Correio da Manhã
Cinema

Hemisfério de encantarias

Num balanço cinéfilo do primeiro semestre de 2026, o Correio da Manhã lista as dez estreias que mais surpreenderam o circuito de janeiro a junho

Hemisfério de encantarias

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Nos próximos seis meses e meio, você vai ouvir falar aos montes em "Fjord", que, rendeu ao romeno Cristian Mungiu sua segunda Palma de Ouro, da mesma forma como, a partir do dia 16 deste mês, "Odisseia", de Christopher Nolan, não sairá do seu redor, na triagem das pepitas de 2026, nas telas. Por que ambos não estão citados na lista que você encontra nestas páginas do Correio da Manhã, dedicadas ao melhor do primeiro semestre? Por que ambos não entraram em cartaz ainda.

Julho nos deu de presente uma produção turca magistral, que veio laureada com o Grande Prêmio do Júri da Berlinale: "Salvação", de Emin Alper. Ela vai ganhar um lugar de honra aqui, pois pertence às estreias do mês sete. Sua trama nos leva a uma aldeia remota nas montanhas da Turquia, onde o regresso de um clã exilado reacende uma disputa por terras que se arrasta há décadas. Enquanto antigos ressentimentos voltam à superfície, Mesut (Caner Cindoruk), irmão do líder local, passa a ser atormentado por visões perturbadoras, às vésperas de se tornar pai. Com a certeza de que se tratam de avisos divinos sobre o Demônio, Mesut desafia as autoridades e insurge à frente de uma rebelião armada. O que se vê aí é um debate rico sobre manipulação da lucidez por malversações da fé e sobre intolerância. Imperdível!

Antes de recebermos essa fina flor de Alper, nossos foram contemplados com muita coisa boa de janeiro a junho. A seleção a seguir resume o que se viu de mais vigoroso em nosso circuito nesse período. Vale um adendo: o magistral "Tardes de Solidão" ("Tardes de Soledad"), que foi contemplado com a Concha de Ouro do Festival de San Sebastián de 2024 e esbanja virtudes para integrar este coletivo, só chegou até nós via streaming. O estudo do catalão Albert Serra sobre o rito da tourada, com foco em práticas machistas e debates sobre virilidade, dá aula de direção, mas não encontrou eco em nossas redes exibidoras. Está na plataforma MUBI. E brilha.

Não estranhe sua ausência e confira as escolhas do Correio, antes de fazer o seu panteão:

DIA D ("Disclosure Day"), de Steven Spielberg (EUA): O melhor filme do primeiro semestre é assinado por um jovem de 79 anos. Amem-na ou odeiem-na, sua narrativa provoca, inquieta. Suas plateias racharem em inflamados debates, que vão das fake news à dimensão filosófica da Ufologia, e, no quebra-pau, transformaram o regresso do diretor de "Tubarão" (1975) às telas numa coqueluche cinéfila do momento. Num dado momento de sua trama, o vilão arrepiante (mas humanizado) vivido por Colin Firth, Scanlon, fala que a realidade sobre a presença de óvnis entre nós "é um vírus contra o qual a Humanidade não tem anticorpos". A organização que ele lidera, a Wardex, quer manter o planeta na caverna do desconhecimento. Mas um time formado pela apresentadora do tempo Margaret Fairchild (Emily Blunt), o especialista em computação Daniel Kellner (Josh O'Connor, enfim eficaz) e o ativista do livre conhecimento (o tal "disclosure" do título original) Hugo Wakefield (Colman Domingo) vai desafiar a vontade do status quo... do Poder. As sequências de fugam tornam o roer de unhas uma praxe.

