Vitória de 'Nosso Segredo', que estreia nesta quinta, mostra a luta de Gramado para romper com a hegemonia do eixo Rio x SP, coroando ainda um encantador ensaio afetivo do Ceará
25 de agosto de 202600:01Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã
Coube a 'Nosso Segredo', drama antirracista com elementos de fantasia, a consagração em Gramado na 54ª edição do festivalCrédito: Vitrine Filmes
Um dos filmes mais aclamados do Festival de Gramado de 2025, "Querido Mundo", de Miguel Falabella e Hsu Chien Hsin, segue inédito em cartaz, um ano depois de sua consagração, após quicar com elegância pela Mostra de Tiradentes (MG) e pelo Festival de Cinema Brasileiro de Paris. Já os concorrentes aos longas-metragens de ficção deste ano parecem ter melhor sorte na caça a circuito, contando com distribuidoras de peso (tipo Vitrine. Downtown, Imovision) ou com data agendada para estrear. É esse o caso de "Nosso Segredo", de Grace Passô.
Coube a esse drama de pavimento antirracista, com elementos de fantasia, o Kikito de Melhor Filme de Ficção da 54ª disputa gramadense. A vitória chegou às vésperas de seu lançamento, que ocorre nesta quinta-feira. É primeira narrativa das Gerais, com voz autoral de Minas no comando, que vence o evento gaúcho. Antes dela, só "Cabaret Mineiro" (1981), de Carlos Alberto Prates Correia (1941-2023).
O mesmo Prates, cria de Montes Claros, voltou a ganhar o deus-sol dos Pampas em 2007. Nessa data, contudo, sua vitória se deu por um ensaio documental: "Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais". Em 2022, Gabriel Martins, lá de Contagem, atropelou a rotina gaudéria com seu lúdico "Marte Um", vindo de Sundance. Mas não ficou no topo do pódio. Perdeu para o thriller acreano "Noites Alienígenas". Essa "perda" deve ser um bocado amortizada, pois o que se passou ali foi uma sucessão de galardões pra territórios distantes do eixo (dito) hegemônico RJ x SP. Em 2024, foi a vez de "Oeste Outra Vez", de Goiás, e, em 2025, o protagonismo ficou com Cuiabá (MT), após a gloriosa campanha de "Cinco Tipos de Medo". Desta vez, o barato de Grace simbolizou o maior barato para toda a polifonia de MG.
Estado que gerou gênios a granel (de Humberto Mauro a André Novais Oliveira), Minas anda criando uma nova estética... uma tal de "estética do menos" (que é mais) para enquadrar a brasilidade a partir de enquadramentos que contemplam, que autopsiam dilemas em corpos vivos, que transcendem os vetores do trabalho numa terra de montanhas, como os cults "Arábia" (2017) e "O Dia Que Te Conheci" (2023). Nesse ínterim, uma fortíssima cena de cunho decolonial se desenhou ali, a devassar o racismo. Numa das sequências mais tocantes de "Nosso Segredo", o filho jovem adulto de uma família em luto pela perda do patriarca lamenta a forma preconceituosa como foi tratado num hospital. Ao cair de uma escada, enquanto grafitava uma parede, o rapaz é hostilizado pela atendente, que o trata como se ele fosse uma presença recorrente ali na emergência, confundindo-o com muitos outros moços que, por serem negros, aos olhos intolerantes dela, parecem todos a mesma pessoa. Um marginal.
Grace faz essa denunciar com delicadeza. Parte da peça teatral "Amores Surdos", um texto de autoria da própria Grace. Produzido por Ricardo Alves Jr., este inventário de cicatrizes, com um pé na fábula, foi o último dos seis longas de ficção da competição oficial gramadense a ser exibido. E foi o único a ser acolhido com o grito de "Bravo!".
A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura um aspecto crepuscular ao enredo que mistura finitude, recomeço e perenidade. Nele, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, o filho caçula guarda um mistério que transcende as bordas do realismo.
