Lá se vai um ano desde que Reginaldo Faria lançou o álbum "Violão" (via Kuarup), assumindo em público um romance que mantém desde os 12 anos com o instrumento de cordas que é a sua terapia de uma vida inteira. Mais ou menos, nesse período, estreou na Globo o remake de "Vale Tudo", uma das novelas que o celebrizaram - sobretudo por uma sequência em que dá uma banana para o Brasil. Em paralelo, seu rosto ganhou mundo... e chegou à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood... numa breve aparição de seu maior êxito de bilheteria (no posto de ator), "Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia" (de 1977) na abertura de "O Agente Secreto", numa citação de Kleber Mendonça Filho aos achados da segunda metade da década de 1970.
Nesse momento, cabeça de Reginaldo andava as voltas com dois outros filmes de peso, hoje ao nosso alcance. Em março, ele integrou uma quadrilha de cabeças grisalhas que dão apoio aos golpes de Fernanda Montenegro e Ary Fontoura no thriller "Velhos Bandidos". Virou a maior bilheteria nacional de 2026, com cerca de 420 mil pagantes, e já está disponível em streaming, na Prime Video. Em maio, foi a vez de ser protagonista nas telonas, mais uma vez, assumindo o que talvez seja seu personagem mais complexo - desde o Marco Aurélio lá do supracitado folhetim da Globo, exibido em 1988 - no longa "Perto Do Sol É Mais Claro".
Até ontem, a produção estava em circuito, demonstrando longevidade por conta da atuação luminosa de Reginaldo que, na tarde desta quinta-feira, tem um duplo compromisso com a Caixa Cultural, no Centro, na programação da retrospectiva da atriz Cristina Aché.
Dois longas dirigidos por Reginaldo passam no evento em tributo à atriz. Às 14h40 rola "Quem Tem Medo De Lobisomem?" (1975) e, às 16h35, passa "Aguenta Coração", de 1983. Ao fim das projeções, ele engata um bate-papo com a homenageada, Cristina Aché, com a também atriz Fátima Freire e com o ator Osmar Prado.
"O que o cinema me deu de mais bonito foi a liberdade de poder criar e de transformar meus sonhos em realidade", diz Reginaldo, ao relembrar seus feitos, aos 89 anos. "A primeira imagem que vi na telona foi a de Carlitos. Meu tio fazia exibições dos filmes de Chaplin num Clube de minha cidade (Nova Friburgo) onde a garotada se dobrava de rir e de amá-lo".
Com um currículo invejável, que vem lá de "Assalto Ao Trem Pagador" (1962), de seu irmão (o gênio Roberto Farias), Reginaldo fez história atuando e também dirigindo. A invenção da pornochanchada, um dos filões de maior receita de nosso cinema, é atribuída a ele, com o lançamento de "Os Paqueras" (1969), seu primeiro filme como realizador. Dirigiu oito longas, entre os quais o cult "Barra Pesada", de 1977, e teve seu trabalho mais recente na função de cineasta, "O Carteiro" (2011), exibido na disputa oficial de prêmios de Gramado.
"Sonho fazer 'Os Anjos da Cara Suja', inspirado nos filmes que via de James Cagney, em que ele era o herói bandido dos meninos dos guetos de New York, e nós, moleques, imitávamos sua delinquência. Escrevi um livro sobre esse tema que daria um bom filme", orgulha-se Reginaldo.
Ele dirigiu e estrelou "Quem Tem Medo De Lobisomem?", brincando com crendices populares. Na trama, Neto (Reginaldo) e Lula (Stepan Nercessian), dois céticos quanto ao sobrenatural, saem em busca de aventuras, pesquisando origens de lendas, como o Saci Pererê. Encontram Iracema (Camila Amado), noiva rejeitada. Instalam-se todos numa fazenda abandonada, onde ocorrem estranhos incidentes cujas causas são atribuídas ao azar da moça. Os três caem nas garras de um caseiro, o Dr. Leão (Carlos Kroeber), pai de seis filhas, que seduzem, cada uma a seu modo, a dupla de protagonistas. Mas há um rapaz cercado de maus augúrios nesse enredo, Pedro (Zanoni Ferrite). Ele é o sétimo filho de Leão. Segundo crenças, pode carregar a maldição da licantropia, moléstia que converte gente em homens-lobo.
"Esse filme foi criado na década de setenta e, subjetivamente, nos remetia ao medo da época em que se vivia acuado", lembra Reginaldo. "A ideia era apresentar dois jovens aprisionados passando por torturas psicológicas e tentando escapar. Mas a sedução, através das filhas de Don Leão, impedia os dois. Uma delas, a mais sedutora, era feita por Cristina Aché; outra, a seduzida, era feita por Camila Amado, que se deixa encantar pelo lobisomem. A ideia era, através da comédia, levar o público a pensar no regime em que vivíamos".
Também se vê Reginaldo em "Aguenta Coração". João, seu personagem, e Cleto (Jorge Botelho) trabalham juntos em uma imobiliária e, nas horas vagas, fazem filmes em 16mm. João é casado com Maria (Christiane Torloni), jovem estudante. Cleto é indiferente a Tutuca (Gilda Guilhon), cada vez mais preocupada com a frieza do marido. A eles vêm se juntar Ricardo (Osmar Prado), antigo colega de escola, machão, mimado, filho de fazendeiro, e Janete, sua esposa, vivida por Cristina Aché. Apesar dos conflitos conjugais e da violência urbana que constantemente invade suas rotinas, os três casais formam um grupo alegre. Um dia, João e Cleto documentam um crime e acabam, graças a essa coincidência, sendo contratados para trabalhar na televisão. A nova atividade vai criar problemas e abalar vidas conjugais.
"Esse é um filme que, naquela época, parecendo um prenúncio, retratou a violência gratuita e urbana em que, numa pequena discussão de trânsito, alguém puxou o reviver e atirou no outro. Trata também do machismo em detrimento das mulheres. A personagem de Cristina, tentando não se subjugar e procurando um novo relacionamento, aprisiona-se na culpa. Nada além do que se vê... e se repete, em escala gigantesca... nos dias de hoje", diz Reginaldo, que arrancou elogios da crítica com "Perto Do Sol É Mais Claro", de seu filho Regis Faria.
O mítico ator que ajudou o "Lúcio Flávio" de Hector Babenco (1946-2016) a vender 5,4 milhões de ingressos ilumina cinemas no papel de Rêgi, um engenheiro carioca de 85 anos que precisa reaprender a viver depois da morte da esposa. O cotidiano inicialmente marcado pelo luto ganha novos contornos graças ao apoio dos filhos, ao projeto de escrever um livro e ao inesperado surgimento de um novo amor. É uma atuação solar de um operário da arte que entrou no cinema para "ser pra sempre", e segue a nos surpreender.
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