54° Festival de Gramado

Biopic de 'Chorão' é o Rocky Balboa do rock 'n' roll

Biopic de 'Chorão' é o Rocky Balboa do rock 'n' roll
José Loreto fez a gente sonhar que a vida ainda está nos anos 1990 ao tirar um capeta de dentro de si ao estrelar "Chorão: Só os Loucos Sabem" de Hugo Prata e Felipe Novaes Crédito: Cleiton Thiele/ Pressphoto

Os anos 1990 – sobretudo para quem adolesceu neles – foram tempos muito peculiares para a História não apenas por detonarem os mais variados degelos (das calotas polares, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, do Muro de Berlim), mas por serem o rabo de um foguete que pifou no Infinito levando consigo as utopias todas, os ismos todos. Sua irmã mais velha, a década de 1980, pelo menos teve ressaca. Os 90, nem isso. Foi desse desamparo histórico, só compensado pelo advento da internet (até então, discada) que surgiu Chorão. Ele, o Planet Hemp, Os Theobaldos, Raimundos, o Rappa. Na falta de causas para defender... ou para chorar, como fez o Legião Urbano, ao cantar “Que país é esse?”, sobraram para essa turma as tripas de um projeto de reconstrução nacional desfeito em meio a confisco da Poupança, Impeachment, massacre em Eldorado dos Carajás, execução sumária na rocinha, cólera. Daí pintou o bardo de Santos, em seu Charlie Brown Jr., a entoar os versos de “O Coro Vai Comê” – “Corra/ Pra ver o que acontece/ E volte aqui pra me falar/ O que parou a cidade inteira novamente” – numa tradução do que restou para a molecada de então. Esses restos, essas raspas são a matéria do memorável “Chorão – Só Os Loucos Sabem”, uma espécie de Rocky Balboa do rock ‘n’ roll dirigido a quatro mãos por Hugo Prata e Felipe Novaes e apresentado ao Festival de Gramado na noite mais suarenta do evento deste ano, desde seu início, na sexta-feira passada. Tava quente na rua. O Palácio dos Festivais mais quente ainda ficou ao ver José Loreto dar a atuação de uma vida.

Loreto atua com as tripas nesse biopic (jargão cinéfilo para designar épicos biográficos), um dos filões preferidos de Gramado e um dos mais rentáveis hoje do mercado, a julgar pela receita bilionária alcançada por “Michael”, de Antoine Fuqua. Depois da projeção no Rio Grande do Sul, muito pode se esperar do longa-metragem que parte do músico Alexandre Magno Abrão (1970-2013), mais conhecido pelo seu nome artístico Chorão, a fim de inventariar a criação musical noventista e o vazio que a cercou. Igualmente inventariada é a cidade de Santos, com suas praias que não têm a carioquice de uma Ipanema ou de Grumari, mas têm belezas das mais diversas. Numa fusão de roqueiro, rapper, poeta e (sobretudo) skatista, Chorão foi um poeta que cantou sua aldeia pelo prisma da inadequação (vide a letra “Ela tem carro importado e telefone celular/ Eu só tenho uma magrela e um apê no BNH” e do amor. Por isso, Novaes e Prata tratem a saga do músico, da superação da pobreza à derrota (para o abismo em sua alma), sob uma curva romântica, mas similar àquela usada por Sylvester Stallone no roteiro de “Rocky, Um Lutador” (1976). Ambos são Cinderelas marxistas. O Garanhão Italiano calçava luva de boxe em vez de um sapatinho de cristal. Chorão compunha. Lá na Filadélfia, havia Adrian (Talia Shire). No longa mais visceral de Gramado, até agora, tem Graziela (Fernanda Marques, igualmente ultrarromântica, e empoderada, como era a paixão de Balboa).

A roteirista Duda de Almeida não deixa Graziela ficar um segundo que seja à sombra do bicho descontrolado (em forma de homem) por quem se apaixona. A paixão está lá, gerando sonhos e frustrações, mas ela jamais se apequena na condição de parceira, de companheira. A aliança dos dois está lá, mas as vontades que ela tem de vencer na vida são grandes também, e, em sua firma atuação, Marques dá conta disso. Igualmente potente é a atuação de Georgette Fadel como Nilda, a mãe de Chorão.


José Loreto baba, berra, bebe e faz a gente pedir bis ao dar vida a esse ícone do som, numa produção que segue o acorde do premiado “Elis” (2016), de Prata, driblando controvérsias, com foco num retrato afetivo, muito bem calçado no trabalho de figurino de Carolina Agresta e no desenho de som de Eric Ribeiro Cristani. Os enquadramentos arquitetados por Prata e Novaes lembram os movimentos ora trepidantes, ora garbosos de John G. Avildsen ao dirigir o primeiro “Rocky”. Ou seja, é um filme pipoca (comovente paca, febril de fazer a gente querer dançar), mas muito preocupado em pensar a esgrima com a linguagem. Filme de cinema. Gramado este ano veio com uma curadoria inspirada... e nas mais variadas latitudes. A festa por lá termina no sábado, com a entrega dos Kikitos. Ninguém merece um mais do que Loreto. Uma coisa é atuar bem... coisa que ele brinca de fazer. Outra coisa é reinventar uma persona. Isso é para poucos. O maluco conseguiu. E vai ficar no imaginário cinéfilo por isso. Por mérito.