doce"?

Sobre o recheio afetivo, a questão era exatamente: como gritar sem som, como emocionar sem choro de novela, como fisgar um público por aquilo que dói em quase todos nós? A ideia era emocionar olhando e sentindo com o olho, com o choro engolido, com a violência concentrada entre a boca, o nariz e os olhos. Eu sou um ator que diz muito com o olhar. Não fui eu quem formulou essa frase, eu a ouvi durante todo o processo de criação de "Estrada 47" e também após estrear. Eu acredito muito nessa frase, tanto que eu a pratico, eu a alimento. Alimentar é criar significados, reler o amor, desconfigurar clichês, rasgar e jogar fora vícios que ao longo da vida vemos e praticamos. Eu gosto de ser e de viver o que me presenteiam, sabe? E, no papel de Fernando, de "Pão Doce", trabalhei com o sapo entalado na garganta que todo dia o brasileiro tem de engolir pra não perder o emprego. E eu sou "brasileiramente lindo", como dizia Belchior.

O que essa sua doçura revela sobre os Brasis ali representados

A minha doçura no papel do Fernando é a dor de não poder gritar. Minha tarefa como artista é transformar aquele dor em poesia. Sou discípulo de Cartola. Em todas as dores, tento fazer poesia, mesmo sabendo que não chegarei nem a 1% do que o mestre sambista fazia. Nem a 1% do Grande Otelo, que sempre foi meu rei, um ator absolutamente genial, nível Beethoven.

Qual é o horizonte profissional que atores como você, avesso às badalações formulaicas do ofício, encaram?

Não gosto de fórmulas e formas de fazer um trabalho, seja ele qual for. Já tentei fazer e não me dei bem, deu tudo errado. Sou um ator que precisa de tempo pra criar. Sou do teatro, da busca, do estudo, da pesquisa. Digo isso porque eu detesto quando vejo um ator enformado, apenas dizendo o texto como tá escrito no roteiro ou na peça de teatro. Adoro ator que erra o texto, mas não perde a ação, a pulsação, o olho no olho. É importantíssimo texto decorado, mas, ele por si só é apenas um papagaio falando. Gosto de imperfeições. Cinema e teatro são jogos. O jogo é o jogo.

Como você define sua carreira hoje? Em que momento da tua vida você parou e disse: "Agora eu virei ator mesmo. Sou profissional"?

Sobre minha carreira, hoje eu sei o que quero dizer e, mais ainda, sei o que não quero... isso tanto no teatro quanto no cinema. Precisamos de dinheiro, mas dizer o que queremos é mais sensacional. Quando casamos os dois, aí o ofício se completa da forma que sonhamos. Profissional eu me sinto há mais de 20 anos, mas, sobre "me sentir ator de verdade", eu quero sempre seguir com essa dúvida. Não na realização de um trabalho, mas na inquietação mesmo, ao deitar a cabeça no travesseiro. Na real, em "A Estrada 47", senti que ali era ser ou não ser. Ali se consolidou, no processo de criação e de filmagem, quatro anos antes da estreia, que foi em 2015.

Qual foi o momento mais tocante da filmagem do "Pão Doce"?

Um plano de Fernando ouvindo o patrão dizer coisas que ele não queria ouvir, humilhá-lo. Ali é o ápice do personagem. Ali e o momento seguinte, quando ele volta a trabalhar e a filha o chama, incessantemente, para ir embora. Ali foi muito doído. Ali eu percebi um ponto que tocava muitíssimo o diretor, ali o vi chorar. Ali, ele sentia a dor do Fernando. Foi catártico.

Quais são os seus planos profissionais para os próximos meses?

Tenho mais ou menos 54386574849920 projetos pra realizar em teatro, cinema e escrita. Em 2027, desejo realizar um monólogo sobre Trótski, que um amigo está escrevendo. Pretendo finalizar meu roteiro de longa sobre a Guerrilha do Araguaia e filmarei um curta que escrevi com uma amiga de Alagoas inspirado em "Um Dia Muito Especial", do mestre italiano Ettore Scola. Esse curta é a menina dos olhos em que vamos colocar colírio no ano que vem. Há um projeto de longa no Recife e outro Salvador. Os que desenvolverei no Norte, a minha região, são segredos de estado.