Cinema

Eduardo Abelin, de pioneiro a nome de troféu

Um dos responsáveis pela evolução do Rio Grande do Sul no audiovisual, cineasta foi tema do cult 'Sonho Sem Fim' e inspira láurea que será entregue para Renata Almeida Magalhães

Eduardo Abelin, de pioneiro a nome de troféu

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Por conta da força financeira de suas chanchadas como "Nem Sansão Nem Dalila" (1954) e "O Homem do Sputnik" (1959), sempre lotadas, Oscarito (1906-1970) virou nome de um prêmio - a honraria máxima do Festival de Gramado, confiada este ano à atriz Andrea Beltrão - sem dar margem à dúvida... o que não acontece com a segunda láurea honorária de maior prestígio do evento gaúcho: o Troféu Eduardo Abelin. Nesta terça, essa estatueta será confiada à produtora e atual presidente da Academia Brasileira de Cinema Renata Almeida Magalhães, por sua luta política e por sua intensa parceria com Carlos Diegues, o Cacá (1940-2025), com quem casou-se. A pergunta que se faz, sobretudo por quem não é gaúcho é: quem foi a figura que inspira um mimo dado à bambas da produção (ano passado foi Mariza Leão) e da direção (como José Mojica Marins, Laís Bodanzky, Otto Guerra). Nascido em Cachoeira do Sul, Abelin (1900 - 1984) foi um cineasta, empresário e exibidor brasileiro, considerado um dos pioneiros do audiovisual em seu estado natal. Quicou pelo Rio de Janeiro, inspirado pelo afã de ser galã, por apresentar semelhanças físicas com o ator Eddie Polo (1875-1961,) mas consagrou-se como artistas em sua terra, atuante entre as décadas de 1920 e 30, onde fundou a Gaúcha Film e dirigiu ficções e documentários, hoje desaparecidas. Hoje clássicos, "O Castigo do Orgulho", de 1927, e "O Pecado da Vaidade", de 1932, foram seus trabalhos de maior expressividade na realização.

"Abelin criou empresa cinematográfica, foi diretor, iluminador, trabalhou na montagem, ou seja, o cara fez de tudo. Ele é um exemplo de quem acreditou que esse trabalho de construir o cinema em todas as suas etapas é fundamental", explica o crítico Marcos Santuário, um dos curadores de Gramado desde 2012. "Abelin inspira diferentes gerações para que superem todas as dificuldades possíveis".

O site da Cinemateca Paulo Amorim, em Porto Alegre, coleciona dados sobre Abelin, e lembra que, no livro "A Aventura Do Cinema Gaúcho" (2002), o crítico Luiz Carlos Merten identifica Eduardo Hirtz, Francisco Santos, E. C. Kerrigan e Carlos Comelli entre os pioneiros que tentaram fazer cinema no Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XX. Ao avaliar qual deles poderia ser considerado o mais emblemático, porém, escolhe Abelin, por ter sido o único transformado em personagem de um filme. Reside aí uma referência ao nostálgico "Sonho Sem Fim" (1985), dirigido por Lauro Escorel. A produção, com Carlos Alberto Riccelli interpretando o personagem central, reconstitui, com liberdades poéticas, a vida turbulenta do diretor gaúcho e sua tentativa de construir uma carreira cinematográfica no Brasil.

"Faz tanto tempo…, mas eu diria que fiz 'Sonho Sem Fim' motivado, principalmente, pelo fascínio com a trajetória melancólica, poética e persistente do Eduardo Abelin. Achei que o filme refletiria a própria essência do que era, ou ainda é, fazer cinema no Brasil", afirma Lauro. "A trajetória de Abelin — que tentou o sucesso no Rio de Janeiro, fracassou, sofreu deboche dos amigos, mas retornou ao Rio Grande do Sul determinado a fundar a sua própria produtora (a Gaúcha Film) — oferecia uma estrutura narrativa rica em drama, ironia e resiliência. Era a como se fosse a nossa própria história fazendo cinema no Brasil dos anos 1980. Abelin me pareceu um personagem pronto para dar conta disso tudo".

Nesta quarta, Selton Mello passa por Gramado para buscar o troféu Kikito de Cristal, que se estende ainda à atriz Maria Fernanda Cândido, que recebe o seu nesta quinta. Esse mimo é dado em reconhecimento a carreiras que transcendem as fronteiras do país e do continente. Esse Kikito passou a ser entregue em 2007, quando foi confiada ao documentarista carioca Eduardo Coutinho (1933-2014), e já foi entregue a gigantes de outras pátrias. Os argentinos Cecilia Roth e Juan José Campanella, a germânica Mariëtte Rissenbeek, o uruguaio Cesar Troncoso e o moçambicano Ruy Guerra receberam esse solzinho cristalizado, além do titã baiano Othon Bastos, coroado com esse mimo em 2013, e o divo de Petrópolis Rodrigo Santoro, agraciado por Gramado em 2025.