Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Exercício de delicadeza de uma cineasta em evolução, vinda de "Fora de Série" (2019) e "Não Se Preocupe, Querida" (2022), a dramédia "O Convite" ("The Invite") amplia (... e um bocado) o espaço conquistado pela atriz Olivia Wilde para usar as ferramentas da direção em prol de um cinema adulto. Sua obra, calcada na palavra, tem geometrias mais próximas do teatro (espaços fechados qual um palco) e foco em quiproquós morais.
É uma história sobre dois casais num jantar onde falta vinho e a comida não corresponde às restrições alimentares de uma das suas convidadas. É um jantar entre vizinhos. É um jantar fomentado pelo fato de os moradores do andar de cima transarem feito coelhos... ruidosamente... e os anfitriões não se tocarem mais. No piso de baixo vivem o professor de Música Joe e sua esposa, Angela (hoje uma dona de casa), com uma filha de 12 anos, que nunca vemos. Em cima, moram a sexóloga espanhola Pina e o bombeiro Hawk. Respectivamente, o elenco que dá vida a essas figuras inclui Seth Rogen, a própria Olivia, uma Penélope Cruz de cabelos louros e um Edward Norton em estado de graça.
No pavimento dessa experiência sobre escuta, num tempo de ruídos, está um dos dramaturgos de maior viço do teatro popular nos anos 2010 e 2020: o catalão Cesc Gay, artista que faz do cotidiano um campo de batalha.
"Escrever é saber dominar as caricaturas relativas às representações do excesso, seja o excesso de dor ou da euforia", disse Cesc, ao Correio a Manhã, numa entrevista por telefone ao levar ao Festival de San Sebatián seu filme "Sentimental" (2020), adaptação da peça de sua autoria "Els Veïns De Dalt" ("Los Vecinos De Arriba"), que serviu de base para "O Convite".
Neste exato momento, há uma outra versão dela em curso na Bélgica, "De Bovenburen", com direção de Simone van Dusseldorp, e há uma adaptação em filmagem em Portugal, com o título "O Pecado Mora Em Cima" e direção de Rui Pedro Sousa. Sabe quem está cena? Os eternos Caco Antibes e Magda: Miguel Falabella e Marisa Orth.
Hoje com 59 anos, Francesc Gay i Puig é conhecido entre a cinefilia brasileira por "Truman", de 2015, em que um Ricardo Darín no fim da vida conta com a ajuda de um amigo (Javier Cámara) para encontrar um lar para seu cão. Faturou uma baba com esse longa (US$ 9 milhões, cerca de três vezes mais do que custou) e ainda ganhou o troféu Goya (o Oscar da Espanha) de Melhor Direção. Antes, em 1998, junto com o argentino Daniel Gimelberg, ele fez sua estreia na tela grande, ao rodar "Hotel Room". Em 2000, foi escolhido para transpor o espetáculo "Krámpack - Descobrindo o Prazer" para o cinema e acabou sendo laureado em Cannes, com o Prêmio da Juventude, por sua abordagem do amadurecimento. "Todo assunto que é tabu precisa ser visto numa dinâmica que equilibre riso e dor, sob os vínculos do companheirismo", disse Cesc, ao exibir "Histórias Que É Melhor Não Contar" (2022) em San Sebastián.
Seu longa mais recente, "53 Domingos", também de matriz teatral, estreou este ano na Netflix. Na trama, três irmãos se reúnem para ajudar o pai de 86 anos, que mora sozinho e começou a apresentar um comportamento estranho. Segue inédito por aqui seu delicioso "Mi Amiga Eva", de 2025, que é um aulão de perseverança.
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