ALPHA, de Julia Ducournau (França): Cinco anos depois de ganhar a Palma de Ouro de Cannes com "Titane", esta realizadora voltou a rachar sensos, num jorro imagético devastador. Mélissa Boros interpreta a personagem-título, uma adolescente de 13 anos que passa por uma fase de clamor do sexo, na descoberta do desejo, sob a recorrente tentação de um colega de escola, num momento em que uma doença transmitida pelo sangue destrói multidões pelas ruas, sobretudo dependentes químicos. A peste se chama Vento Vermelho. É difícil não pensar na AIDS ao ver como o contágio se deflagra, por meio de agulhas infectadas. Golshifteh Farahani e Tahar Rahim interpretam um casal de irmãos. A médica vivida por Golshifteh, chamada só de Maman, precisa ajudar o mano Amin (Rahim, em impecável atuação), que o Vento quer levar.

A FÚRIA, de Ruy Guerra (Brasil): Com sintomas plásticos de "Sin City" (2005), em sua forma antinaturalista mediada pelo uso do video mapping (projeção de imagem em larga escala), a parte final da trilogia formada por "Os Fuzis" (1964) e "A Queda" (1978) testemunha a luta do ex-soldado e ex-mestre de obras Mário na peleja por um acerto de contas com dois poderosos que o traíram - e, de forma simbólica, deram uma rasteira no "sonho brasileiro", a nossa maior ficção. Um deles é seu sogro, hoje um barão da construção civil, Salatiel (Lima Duarte, em estado de graça), bilionário que financia campanhas parlamentares. Um de seus apoiadores é o outro traidor: Feijó, candidato à presidência da Câmara dos Deputados. A atuação de Daniel Filho nesse papel é de um viço raro.

O BOLO DO PRESIDENTE ("Mamlaket al-qasab), de Hasan Hadi (Iraque): O vencedor da láurea de júri popular de Cannes, em 2025, lembra "O Balão Branco" (1995), pela sua matriz de heroína infantil, mas não se agarra a eixos etnográficos. Sua protagonista é Lamia (Banin Ahmad Nayef), uma estudante de 9 anos que precisa cumprir a tarefa imposta por sua escola: preparar um bolo. Não se trata de um bolo qualquer. É o bolo de aniversário para... Saddam Hussein (1937-2006), o então líder de sua pátria. Seu problema: cadê a grana para os ovos, o fermento, o leite? Pior ainda: cadê a dignidade do microcosmos da opressão a seu redor? Tais perguntas rendem peripécias e ínguas geopolíticas, fazendo de um galo um coadjuvante.

UMA INFÂNCIA ALEMÃ ("Amrum"), de Fatih Akin (Alemanha): Uns 22 anos depois de ganhar o Urso de Ouro com o colosso "Contra a Parede", o diretor que mais aproximou a Turquia (de seus pais) da Hamburgo onde nasceu e cresceu retorna maduro e preciso com um olhar sobre a II Guerra. Seu enredo remonta aos últimos dias do conflito entre o Eixo e os Aliados, quando o menino Nanning (Jasper Billerbeck), de 12 anos, enfrenta o mar traiçoeiro para pescar e trabalha na fazenda próxima para ajudar sua mãe (Laura Tonke) a sustentar a família. Apesar das dificuldades, a vida na ilha de Amrum parece um paraíso. Aquele Éden é visto sob a ótica de um garoto que cresceu sob a ideologia do III Reich, no início dos anos 1940, sem saber das atrocidades cometidas por seu país sob o cabresto da SS. Agora, um segredo de família há de abalar a frágil paz do canteiro idílico onde ele vive. Daí surge um drama de despertar delicado.

MICHAEL, de Antoine Fuqua (EUA): Prestes a bater US$ 1 bilhão em sua arrecadação nas telas, a saga do Rei do Pop, dirigido com todas as manhas melodramáticas do cineasta por trás da franquia "O Protetor" (2014-2023), firma-se como a biopic (épico biográfico) mais rentável da História, embora tenha vencido o segundo lugar, o oscarizado "Oppenheimer" (2023), só por alguns milhares de dólares. Acusado de suavizar passagens controversas da trajetória de Michael Jackson (1958-2009), a biografia do cantor de "Thriller" e "Beat It" se agiganta na opção por uma linguagem de tons documentais capaz de recriar shows com um realismo que deslumbra a plateia. Colman Domingo causa ódio no papel de Joe Jackson, o pai patrão dos Jackson Five, numa atuação feroz. Já Jaafar Jeremiah Jackson, sobrinho do ídolo, faz bonito ao reviver o tio em sua mocidade cheia de atropelos.

