Do que já se viu na zona dedicada a pílulas de Brasil em Gramado - ou seja, curtas-metragens nacionais em concurso - nenhum título exibido comoveu mais a cidade do que “Pão Doce”, de Wesley Gabriel Silva Santos. O desempenho de Francisco Gaspar na pele de um padeiro que encara os abusos laborais de uma jornada sem um pingo de humanidade levou o festival por uma trilha de neorrealismo (tardio, mas poético). Se nos longas-metragens, o trabalho de José Loreto em “Chorão – Só Os Loucos Sabem”, exibido na segunda, segue imbatível, nos curtas, Gaspar marcou seu nome e deixou seu talento GG se impor. Em Guarulhos, seu personagem, Fernando, tenta preservar o máximo de tempo para poder curtir o sexto aniversário da sua filha. Forçado a levar Sophia para a padaria, por não ter com quem deixa-la, ele precisa navegar pelo espaço estreito entre a sobrevivência profissional e o zelo paterno. A realização de Wesley Gabriel é primorosa, e evoca clássicos de SP nas telas como “O Grande Momento” (1958), de Roberto Santos (1928-1987).
Antes de se comover com Gaspar, Gramado conferiu o roteiro mais inteligente (numa aversão radical a fórmulas de sua competição oficial de longas-metragens de ficção: “Leite em Pé”, com CEP dividido entre MG e Natal. O Rio Grande do Norte é a terra onde seu realizador, Carlos Segundo, nascido em SP, mas criado na mineira Uberlândia, refez sua vida, ao se tornar um professor. Ele tem no currículo dois curtas-metragens consagrados: “Sideral” (indicado à Palma de Ouro do formato, em 2021) e “Big Bang” (ganhador da seção PardI di Domani – Corto d’Autore em Locarno, em 2022.
“Leite Em Pó”, longa de estreia de Carlos Segundo, com seu jeitão de Wim Wenders, qual um "Paris, Texas" em Natal, vai crescendo numa progressão aritmética de mistério que faz dele o roteiro mais livre deste Festival de Gramado... até aqui. É uma triagem de solidões em interseções. No filme de Segundo, Vinícius de Oliveira vive um homem de 40 anos, criado pela avó e fechado num universo particular dominado pelo rock, que precisa sair da zona de conforto â força de uma tragédia familiar.
Gramado termina neste sábado.
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