Paralelamente ao cortejo de Minas pelas telas do Sul, o Ceará soltou rojões em Gramado ao contabilizar quatro Kikitos e uma menção honrosa em Gramado com "Feito Pipa". Sete anos após os êxitos a granel de seu "Pacarrete" (2019), Allan Deberton testou e comprovou o quão forte pode ser a adesão de seus compatriotas ao longa que lhe valeu o Urso de Cristal em solo alemão em fevereiro. A saga do menino de 11 anos queer Gugu (Yuri Gomes) para debelar a homofobia de seu pai fechou corações. Levou o troféu do Júri Popular como evidência de seu poder para cativar plateias. Tem a Paris Filmes (hoje uma das maiores distribuidora das três Américas) para desenhar seu futuro. A presença de Lázaro Ramos no elenco, como a sombra paterna que rondeia Gugu, amplia sua visibilidade.
Potencial blockbuster, "Chorão, Só Os Loucos Sabem", que premiou José Loreto, por sua forma devastadora de encarnar o líder do Charlie Brown Jr., fica para 2027. Antes, agora em 3 de setembro, quem pede passagem pelas telonas é "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade", o Melhor Documentário de Gramado, que faz Susanna Lira galgar outro patamar de prestígio, ao dialogar com a mecânica das narrativas musicais de não ficção.
Tudo indica que, em outubro, a Mostra de São Paulo vai projetar "Justino - Nos Bastidores da Fé", drama biográfico com voltagem de thriller, dirigido por José Eduardo Belmonte. Ele e André Finotti assinam juntos a montagem, numa covalência de edição capaz de eletrizar as vivências do ex-pastor Mário Justino, um pregador ludibriador por bispos corruptos. Seu meio de desafiar os ranços religiosos faz com que a direção flagre os males do neopentecostalismo.
Essa edição feérica foi laureada, assim como o desempenho de seus atores Christian Malheiros e Onna Silva. Seus troféus consolidam uma reação do cinema à bestialidade da jihad que nos divide, com a ação de crentes que se filiam a falsos Messias.
Todo esse simbolismo expõe o vigor da equipe curatorial de nosso festival mais pop.
Wilssa Esser: 'Desenho uma memória cognitiva de luz para cada figura em cena'
Wilssa Esser e o Kikito de Melhor Fotografia, por 'Nosso Segredo'Crédito: Edison Vara/Ag. Pressphoto
Costurando estéticas de curta em curta, em sua formação como diretora de fotografia, a venezuelana radicada no Brasil Wilssa Esser trocou experiências com a aclamada atriz das Gerais Grace Passô na feitura de "República", produção de 16' realizado em meio à pandemia, com ela direção. Depois que a covid-19 acabou, a estrela mineira resolveu dirigir seu primeiro longa-metragem e contou com Wilssa para domar a luz de uma paisagem de selvageria no eixo dos afetos... e dos traumas.
O desejo de fazer cinema (autoral) a partir de "Amores Surdos", um texto teatral de autoria da própria Grace, converteu-se em "Nosso Segredo", drama premiado com o Kikito de Melhor Filme de Ficção em Gramado, no último sábado. Sua estreia em circuito está programada para esta quinta-feira, no calor de sua consagração. Não houve boca em solo gaúcho que não elogiasse a trama de trilha sonora estonteante (composta por Amaro Freitas) esculpido entre luto, lágrimas e lama (ligada a um surpreendente signo animal). Nela, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, o filho caçula guarda um mistério que transcende as bordas do realismo.
No papo a seguir, Wilssa analisa o barato de Grace na arte.
Como foi a sua troca com Grace Passô na realização de "Nosso Segredo"?
Wilssa Esser - Não é a nossa primeira colaboração. Fizemos um curta-metragem durante a pandemia, "A República", e temos uma convivência de muita intimidade e afinidade em relação à linguagem. O nosso processo costuma ser bastante fluido. A Grace começou no cinema há relativamente pouco tempo, mas tem uma trajetória enorme como artista, sobretudo, no teatro. A minha colaboração com ela entra como a de alguém com uma bagagem maior de cinema, porque estudo e trabalho com a linguagem cinematográfica há muito tempo. Trabalhamos muito no sentido de tentar traduzir, em termos de imagens e de fotografia, essa instauração performática que ela costuma criar numa cena.