ECLIPSE, de Djin Sganzerla (Brasil): Eis um suspense sensorial febril. Filha da atriz e diretora Helena Ignez e do cineasta Rogério Sganzerla, Djin despontou ainda jovem, em 2003, no elenco de "O Signo do Caos", e estreou na realização de longas-metragens com "Mulher Oceano", em 2020, com fôlego autoral para debater identidades femininas. Nesta trama, ela cruza mistério, espiritualidade e investigação. Sua personagem, Cleo, astrónoma grávida, recebe sua meia-irmã indígena, Nalu (Lian Gaia). A visita de sua mana mais moça desencadeia a revelação de segredos familiares e conduz ambas a uma descida à Deep Web, onde passam a investigar Tony (Sérgio Guizé), marido de Cleo, figura envolta numa inquietante duplicidade. Numa atmosfera de mistério, a produção mantém sua tensão contínua, sustentada pela fotografia rigorosa de André Guerreiro Lopes e pela montagem vibrante, assinada por Karen Akerman e Karen Black.

NATAL AMARGO ("Amarga Navidad"), de Pedro Almodóvar (Espanha): Com a especiaria da autocrítica em sua argamassa, o almodrama da vez parece ser um ensaio ético sobre fontes dramatúrgicas e as fidelidades por ela exigidas, com Bárbara Lennie entre suas mais vívidas exuberâncias. Ela atua num diapasão de ambiguidade, fervendo o caldo de uma investigação sobre os limites entre o privado e o público na construção de uma narrativa. A história dela com um jovem bombeiro e com uma amiga por quem nutre distintos sentimentos parece ser só a invenção de um cineasta (Leonardo Sbaraglia) em busca de um filme para rodar. Ambos os enredos passam a refletir-se num jogo metalinguístico onde realidade, memória, ficção e o próprio Almodóvar se confundem e se imiscuem.

PERTO DO SOL É MAIS CLARO, de Regis Faria (Brasil): Responsável pela direção da pornochanchada inicial de nossa comédia erótica, lá em 1969 ("Os Paqueras"), Reginaldo Faria é um ator de raro carisma, vide "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia" (1977) e o desempenho como o escroque Marco Aurélio em "Vale Tudo" versão 1988. Já octogenário, ele esbanja viço no papel de um engenheiro de 85 anos abalado com a perda recente de sua esposa, que opta por seguir em frente. A narrativa nos guia por sua rotina solitária, mostrando o apoio dos filhos e sua determinação em escrever um livro. Uma paixão inesperada vai alterar sua rotina.

O OLHAR MISTERIOSO DO FLAMINGO ("La Misteriosa Mirada Del Flamenco"), de Diego Céspedes (Chile): Este ganhador do Prix Un Certain Regard de Cannes recua até 1982, numa cidade mineira isolada no deserto chileno, onde a pequena Lidia, de 11 anos, vive sob a proteção de artistas trans e travestis que gerem um cabaré local. Quando uma doença desconhecida começa a espalhar-se entre os mineiros que frequentam clandestinamente o espaço, instala-se um clima de histeria coletiva alimentado pela homofobia e pela transfobia. Corre o rumor de que o contágio acontece através de um simples olhar. Sua diva, Flamingo, figura maternal interpretada por Matías Catalán, tenta proteger Lidia de um mundo cada vez mais hostil. Céspedes evita os códigos convencionais do cinema histórico chileno. Não há preocupação em sublinhar referências oitentistas nem em transformar a ditadura de Pinochet num eixo narrativo explícito. Prefere mostrar as consequências invisíveis de uma sociedade moldada pelo fascismo, sem transformar a memória política em ilustração didática.