Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Anotícia "E Trinity, quem diria, acabou no PlayStation" poderia perfeitamente servir de título para os filmes feitos por Carlo Pedersoli (1929-2016) e Mario Girotti a julgar pelos nomes de seus longas-metragens mais famosos. Há uma fornada suculenta de sucessos de bilheteria deles na Prime Video Brasil, como "A Colina dos Homens Maus" (1969), "Quem Encontra Um Amigo Encontra Um Tesouro" (1981) e "Banana Joe" (1982). Mas, no rastro dos dez anos de morte de Pedersoli - ator italiano amado no mundo todo sob o pseudônimo americano Bud Spencer -, apareceu mesmo um vídeo game. Spencer partiu no dia 27 de junho de 2016, deixando um legado de blockbusters, a maioria feito em duo com Girotti, o eterno Terence Hill, hoje com 87 anos.
Diante do aniversário dessa década de ausência, o PS5 (quinta versão do console da Sony) anuncia na web o lançamento do jogo "Slaps and Beans 2". É uma versão eletrônica do longa-metragem "Pari e Dispari" ("Par Ou Ímpar"), lançado em 1978 sob a direção de Sergio Corbucci (1926-1990).
O título do game faz jus a duas características essenciais à filmografia de Spencer e Hill: tapas na cara (slaps) e pratadas de feijão (beans). "Slaps and Beans" transporta para a dinâmica dos joysticks o humor e a pancadaria característica da dupla. No enredo, os protagonistas enfrentam uma organização criminosa liderada pelo vilão Capo, percorrendo cenários inspirados em clássicos de sua filmografia, do Velho Oeste a Miami, passando pela ilha tropical de "Quem Encontra um Amigo Encontra um Tesouro".
Com visual pixilado, que remete aos games dos anos 1990, o título aposta na ação em rolagem lateral, evocando sucessos como "Double Dragon" e "Golden Axe", mas incorpora mecânicas que reproduzem a coreografia das brigas dos atores. A jogabilidade também explora as características de cada personagem — a força de Bud e a agilidade de Terence — e inclui minigames, como corridas de buggy e desafios inspirados em "A Dupla Explosiva" (1974).
A trilha sonora reúne músicas e efeitos baseados nas composições da dupla Oliver Onions, formada pelos irmãos Guido e Maurizio De Angelis, responsáveis por boa parte das trilhas dos filmes que serviram de inspiração ao projeto. O game nasceu da demo não oficial "Schiaffi & Fagioli", criada em 2015 durante uma game jam dedicada aos faroestes spaghetti, e ganhou versão licenciada graças a uma campanha de financiamento coletivo realizada no Kickstarter entre outubro e dezembro de 2016.
Além do jogo, um museu com o nome de Bud Spencer, no coração de Berlim, construída em resposta ao amor dos alemães por seus filmes dos anos '960, 70 e 80, acaba de ser reciclado. É uma pérola da cinefilia. Inaugurado em junho de 2021, na região do Roemischer Hof, na avenida Unter den Linden, que leva ao Portão de Brandenburgo, o Bud Spencer Museum reabriu com novas atrações em fevereiro. Tem até café torrado com a marca do ator. O espaço, sempre lotado, tornou-se a nova febre cinéfila germânica, resgatando um mito das telas europeias.
Egresso de Nápoles, Pedersoli fez fama, fãs e fortuna explorando sua silhueta GG (na barriga e no bíceps), no papel do grandalhão de boa índole, capaz de virar uma febre se atacado. Um de seus maiores êxitos, o já citado "Banana Joe", define bem sua persona guerreira em sua canção principal: "seus punhos são canhões". Parte da mítica construída por ele em filmes solo ou em parcerias com Terence Hill, na franquia Trinity, são revisitadas na instituição germânica, que nasceu do sucesso que os dois faziam entre os berlinenses. Aliás, no Brasil, a popularidade deles era enorme, auxiliada pelo "Cinema Especial", a "Sessão da Tarde" e a "Sessão Trinity" da Globo, nos anos 1980, quando eram dublados por Silvio Navas (Spencer) e Newton DaMatta (Hill). Bud e Terence chegaram a filmar no Rio "Eu, Você, Ele e Os Outros" (1984), com Athayde Arcoverde, Dary Reis e Carlos Kurt, o vilão dos Trapalhões, no elenco. Não por acaso, foram ao programa de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. E parte dessa história está no museu de Bud.
Na galeria estão fotos, cartazes e uma série de memorabílias dos 54 longas estrelados pelo astro, como o buggy vermelho com capuz amarelo do sucesso "Dupla Explosiva" (1974), além de uma estátua dele em tamanho real. É uma instituição nos moldes do museu em sua homenagem criado em solo napolitano, com toda a eficiência germânica. Os alemães amam Spencer, tendo produzido cults com ele, como o bem-humorado thriller "Matar é Meu Negócio, Querida ("Mord ist mein Geschäft, Liebling", 2009). O último trabalho de Spencer foi o seriado "I Delitti Del Cuoco", das emissoras Canale 5 e RTL. Toda essa filmografia é estudada pelo museu. Fala-se dela ainda no livro "Bud - Un Gigante Per Papà", lançado na Itália pela editora Giunti.
No livro, uma das filhas de Bud, a escritora Cristiana Pedersoli, pede licença à irmã, Diamy Spencer, e ao irmão, Giuseppe, para narrar a amorosa infância que teve com o pai, dando detalhes do quanto ele valorizava o afeto entre seus familiares. Ela lembra do passado de Bud como campeão de natação e como músico, apaixonado por jazz.
Sempre lotado de fãs comovidos, o sucesso do museu de Bud jogou luz também sobre Hill, levando uma corrida, via web, a um dos filmes mais recentes dele. Lançado em 2018, sem qualquer alarde em solo sul-americano, "My Name Is Thomas", também chamado "My Name Is Somebody", é um road movie de risos e lágrimas que vem ganhando novas janelas, muitas delas online, na Europa, à força do resgate de Terence. Um dos melhores trabalhos dele no western, o lado de Spencer, "I quattro dell'Ave Maria", de 1968, vez por outra flana pela Amazon Prime do Brasil, abrindo oportunidade para novas gerações de cinéfilos brasileiros conhecerem seu estilo "chanchadesco" de humor e ação.
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