Encarado como o filme que vai redefinir não só os rumos das bilheterias do ano, como também a maneira de se lançar blockbusters daqui para frente, "A Odisseia" ("The Odyssey") chega com o pé na porta graças ao prestígio de seu realizador, Christopher Nolan, depois da consagração de "Oppenheimer", há três anos. Ele e sua esposa, a produtora Emma Thomas, transformaram sua empresa, a Syncopy Inc., numa grife de excelências tanto dramatúrgica, quanto econômica, a ponto de desafiar paradigmas do mercado.
A exigência de que as primeiras exibições para a imprensa dessa versão para as telas do poema de Homero fossem mostradas apenas para a crítica especializada, sem abrir brecha para influenciadores digitais (que se limitam a "curti" ou "não curti"), foi um sinal do posicionamento artístico do casal, que carrega Oscars e receitas milionárias em sua estrada.
A chegada ao circuito do longa-metragem, que tem Matt Damon à frente de um elenco colossal, deflagrou uma corrida entre uma edição especial da prestigiosa revista britânica "Empire", lançada em 2024, que desbrava o legado do cineasta, filme a filme. É um almanaque (adquirível via bancas especializadas e via www.greatmagazines.co.uk/empire) que devassa todos os segredos do cinesta britânico.
Cada trabalho dele desde "Following" (que venceu o troféu Tiger no Festival de Roterdã, em 1998) é meticulosamente estudado na publicação, que traz entrevistas com colaboradores e textos de fã ilustres, como o diretor canadense Denis Villeneuve (de "Duna").
Ao mesmo tempo em que esse periódico agita a cinefilia inglesa, Nolan volta a provocar as retinas do público pelo mundo afora com o relançamento, em versão IMAX 70mm de seus principais sucessos. O London BFI cobriu cerca de 20 anos de sua carreira com projeções de fenômenos pop com "Inception" ("A Origem", 2010). É a vez de outros circuitos da Europa acolherem essas fitas.
Ao largo desse regresso, a tal edição especial da "Empire" é uma prova de que o mercado editorial quer saber mais sobre o artista que desafiou convenções do cinemão transformando episódios da História (vide a batalha de Dunkirk, na II Guerra Mundial, e a construção da bomba atômica pelo físico J. Robert Oppenheimer) em espetáculos rentabilíssimo e esteticamente ousados. Essa dimensão espetaculosa dele se estende a sci-fis célebres como "Interestelar" (2014), thrillers ("Tenet", "Amnésia") e adaptações de HQs ("Batman - O Cavaleiro das Trevas"). No Brasil, no dia 24, o pesquisador Pablo Savalla lança na Janela Livraria, do Shopping da Gávea, o obrigatório "O Poder Esmagador do Cinema - Christopher Nolan e a Tecnologia Imax". A sessão de autógrafos inclui debate entre ele e o professor Flávio Di Cola.
Savalla é um dos estudiosos mais respeitados da obra de Nolan, que ganhou um mimo de Cannes, em 2018, num evento relacionado a um de seus ídolos, Stanley Kubrick (1928-1999). Naquele ano, logo que o nolaniano "Dunkirk", uma produção de US$ 100 milhões, virou uma febre mundial, com um faturamento de US$ 530 milhões, o Midas por trás de "A Odisseia" foi chamado para a seção Rendez-vous da Croisette, para falar de Kubrick, de sua paixão por "2001 - Uma Odisseia no Espaço" (que ajudou a preservar) e para dissecar seu modo de realizar.
"Stanley Kubrick dizia que a melhor maneira de aprender a fazer um filme é... filmar. Foi assim que iniciei o meu trabalho. Realizei 'Following' com amigos, o que significava que era preciso fazer tudo sozinho, caso alguém não aparecesse. Para poder justificar exigências rigorosas que a gente se impõe na profissão, você tem de ser capaz de compreender os truques do ofício. O que recomendo aos jovens realizadores é que experimentem de tudo. Isso também evita que fiquem à mercê dos outros. Aliás, em vez disso, experimentando, vocês ficam em pé de igualdade com eles", disse Nolan, explicando seu apreço por trabalhar com IMAX (formato que utiliza filme horizontal de 70 mm com 15 perfurações, permitindo capturar quase dez vezes mais detalhes visuais, resultando em uma resolução equivalente a até 18K).
