54° Festival de Gramado

'O Projeto' é um road movie decolonial quente como lava de vulcão

'O Projeto' é um road movie decolonial quente como lava de vulcão
Sabrina Fidalgo, ao centro, com Yvan Rodic e parte da equipe, apresenta "O Projeto" para Gramado, na noite de sábado Crédito: Paula Mello

Primeiro dos quatro longas-metragens documentais em concurso em Gramado, em 2026, “O Projeto”, outrora chamado “Time To Change”, bateu forte no peito do festival gaúcho, dado o calor dos aplausos ao fim de sua projeção e o vulcão em erupção que o cercou nas resenhas de plateia (e, nela, inclui-se parte da crítica) acerca das representações que se entendem como práticas de “decolonização”. Sabrina Fidalgo realizou esse road movie de não ficção (com as grifes da produtora Gullane e da Globo News em seus créditos) em duo com o fotógrafo suíço Yvan Rodic. Seu corte final, aplaudido pela Serra Gaúcha, deu uma contribuição essencial a esse debate contra o preconceito, inflamado por sua narrativa, ao comentar sobre “divisão racial do espaço” em nosso continente.


“A raiz de todos os nossos problemas é o colonialismo, que nasceu há 600 anos”, disse Sabrina, no palco do Palácio dos Festivais, na noite de sábado.

Filha de uma modelo e atriz e de um encenador responsável pela criação do Teatro Profissional do Negro (Ubirajara Fidalgo), a diretora de curtas premiados como “Alfazema” (2019) passa aos longas construindo uma espécie de “auto” (embora não religioso), um auto da devassa contra módulos de exclusão, o que envolve se incluir como personagem. Ela estrutura “O Projeto” de forma nietzschiana (talvez seja o ensaio documental com mais Nietzsche feito no país, para além dos experimentos do paulista Carlos Adriano). Aplica Nietzsche sobre o tema de “crescer sem referência”, amparado num diálogo interrogativo estruturante: “Como cuidar do nosso ódio?”. Existe uma viga mestra que é a investigação dos crimes de apagamento e silenciamento racial do povo preto e existe o eixo (menor, um tanto quanto perdido no arranjo da edição atual) da identidade europeia periférica dos iugoslavos (e imigrantes afins) assimilados por terrenos endinheirados, como a Suíça. Há um fluxo de montagem de fala, arquivo e ensaio compreendido entre extremos performáticos nos quais Sabrina encarna (numa escrita de si) a vivência da eugenia, ao usar um pregador para afinar o nariz. Essa imagem volta à cena... volta mais forte e mais doída. Volta até ganhar uma aura redentora.

Macaque in the trees
Um pregador sintetiza um desconforto histórico imposto por ranços coloniais | Foto: Divulgação

Das muitas vozes que falam, duas entrevistadas sintetizam o engenho combativo do longa em suas reflexões. É o caso de Grada Kilomba (no papo sobre “a política da ignorância”) e Djamila Ribeiro (ao dizer “Não saber de onde a gente vem dificulta a construção de nossa origem” ou “o problema da branquitude é que o problema da discussão racial está com os negros”). Toda a discussão sobre Nova Friburgo (RJ), numa conexão com a presença colonial europeia em nosso país, é devastadora em sua denúncia de uma crença da “pureza da raça”. Toda a conversa com o escritor Anderson França é ouro puro, diante da abrasividade com que ele fala de revanche (ou melhor, de não recorrer ao revanchismo.

Há que se ressaltar, com ardor, TODA a passagem de “O Projeto” pela Alemanha, que é de uma precisão (e de uma catarse) comovente. Igual precisão (e urgência) é a porção Argentina e a discussão da “identidade marrom”. Que se ressalte ainda a montagem com fluidez de trem-bala com que tudo é narrado, sob a fina direção de fotografia de Julia Zakia.

Concorrem com “O Projeto” em Gramado outros três longas documentais “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” (RJ), de Susanna Lira; “Afrontosa” (SP), de Coraci Ruiz e Julio Matos; e “Empeleitada” (PE), de Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sergio Borges. Esse conjunto de iguarias reafirma uma característica que se tornou essencial para a relevância do festival: a convivência entre experiências do mais alto quilate vindas de territórios distintos do Brasil. O evento termina no dia 22.