Na conversa a seguir, Raquel Kallak explica como esse ecossistema cinematográfico para de pé.
De que maneira a Mostra de Ouro Preto, com sua verve de preservação, conjuga-se com a verve memorialista (e reverente à História) das Gerais? De que forma a Mostra se articula com os demais esforços de preservação patrimonial do estado?
Raquel Hallak - A CineOP nasceu em Ouro Preto por uma razão muito simbólica. Estamos falando da primeira cidade brasileira reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, um território que tem na preservação da memória uma de suas maiores vocações. Ao longo de seus 21 anos, a Mostra construiu uma relação profunda entre o patrimônio audiovisual e o patrimônio histórico, artístico e cultural de Minas Gerais. Quando discutimos a preservação do cinema, estamos falando também da preservação das narrativas, dos modos de vida, dos acontecimentos e das identidades que ajudam a contar a história de um povo. O cinema é um patrimônio cultural tão importante quanto os monumentos, as cidades históricas e os acervos documentais. Desde sua primeira edição, a CineOP realiza o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, que reúne representantes das principais instituições de preservação do país. Ao longo de duas décadas, esse espaço tem contribuído para discutir desafios, formular diretrizes e colaborar na construção de políticas públicas para o setor. A trajetória da CineOP está diretamente associada a importantes conquistas da preservação audiovisual brasileira, como a criação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), a elaboração do Plano Nacional de Preservação Audiovisual e, mais recentemente, a criação da Rede Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros. Por isso, o tema desta edição — "Um país existe nas imagens que preserva" — dialoga de forma tão profunda com a vocação histórica e patrimonial de Ouro Preto, de Minas Gerais e do Brasil, reafirmando que preservar imagens é preservar a memória, a identidade e a história de uma nação.
Como a seleção de filmes da CineOP conversa com o repertório das mostras de Tiradentes e de BH, que você também realiza?
Os três festivais realizados pela Universo Produção integram o programa Cinema Sem Fronteiras e foram concebidos para serem diferentes e complementares. Juntos, eles formam uma plataforma contínua de reflexão, difusão, formação, internacionalização e desenvolvimento do audiovisual brasileiro, do audiovisual latino-americano. A Mostra de Tiradentes é dedicada ao cinema brasileiro contemporâneo, à descoberta de novos realizadores, à diversidade da produção, novas linguagens, tendências e narrativas. A CineBH amplia esse olhar para a América Latina (hispânica), promovendo o encontro entre criação, mercado, formação e circulação audiovisual. Já a CineOP tem como eixo central a preservação, a história e a educação, refletindo sobre a memória audiovisual e sua importância para a construção da identidade cultural do país. Essas três dimensões dialogam permanentemente. Não existe futuro sem memória, assim como não existe preservação sem produção contemporânea. Muitos dos filmes que estreiam hoje em Tiradentes serão, no futuro, parte do patrimônio audiovisual brasileiro que precisaremos preservar. Da mesma forma, as reflexões promovidas pela CineOP ajudam a compreender a trajetória histórica do cinema e a contextualizar as produções que circulam em Tiradentes e na CineBH. Juntos, os três festivais e o Brasil CineMundi formam uma plataforma única no país, que atua de maneira integrada em todas as dimensões do audiovisual: formação, produção, mercado, exibição, circulação, preservação, pesquisa e internacionalização do cinema brasileiro.
A Universo, com sua dinâmica de realização de festivais, virou uma grife entre as produtoras do país. Ao longo de suas três décadas de dedicação à feitura de mostras como a CineOP, de que maneira a atividade de produzir mudou?
Produzir festivais hoje é muito diferente do que era há 30 anos. O setor audiovisual se transformou profundamente, surgiram novas tecnologias, novas formas de consumo, novas demandas de acessibilidade, sustentabilidade, inclusão e participação social. Ao mesmo tempo, os eventos culturais passaram a assumir um papel cada vez mais estratégico no desenvolvimento dos territórios onde acontecem. O que não mudou foi a necessidade de construir projetos com propósito, relevância cultural e compromisso com a sociedade. É isso que sustenta a longevidade dos festivais da Universo Produção.
De que forma um governo como o de MG oxigena sua cultura com eventos como a Mostra de Ouro Preto?
Minas Gerais possui uma tradição cultural extraordinária e compreende a importância da cultura como vetor de desenvolvimento humano, social, econômico e turístico. Eventos como a CineOP movimentam a economia criativa, fortalecem a cadeia produtiva do audiovisual, geram emprego e renda, promovem formação, estimulam o turismo cultural e projetam o estado nacional e internacionalmente. Investir em cultura é gerar desenvolvimento social, humano e econômico. No entanto, ainda existe um descompasso entre a dimensão dos resultados entregues por iniciativas como o Cinema sem Fronteiras e o volume de investimentos públicos destinados à sua continuidade e expansão. Após quase três décadas de atuação e realização de festivais que projetam Minas Gerais para o Brasil e para o mundo, acreditamos que programas estruturantes dessa natureza merecem reconhecimento e apoio compatíveis com sua importância estratégica para a cultura, a economia criativa e o desenvolvimento do estado.
Com anos e anos de serviços prestados ao nosso cinema, você ainda consegue lembrar do primeiro filme que viu numa sala de cinema?
Lembro com muito carinho de ter assistido a "Branca de Neve" no Cine Glória, em São João del-Rei, minha terra natal. É uma lembrança muito especial porque o Cine Glória, um dos cinemas mais antigos em atividade no país, resiste ao tempo e permanece aberto até hoje. Foi ali que tive algumas das minhas primeiras experiências com a magia do cinema. Já na adolescência dois filmes me marcaram profundamente: "A Lagoa Azul" e "Bete Balanço". A gente ia ao cinema para divertir e também para namorar. As sessões de cinema faziam parte da vida cultural da cidade e ocupam um lugar muito afetivo na minha memória. Quando me mudei para Belo Horizonte, para cursar faculdade, descobri uma cidade que vivia intensamente o cinema. Passei a frequentar assiduamente o Cine Pathé, que se tornou uma referência importante na minha formação como espectadora. Belo Horizonte chegou a ter cerca de 120 salas de cinema espalhadas pelos bairros. Ir ao cinema era um dos principais programas culturais da capital.
Qual foi o primeiro filme brasileiro que você viu no cinema?
Não consigo afirmar com precisão qual foi o primeiro filme brasileiro que vi, mas um dos que mais me marcaram foi "Lavoura Arcaica". Tenho uma lembrança muito especial de sua exibição na 3ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Naquele momento, os filmes eram exibidos em uma lona adaptada para funcionar como sala de cinema. Era uma experiência desafiadora para uma obra tão singular, tanto pela sua realização quanto pela intensidade da experiência que propõe ao espectador. Foi emocionante ver uma obra tão desafiadora encontrar uma conexão tão profunda com o público e conquistar o Júri Popular daquela edição. Essa sessão permanece viva na minha memória porque representou um encontro raro entre uma grande obra e um público disponível para a descoberta. Ela reafirmou para mim a capacidade que o cinema tem de provocar emoção, reflexão e transformação. Talvez seja por isso que eu continue acreditando tanto na força das salas de cinema e da experiência coletiva de assistir a um filme na tela grande.