Como essa troca te desafia?
Enquanto diretora de fotografia, um projeto como "Nosso Segredo" é um processo desafiador porque, dramaturgicamente, o filme tem muitas camadas. Ao mesmo tempo, há uma facilidade em relação ao meu trabalho, porque a Grace faz a cena acontecer. Isso facilita muito. Conseguimos potencializar a cena do ponto de vista da imagem, e ela acontece. E isso é muito importante, tanto diante da câmara como internamente nos corpos dos atores.
A casa de "Nosso Segredo" parece quase uma protagonista. Como foi pensar a luz a partir desse espaço que envolve todos os personagens?
Foi um processo quase inexplicável para mim. É um filme coral, apesar de ter como ponto de vista protagonista o olhar de uma criança. O trabalho de luz foi quase como criar memórias individuais de cada personagem. O filme retrata uma família e, de alguma forma, todas as suas gerações, desde Efraim, um menino negro de seis anos, até os mais velhos. Então envolve muita coisa. Foi como desenhar cada personagem através da luz. Desenho uma memória cognitiva de luz para cada figura em cena.
Gramado foi caracterizado por uma presença muito forte de mulheres na direção de fotografia, em sua 54ª edição. Você sente que existe uma mudança efetiva no mercado para mulheres que fotografam filmes?
Essa 54ª edição do Festival de Gramado foi muito especial para nós, enquanto diretoras de fotografia. Tivemos vários longas-metragens na competição oficial fotografados por mulheres, e isso é algo que deve ser valorizado. Nos últimos anos, temos visto que, à medida que mais diretoras de fotografia começam a ter oportunidades, também conquistamos mais espaços e recebemos mais reconhecimento. Há dois anos, aqui no Festival de Gramado, quem ganhou a direção de fotografia foi Renata Corrêa, premiada por "Nó". No Festival do Rio do ano passado, foi Luciana Baseggio quem venceu, por fotografar "Ato Noturno". Na medida em que conseguimos essas oportunidades, vamos conquistando espaços e recebendo reconhecimento porque, de fato, chegamos com outro olhar, outra sensibilidade e outra forma de nos relacionarmos com as histórias e com os corpos. Principalmente, trazemos tudo aquilo que vimos durante muito tempo e que já não queremos ver. Como transformamos isso em discurso, em imagem? Esse tem sido um caminho que ainda precisa de avançar muito. Não podemos dizer que atualmente existe equidade de género nos sets, muito menos no departamento de fotografia. Mas é um caminho que estamos trilhando aos poucos.
Você nasceu na Venezuela, formou-se em Cuba e vive no Brasil desde 2013. Como essa trajetória entrou na sua formação como diretora de fotografia?
Cresci em Caracas. Na época da minha formação, fui para Cuba e formei-me na Escola Internacional de Cinema e Televisão. Depois da escola, vim para o Brasil e estou aqui desde 2013. Em 2018 fiz o meu primeiro longa-metragem como diretora de fotografia e, a partir daí, comecei a minha carreira. Venho de uma escola muito grande de curtas-metragens. Aprendi muito sobre cinema fazendo curtas. Aí veio "Temporada", meu primeiro longa, premiado em Brasília.
Que referências do cinema venezuelano foram importantes na sua formação?
Uma primeira referência importantíssima é Margot Benacerraf (1926-2024), uma cineasta que talvez tenha sofrido algumas tentativas de apagamento. Ela realizou "Araya", selecionado para a competição oficial de Cannes em 1959. Foi uma das primeiras realizadoras mulheres da Venezuela e fez um filme belíssimo. Também há figuras extremamente importantes na minha carreira, como Mariana Rondón e Marité Ugás, que são uma dupla. Trabalhei com elas como estagiária de produção em alguns filmes. Foram grandes amigas e pessoas que me orientaram muito na carreira. Foram elas que me disseram: "Você vai estudar fotografia na Escola de Cinema de Cuba". São referências fundamentais para mim. (R. F)
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