Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Aprogramação da 74ª edição do Festival de San Sebastián, marcada para 18 a 26 de setembro, começou a ganhar forma com o anúncio de 25 produções espanholas — 23 longas e duas séries — que integrarão diferentes mostras do evento. A Competição Oficial terá três estreantes na disputa pela Concha de Ouro: "El mal padre", de Roberto Bueso, protagonizado por Eduard Fernández; "Sants", de Mikel Gurrea, que retorna ao certame após o premiado "Suro"; e "5 minutos más", de Javier Ruiz Caldera, estrelado por Javier Cámara, Berto Romero e Belén Cuesta.
Fundada em 1180 e banhada pelo Golfo da Biscaia, San Sebastián é conhecida mundialmente pela gastronomia — especialmente pelos pintxos, pequenas iguarias que combinam pão, frutos do mar, queijos, embutidos e conservas —, mas também ocupa posição privilegiada no circuito cinematográfico internacional. Desde 1953, quando passou a sediar seu festival, a cidade basca transformou-se em uma das principais vitrines do cinema de autor, ao lado de Cannes, Berlim, Veneza, Roterdã, Locarno e Toronto. É também a sede da entrega anual do Grand Prix Fipresci, principal distinção da Federação Internacional de Críticos de Cinema, prêmio que, em 2025, foi concedido pela primeira vez a um longa brasileiro: "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles.
A história da Concha de Ouro reúne alguns dos maiores cineastas do mundo. O primeiro vencedor foi o espanhol Rafael Gil, em 1953, com "A Guerra de Deus". Desde então, a principal láurea do festival consagrou realizadores como Dino Risi, Eric Rohmer, Claude Chabrol, Arturo Ripstein, Francis Ford Coppola, Wayne Wang, Peter Mullan, Mariana Rondón, Dea Kulumbegashvili e Jorge Sanjinés. Na edição de 2025, o vencedor foi o catalão Albert Serra, com o documentário "Tardes de Soledad". O Brasil, porém, conquistou a Concha de Ouro apenas uma vez: em 2019, quando "Pacificado", dirigido por Paxton Winters e ambientado no Morro dos Prazeres, saiu vencedor da principal competição do festival.
Entre os destaques fora de competição deste ano está a série "El castillo", inspirada no livro "El proxeneta", de Mabel Lozano, sobre a ascensão da máfia do proxenetismo na Espanha. Já as Sessões Especiais receberão títulos como "Ruega por nosotras", de Daniel Monzón; "Sacamantecas", de David Pérez Sañudo, com Antonio de la Torre e Patricia López Arnaiz; "Más allá de la sociedad", série documental criada por J. A. Bayona que retoma a história de "La sociedad de la nieve"; e "Bajañí", documentário musical de Fernando Trueba.
A seção "Horizontes Latinos" reunirá filmes que passaram por Cannes e Berlim, entre eles "Moscas", de Fernando Eimbcke; "Ceniza en la boca", dirigido por Diego Luna; "El deshielo", de Manuela Martelli; "Narciso", de Marcelo Martinessi; e "Chicas tristes", estreia de Fernanda Tovar. Já a seção "Perlak" exibirá um dos títulos mais aguardados do ano, "La bola negra", de Javier Ambrossi e Javier Calvo, vencedor do prêmio de direção no Festival de Cannes. Essa é a principal aposta espanhola para o Oscar 2027. Esse pico queer atravessa o século XX, até chegar a 2017, a recriar os sofrimentos e resiliências de gays que cresceram em suas afirmações identitárias assolados pelo fantasma da intolerância. Em participações breves, mas luminosas, Penélope Cruz e Glenn Close ampliam a popularidade de uma produção que revisita a Guerra Civil Espanhola e o trauma do franquismo (1937-1975) sempre de olho na homofobia e no silenciamento de amores homoafetivos. Inspirado pelo universo poético de Federico García Lorca, assassinado em 1936 por forças ligadas ao regime espanhol, o filme acompanha três histórias gays ambientadas em épocas diferentes, conectadas pela morte de um avô misterioso. Um jovem (Carlos González) recebe a notícia desse falecimento e inicia uma jornada emocional que revisita gerações pregressas, encontrando vestígios de violência, desejo reprimido e tensões familiares herdados ao longo de um século. A presença simbólica de Lorca acompanha toda a narrativa, como uma espécie de espectro político e afetivo que costura os personagens. A fotografia febril de Gris Jordana reforça essa atmosfera de luto permanente, produzindo analogias com referências pictóricas de Goya a "Guernica".
Na mostra "Zabaltegi-Tabakalera", dedicada ao cinema de autor e às experiências formais mais ousadas, estarão reunidos alguns dos nomes mais respeitados da cinematografia contemporânea. O francês Bruno Dumont apresentará "Les Roches rouges", drama sobre a rivalidade entre dois grupos de crianças; o espanhol Isaki Lacuesta levará o documentário "Jaleos", narrado por C. Tangana e centrado na história e na força cultural do flamenco; e o malaio Tsai Ming-liang exibirá "Dust", novo capítulo da série protagonizada por seu monge budista errante. A seleção inclui ainda "HAMALAU gau", do espanhol Oskar Alegria, e "Lejos de los árboles", de Meritxell Colell Aparicio, reforçando o perfil da seção como espaço privilegiado para algumas das propostas mais inventivas do cinema mundial.
Outro elemento que chamou atenção na apresentação oficial foi o cartaz da 74ª edição, construído a partir do rosto do ator argentino Ricardo Darín. Frequentador assíduo do festival e vencedor da Concha de Prata de Melhor Ator por "Truman" (2015), além de protagonista de diversos filmes exibidos em San Sebastián, Darín torna-se a imagem da identidade visual do evento, reforçando o vínculo histórico do festival com o cinema ibero-americano. O Velódromo ainda receberá os documentários "Muguruza FM 40 Tour" e "Karateka", enquanto a organização confirmou que novos títulos espanhóis serão anunciados nas próximas semanas, completando a programação de um dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo.
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