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O gênio indomável de Odisseu

O gênio indomável de Odisseu
Matt Damon esbanja exuberância na carpintaria dramática de sua atuação como Odisseu Crédito: Universal Pictures

Emprestado ao cinema pela Poesia, o dilema ontológico e político transformado em espetáculo fílmico por "A Odisseia" evoca versos de Mário Faustino (1930-1962), o mesmo que iluminou nosso "Terra Em Transe" (1967): "Porém, não se dobrou perante o fato/ Da vitória do caos sobre a vontade/ Augusta de ordenar a criatura/ Ao menos: luz ao sul da tempestade/ Gladiador defunto, mas intacto/ (Tanta violência, mas tanta ternura) / Jogou-se contra um mar de sofrimentos". Essa parece ser a realidade de Odisseu, personagem que conduz Matt Damon a um outro patamar, em sua carreira (e na arte), aos 55 anos.

Há 29 anos, quando garimpava papéis de destaque, ele ganhou a atenção de Gus Van Sant, diretor cult que fez dele o herói da classe operária de "Gênio Indomável" (1997): Will Hunting. Era um jovem "chave-de-cadeia" que disfarçava na brutalidade o QI de Einstein com que nasceu, capaz de aplicar a fórmula de Bhaskara nos mais indecifráveis valores do Xis.

O roteiro foi desenvolvido pelo próprio Damon com o colega ator Ben Affleck. A brodagem deles segue firme e forte até hoje, rendendo até um estúdio para produções independentes que fundaram em 2023, o Artists Equity. Segue firme também a fama desse longa de Van Sant, que estabeleceu a (boa) reputação do astro e o associou ao arquétipo "dos que carregam cemitérios na cabeça", como o próprio Fautino escreveu: "Houve silêncio até para escutar-se/ O germinar atroz de uma desgraça".

Damon tem falas dignas de nota em "The Odissey", título original dessa produção de US$ 250 milhões, entre elas: "Todo homem vê melhor olhando de baixo". Seu personagem, Odisseu/Ulisses, passou décadas sobre as ondas (como os seres errantes cantados por Faustino), longe do trono de Ítaca - província da Grécia de Homero, lá do século VIII -, para cumprir missões. Deixou sua amada Penélope (Anne Hathaway, divina em cena) para trás e não viu seu filho, Telêmaco (Tom Holland), crescer.

Foi à Tróia no ventre oco de um cavalo de madeira, fez a guerra que tinha de fazer e, depois, enfiou-se numa série de perigos, entre sereias e um ciclope. Perdeu soldados a rodo. Alguns... ele deixou no fio da guilhotina. Era preciso, pelo que o ethos bélico requeria, e ele fez. Mas o peso hoje bate. Como pesam os fantasmas de Will Hunting, o gênio de Van Sant.

Ao longo das quase três décadas que separam "Gênio Indomável" de "A Odisseia", Damon fez muita coisa boa, sobretudo "Os Infiltrados" (2006), de Scorsese; "Perdido Em Marte" (2015), de Ridley Scott; e a franquia Jason Bourne (2002-2016). Com o próprio Nolan, fez "Interestelar", em 2014, e o majestoso "Oppenheimer", de 2023, no qual a tessitura de personagem de seu Odisseu encontra eco.

Não esqueça de que o longa-metragem que oscarizou Cillian Murphy partia de um homem (o físico J. Robert Oppenheimer) que enxergava nas ciências matemáticas a única forma de equalizar o mundo... aparando as arestas imperfeitas do ódio institucional, até o momento de essa sua crença fabricar a bomba atômica. Depois da fabricação, detonou-se a morte... na forma de um cogumelo atômico que ceifou multidões. E desse fungo de fuligem, choro, chuva ácida e câncer, veio a culpa.

Oppenheimer e Odisseu são heróis culpados, com o fardo "do mar de sofrimentos" que o poema de Faustino apontou. A diferença é que o nobre encarnado por Damon faz de seu pesar um aríete. E Nolan, na sua direção mais madura, dá uma ajuda e tanto a ele, convertendo o que começa como um misto de thriller política com tons de alegoria existencial numa épica de revanche à la "Ben-Hur" (1959). Existe até um Messala, o vilão que quizilava Charlton Heston nas bigas.

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Em busca de poder, Antinoo (Robert Pattinson) é a encarnação da vilania em Ítaca | Foto: Universal Pictures

O Messala de "A Odisseia" é Antínoo, burguesinho de Ítaca que ambiciona desposar a rainha Penélope, sob a hipótese de ela estar viúva, diante da ausência longa de seu amado. Essa cascavel foi confiada a Robert Pattinson, o atual Batman, que interpreta com ar de velhacaria, almejando ter poder sem fazer esforço. Cabe a ele o desenho arquetípico da vilania num espetáculo cinematográfico que desafia rótulos. É uma atuação luminosa que, na versão brasileira do filme, ganha novos e agônicos contornos com a dublagem de Wendel Bezerra, um gênio de sua profissão.