Asgard, a morada dos deuses nórdicos, vai fazer baldeação na TV Globo, com a passagem do quatro longa do Deus do Trovão pela “Tela Quente”, com direção do neozelandês Taika Waititi. O australiano Chris Hemsworth encarna o herói. Essa superprodução de 2022 faturou cerca de US$ 761 milhões. Tomou muita bordoada em sua passagem pelo circuito, há quatro anos. Uma revisão crítica... agora no âmbito da telinha... pode lhe cair bem.
Somados, os três longas anteriores da franquia do príncipe de Asgard, lançados em 2011 (“Thor”, de Kenneth Branagh), 2013 (“O Mundo Sombrio”, de Alan Taylor) e 2017 (“Ragnarok”, também de Waititi), arrecadaram US$ 1,9 bilhão. A nova produção, “Amor e Trovão”, regada a hits do Guns n’ Roses na trilha sonora, teve como seu principal chamariz é a volta de Natalie Portman como Dra. Jane Foster. Ela aparece não apenas como astrofísica e, sim, como a nova portadora do martelo Mjölnir.
Nos quadrinhos, Jane é conhecida desde o início dos anos 1960, quando apareceu como uma figura feminina aguerrida, que desperta a paixão de Thor. Este, uma figura mitológica dos povos nórdicos, ainda citado em regiões escandinavas, virou super-herói em “Journey into Mystery” #83, em agosto de 1962. Mas ela foi repaginada como a Poderosa Thor em 2015, em HQs editadas aqui pela Panini Comics. Depois da saga “Pecado Original”, escrita por Jason Aaron e desenhada por Mike Deodato, o herdeiro de Asgard não conseguiu mais empunhar Mjölnir, por se considerar indigno. Sua marreta fica abandonada na Lua até reconhecer que Jane, na época enfrentando um câncer terminal, poderia ser sua portadora ideal. Essa é a trama que Waititi filmou tendo o galês Christian Bale no papel do vilão Gorr, um assassino de entidades divinas.
Atualmente, o site da Panini está vendendo um encadernado com as peripécias de Jane com o Mjölnir, assim como uma antologia das primeiras missões de Thor nas HQs.
Embora seja formalmente mais requintado e ambicioso do que “Thor: Ragnarok” (2017), a volta do filho de Odin aos cinemas sofre com o mesmo problema de seu longa-metragem anterior: Taika Waititi insiste em fazer chanchada de onde se espera o tom solene, épico, inerente ao vigilantismo da narrativa de super-heróis. “Amor e Trovão” está mais para “Nem Sansão, Nem Dalila” (1954), com Oscarito, do que para os Vingadores. A receita de humor que passou a fazer parte desse filão da aventura sobretudo a partir de “Homem de Ferro” (2008) sofre com o excesso de chacota quando cai nas mãos do realizador de “O Que Fazemos Nas Sombras” (2014). Além de insistir quase histericamente no emasculamento de Thor, atomizando códigos de virilidade, sem conseguir com isso a recontextualização das representações da masculinidade, Waititi se perde aqui na construção da figura do vilão, Gorr, no roteiro que escreveu com Jennifer Kaytin Robinson. Apesar de ter nas mãos um dos atores mais talentosos da atualidade, Christian Bale, o cineasta não consegue justificar a vilania que tenta imputar a Gorr. Pior do que isso: faz com que o público se apiede dele, apesar de seus crimes envolverem assassinatos.
Concebido para ser uma espécie de novo Thanos, o genocida dos últimos filmes da franquia “Vingadores”, Gorr não se apresenta, na versão de Waititi, com motivações que justifiquem sua maldade. E há uma digressão gigante na narrativa que desfoca os heróis da caça a esse Matador de Deuses, levando-os a um Olimpo gourmetizado, que prece um cenário do “The Voice”, onde divindades de diferentes civilizações se refugiam, sob a batuta de Zeus. Este é vivido por um Russell Crowe nas raias da caricatura.
O que sobra de sólido desse novo “Thor”, além das sólidas composições heroicas criadas por Natalie Portman (como Jane Foster) e Tessa Thompson (a Valquíria), é a sequência inicial de entrada do filho de Odin, numa ciranda de batalha que esbanja adrenalina. Ali, parece que estamos diante do Waititi que dirigiu o episódio 8 da temporada 1 de “O Mandaloriano”, ou seja, um Waititi sóbrio. De resto, esse filme mais parece Carlos Manga, sem um sinal sequer da essência de espetáculo que havia em “O Mundo Sombrio” (2013), o apogeu da franquia “Thor”. A sorte é que Hemsworth tem carisma para distribuir e anda no apogeu de seu talento. No Brasil, ele é bem dublado por Mauro Horta.
Chanchada com Thor aquece a 'Tela Quente'
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