Apesar dos mirrados números de bilheteria que assolam a produção nacional em 2026, a safra documental do país não arreda pé do circuito e segue a rondar competições em mostras de prestígio no exterior e em nosso território. Há uma semana, a artista visual brasiliense Ana Vaz emplacou na competição Cineasti Del Presente, do 79° Festival de Locarno (5 a 15 de agosto) um longa-metragem de verve ensaística que flerta com os códigos do real nas telas: "Hanabi", com ecos de um terremoto no Japão, em 2011.
Na recente CineOP, em MG, produções como "Vivo 76", de Lírio Ferreira, e "Irritante Prodiígio", de Luiza Lindner, ampliaram seu rol de fãs nas Gerais. Em circuito, "Zico, O Samurai de Quintino", de João Wainer, fez cerca de 34 mil pagantes torcerem por um sonho rubro-negro, ao mesmo tempo em que a produção musical calcada em biografias de estrelas da nossa MPB se manteve firmes nas salas de projeção. Essa seara, que rendeu sucessos comerciais como "Vinícius" (2005), de Miguel Faria Jr., e "Raul: O Início, O Fim e O Meio" (2012), de Walter Carvalho, nunca sai do radar das redes exibidoras e se fortalece neste fim de semana com a chegada de um híbrido de .doc com animação bem cacifado no exterior: "A Noite de Alaíde", de Liliane Mutti.
Passou no desfecho do 28° Festival du Cinéma Brésilien de Paris, em abril, e ganha telas, por aqui, agora. Ave canora, Alaíde Costa não precisa que falem por ela. Bastam alguns acordes para esse rouxinol do Méier comprovar o que fez com a canção brasileira, aveludando fraseados de lirismo puro. Por isso, "A Noite de Alaíde" dispensa as estratégias de "verbete de Wikipedia" comum a narrativas biográficas brasileiras e deixa sua protagonista soltar o que tem de mais divino: a voz.
"Esse filme tem uma longa trajetória e muita gente que pegou na nossa mão para que ele existisse. Foram muitas parcerias, desde o primeiro 'sim'. Como dizia Clarice Lispector: 'a vida começa com um sim'. O nosso veio do canal Music Box. Depois o filme foi finalmente abraçado pelo Canal Curta!, com apoio da Ancine/FSA. Em seguida vieram os nossos distribuidores para cinema. Teve a Bretz, a Zero em Comportamento e a TV Cultura, com seus arquivos e interessada na exibição. Por último, o patrocínio do BNDES tem nos permitido uma campanha do filme por todo o país", explica Liliane, realizadora baiana, hoje radicada em Paris, cuja obra traz as pérolas "Salut, mes ami.e.s !" (2023) - filme sobre o rito de passagem da juventude, ambientado no CIEP 449, de Niterói - e "Madeleine à Paris" (2024) - focado no performer Roberto Chaves, o Robertinho.
A sacada dela para assegurar à figura de Alaíde uma ribalta cinematográfica mais original do que o padrão da nossa não ficção foi aplicar linguagem animada a sequências pautadas pela emoção. Ao animar situações do passado da intérprete de "Afinal", recriando fatos dos anos 1940 e 50, Liliane consolidou um exercício híbrido de expressões poéticas em movimento.
"A batalha para realizar um filme é sempre gigante e precisa muita paixão, algo quase missionário. Mas eu tenho conseguido encontrar meus pares. Teve ainda outro primeiro 'sim' para 'A Noite de Alaíde', que foi o projeto De Volta aos Sets, durante a pandemia. Fomos selecionados pela Bravi/ Brazilian Content/ Icav/ Rede Paradiso, um pool de parceiros do cinema brasileiro que injetou ar para profissionais durante a covid-19", diz Liliane.
Depois de um longa sobre Miúcha (1937-2018), ela prepara agora um longa sobre a cantora Angela Ro Ro (1949-2025). "Esse, na real, é um meta-filme, com a Angela falando sobre a sua paixão pelo cinema, por Glauber Rocha e outros tantos baianos, como Caetano, em meio ao disco 'Transas' em Londres", explica a cineasta, que promove uma nova sessão de "A Noite de Alaíde" na França, para a Sociedade dos Autores Multimídias (SCAM), no dia 17 de setembro. "É uma quinta-feira do verão europeu, quando pretendo ter na plateia parte do público que vem para participar da Lavagem da Madeleine, que esse ano cai no 13 de setembro. A ideia com essa sessão é ampliar o filme para além do universo lusófono, atualmente entrando em cartaz no Brasil e Portugal, e falar, a partir daí, para o público francófono que ama a Bossa Nova. Vamos testar a recepção desse público. É uma ação da agência de promoção de cinemas brasileiros na Europa, a Ciné Nova Bossa, e da Capitu Sale Agence, que vai fazer o follow-up com possíveis distribuidoras. É mesmo uma ação de guerrilha promover o cinema de autora do Brasil fora e dentro do Brasil".
A leva documental do Brasil vai se estender, em nossas salas, na semana que vem, com a estreia de "Ecos Do Teatro Experimental Do Negro", de Daniel Solá Santiago. No dia 30 chega "A Fabulosa Máquina Do Tempo", de Eliza Capai, egresso da Berlinale.
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