Cinema

'Antártida' com calor de Akira Kurosawa

'Antártida' com calor de Akira Kurosawa

Embora não tenha entrado na Serra Gaúcha para concorrer a nada que não seja o carinho do público (e a simpatia da crítica) como um esquenta para seu lançamento, o thriller "Antártida" assegurou a Bruno Safadi um atestado evolutivo em sua forma de narrar, a um só tempo reverente ao cinema de invenção (o de Julio Bressane e de Rogério Sganzerla, sobretudo) e atento ao que se espera da audiência da TV aberta. Ao mesmo tempo que rodou experimentos como "O Prefeito" (2015), ele bate ponto como diretor nos estúdios Globo, onde foi incumbido de transformar um ambicioso roteiro de Claudia Jouvin em superprodução. Tem neve, tem investigação à moda "CSI", tem Andrea Beltrão a atingir uma máscara trágica com os ares do Anjo da História de Paul Klee (o quadro que mais traduz perplexidade da Modernidade até hoje) e tem a maturidade plena do montador Rodrigo Lima. Coragem, esse editor sempre esbanjou, trilhando o pontilhado de vozes autorais inventivas (inclusive o já citado Bressane). O inusitado aqui é ver um ourives da montagem como ele se exercitar sobre um material capaz de flertar com o que o Plim-Plim exibe em "Domingo Maior". Na trama, em uma estação de pesquisa, a pesquisadora Inês (Marina Ruy Barbosa) é estuprada em meio a uma queda de energia e a uma mudança de equipe. Para piorar, o comandante está em guerra contra um tumor no cérebro - num combate que extrai de Antonio Calloni uma atuação calibre 12. Diante desse quadro de assombro, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) assume ali a difícil missão de investigar o ocorrido, enquanto as demais mulheres da estação - Inês, Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena) - se sentem acuadas e precisam se unir para enfrentar o medo, o silêncio e a violência. Safadi evoca o "Rashomon" de Kurosawa ao triar versões distintas para uma triste verdade. Lima dá a essas versões um arranjo tenso. (R.F.)