Em Cannes, Nolan explicou: "Tive o meu primeiro contacto com o IMAX através dos documentários que vi em museus quando era adolescente. Achei fascinante e fiquei curioso em saber como aplicá-lo aos meus filmes, devido ao tamanho e ao detalhe da imagem. Utilizei câmaras IMAX para algumas cenas em 'O Cavaleiro das Trevas', mas, como a imagem era três vezes maior, não podíamos filmar mais de 90 segundos por bobina. Todas as filmagens dependiam deste fator. Em 'Dunkirk', realizei o meu sonho de adolescência ao filmar inteiramente em IMAX", disse o cineasta, que repete a dose em "A Odisseia".
Também em 2018, a editora Cátedra, da Espanha, editou "Christopher Nolan", em seu selo Signo e Imagen, sob a autoria de José Arad. Já na França, o legado que ele vem criando desde seu primeiro longa-metragem, "Following" (produção de 1998), inspirou as páginas de "Les Théorèmes de L'Illusion", de Guillaume Labrude, e "La Possibilité d'un Monde", de Timothée Gérardin.
Muito da literatura hoje em voga sobre o diretor investiga seu mal recebido "Tenet" (2020). Na "Empire" especial, há páginas e páginas sobre ele. Hoje disponível no streaming MAX (ex-HBO), o filme é considerado por muitos o maior enigma do corpus criativo de Nolan, em sua forma de abordar o Tempo num estudo sobre antimatéria. A sequência inicial é um deslumbre, mas muita gente jura não ter entendido a proposta trazida pelo longa, que foi lançado assim que o primeiro lockdown decorrente da covid-19 arrefeceu.
No mercado internacional, um dos títulos mais primorosos sobre Nolan é "Imagining The Impossible", organizado por Jacqueline Furby e Stuart Joy para a Wallflower Press, no selo Director's Cut. É uma leitura plural, com articulistas de distintas formações. A maior parte dessa fortuna crítica paga tributo a uma forma única de filmar que se consagrou de vez com "Oppenheimer", revisando a saga do criador da bomba atômica. Sua receita: US$ 975 milhões.
No papel, sabe-se que "A Odisseia" acompanha a cruzada de retorno ao lar de Odisseu (que em traduções latinas virou Ulisses), o lendário rei grego de Ítaca. Após a Guerra de Troia, ele tenta voltar para casa, esbarrando com seres míticos como o Ciclope Polifemo, as Sereias e a feiticeira-deusa Circe, enquanto tenta se reunir com sua esposa, Penélope.
"Eu venho de uma escola noir, por conta do interesse do gênero nos conflitos sociais e nas ambiguidades que eles geram no dia a dia. O noir é uma derivação policial do melodrama, que entra em cena, nas telas, para qualificar situações de sentimentos extremos. Por isso, meus personagens se revelam por suas ações mais extremadas. Por isso, eu respeito as paixões que brotam da dimensão sensorial da imagem", disse Nolan em Cannes.
Só a partir desta quinta, saberemos o que ele fez com Homero usando um orçamento de US$ 250 milhões. O elenco, além de Damon, também conta com Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Lupita Nyong'o, Robert Pattinson, Charlize Theron, John Leguizamo e Jon Bernthal. As filmagens ocorreram entre fevereiro e agosto de 2025, em diversos locais internacionais, incluindo Marrocos, Grécia, Itália, Escócia, Islândia e Saara Ocidental. Com um orçamento estimado em US$ 250 milhões, o filme é o mais caro da carreira de Nolan. Pode ser o filme do ano. Torcida iniciada por aqui.
Logo que "Oppenheimer" saiu - e se mostrou o esplendoroso - uma postagem no Facebook do cineasta Paul Schrader, diretor de "Fé Corrompida" (2017) e "A Marca da Pantera" (1982), resumiu tudo o que Nolan conseguiu sintetizar ao longo de sua caminhada. Schrader disse: "É o melhor, o mais importante filme deste século". O superlativo impressionou e até espantou, mas foi compensado por um êxito tamanho GG.
Talvez o que justifique a de Schrader seja justamente o fato de Nolan NÃO ser aquilo que os estúdios hollywoodianos produzem e, sim, um diretor autor que dirige narrativas personalíssimas, de teor filosófico, em forma de espetáculo. Basta dois diálogos de "Oppenheimer" para que toda sua força dramatúrgica fique evidente: a) "Genialidade não garante sabedoria"; b) "Vocês procuram o sol, só que o Poder reside nas sombras".
Quem sabe o que Schrader há de dizer agora? Quem sabe como o público vai embarcar no que pode ser o fenômeno do momento?
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