Correio da Manhã
Cinema

Arrebentação animada

Baseada em HQ autobiográfica, 'In Waves', revelado na Semana da Crítica de Cannes, passa por Annecy, em busca de prêmios com força para fazer de sua dor um veio para o Oscar

Arrebentação animada
Em meio à experiência do primeiro amor retratada em 'In Waves', um jovem encontra no surfe uma prática de reeducação afetiva Crédito: Silex

Depois desta segunda-feira em que desbravou um Brasil de reinvenções afetivas com a grife da Otto Desenhos chamado "O Filho da Puta", instalado na seção competitiva Contracampo, Annecy, lar do maior festival de animação do planeta, vai surfar na prata da casa, a França, mas em ponte com o Vietnã da diretora Phuong Mai Nguyen. É ela quem assina os delicados planos de "In Waves", adaptação de uma HQ existencialista ligado ao luto e à ecologia.

"O filme nasceu de uma reação sensível minha a um quadrinho que tem muito estilo gráfico, ao mesmo tempo que carrega uma verdade profunda de dor", disse Phuong ao Correio da Manhã em Cannes, onde a produção abriu a Semana da Crítica, saindo de lá para a disputa oficial de Annecy, na luta pelo troféu Cristal de 2026.

Aclamado na Croisette, esse drama com um pé no mar e outro na morte parte da graphic novel homônima do surfista e artista gráfico AJ Dungo, lançada no Brasil pela Nemo e baseada em uma perda pessoal dele, num ambiente de surfistas, de skate e de um primeiro amor. "Eu vi muitos vídeos de surfe na concepção da narrativa animada, só que a minha produtora sempre me indicava o que considera 'O' filme de surfe mais importante de todos: 'Caçadores de Emoção', com Patrick Swayze e Keanu Reeves. E é mesmo bom. Só que eu queria uma abordagem mais humilde do esporte. Mais humanista também".

Muitos títulos animados saíram de Cannes carregados de elogios, em especial "Jim Queen", sobre um vírus que transforma gays fora do armário em héteros. De um colorido dos mais acachapantes, "In Waves" destacou-se nessa seleção da Croisette... e começa a construir um caminho para ao Oscar... pela forma como dói na plateia. Dói sobretudo por se deixar levar pelo inusitado, qual estivesse numa nau de autodescobertas. Em sua trama, Cannes navegou no amadurecimento do skatista AJ (interpretado na voz do multiartista Will Sharpe). Adolescente, o rapaz é apaixonado por desenho e por skate. Um novo benquerer se impõe em sua rotina no momento em que tromba com Kristen (na voz de Lyna Khoudri). Ela é uma surfista impulsiva, surpresa com a rala intimidade do rapaz com a água. Eles se encontram nas praias californianas de Los Angeles.

Entre os dois nasce uma relação intensa, construída entre tardes de chamego. Tudo flui até a descoberta de uma moléstia grave nas células de Kristen. Essa doença altera brutalmente o percurso desses enamorados, obrigando-os a confrontar a fragilidade do Tempo. "As principais viradas da história acontecem nos instantes em que nada é dito, deixando o mar dar o traço da catarse", disse Sharpe ao Correio, sem se orgulhar de sua destreza ao surfar. "Da prancha eu não caio, mas não chamo ninguém para ver como eu me saio nas ondas".

Embora siga uma linha dramatúrgica de romance geracional crepuscular (tipo "A Culpa É Das Estrelas"), "In Waves" chega potente à disputa de troféus de Annecy por driblar algoritmos mais popularescos e apostar num caminho existencial.

"É um romance no qual a escolha das cores reagem às distintas experiências das personagens", diz Phuong Mai.

Também vindo de Cannes, mas da Quinzena de Cineastas, "We Are Aliens", de Kohei Kadowaki, também passa por Annecy atrás de láureas. Em seu enredo, uma confusão aparentemente banal afeta para sempre a vida de um menino, em seu processo de amadurecimento.

Amadurecer é um dos verbos essenciais ao supracitado "O Filho da Puta", cuja direção é assinada a oito mãos: Sávio Leite, Érica Maradona, Otto Guerra e Tania Anaya. Há cerca de 10 dias, o longa foi premiado no AnimaFest Zagreb, na Croácia, uma das mais antigas mostras animadas do planeta, que está em sua edição número 54. Sua trama se passa na pequena vila de Veredas, onde fica a Casa Rosa, um famoso bordel administrado pela mãe do protagonista, Ismael. Tentando deixar essa realidade para trás, o rapaz se afasta dos laços maternos em busca das duas coisas que nunca conheceu: seu pai e o oceano.

E Annecy desfruta de um gostinho, há muito azedado pela correção política, do épico capa & espada com "Sekiro: No Defeat", de Kenichi Kutsuna. No Japão feudal, havia uma terra chamada Ashina. Sob a ameaça de invasão, seus samurais recorreram a Kuro, o Herdeiro Divino, e tentaram usar seu poder especial para seus próprios fins. Ele é resgatado por Wolf, seu único servo, mas descobre que seu poder causa uma doença mortal nos outros. Antes e depois dessa descoberta, o sangue derramado será temperado pelo aço das katanas.

Annecy segue até domingo.