Correio da Manhã
ENTREVISTA

Louise Bagnall: 'A fantasia existe para expressar emoções'

Louise Bagnall: 'A fantasia existe para expressar emoções'
Louise Bagnall, cineasta Crédito: Peter Searle/Divulgação

Iluminada pelos holofotes da indústria animada depois de concorrer ao Oscar com o curta "Fim de Tarde" (2019), Louise Bagnall, orgulho da classe artística irlandesa na atualidade, tem levado o Festival de Annecy, na França, ao arrebatamento (e a reflexões sobre aceitação) nas sessões de seu longa-metragem de estreia: "Julián". Com projeções na maior maratona animada do mundo nesta quarta, na quinta e no sábado, seu filme parte do livro infantil "Julián É Uma Sereia", de Jessica Love (publicado aqui pela Boitatá), para debater identidade a partir de uma mirada queer.

De origem dominicana, Julián é um garoto curioso que vai passar o verão com uma avó que mal conhece. Ao chegar ao apartamento dela, no Brooklyn, descobre um universo repleto de memórias, tradições caribenhas e uma vibrante comunidade local. Em meio a essa jornada de autoconhecimento, faz uma descoberta ainda mais surpreendente: percebe que é, na verdade, uma criatura encantada das águas.

Produzida pela Cartoon Saloon, responsável por títulos como "A Canção do Oceano" e "Wolfwalkers", essa discussão sobre pertencimento é um convite para Louise concorrer a mais uma estatueta. Ela assina a direção com Guillaume Lorin e Mark Mullery. Neste papo online com o Correio da Manhã, ela disseca a natureza sociológica (e poética) de sua forma de animar.

Como surgiu a preocupação de representar a cultura latina, do perímetro caribenho, a partir da herança histórica dominicana, com autenticidade?

Louise Bagnall - Desde o início do projeto "Julián", queríamos evitar generalizações. Sabíamos que precisaríamos expandir o universo do livro e contar uma história mais profunda. Por isso buscamos pessoas que conhecessem essas culturas por experiência própria. O roteirista Juliany Taveras, por exemplo, é filho de dominicanos e trouxe uma compreensão muito rica da diáspora e de suas transformações ao longo do tempo.

O trabalho de pesquisa foi intenso?

Sim. Conversamos com consultores, artistas e pessoas de diferentes origens. Também tivemos uma equipe muito diversa. Eu queria ouvir essas vozes e compreender suas experiências sem fazer suposições. Era importante que quem assistisse ao filme reconhecesse algo de si na tela.

O que você aprendeu durante esse processo?

Aprendi a importância da escuta. Não queríamos apenas inserir detalhes culturais decorativos. Essas referências precisavam estar integradas à jornada emocional.

O filme aborda questões de identidade, mas também trabalha com fantasia. Como você equilibrou esses dois elementos que a dramaturgia animada nem sempre equaliza?

Tudo o que acontece no universo fantástico é real para Julián. Não usamos a fantasia apenas porque ela é bonita visualmente. A fantasia existe para expressar emoções e ajudar o personagem a compreender quem ele é. O filme é sobre exploração. Não queríamos fechar questões ou apresentar rótulos. O mais importante é a experiência da busca, a travessia em nome do autoconhecimento.

Os peixes e os elementos marinhos funcionam como símbolos. Qual era a intenção deles?

Eles oferecem a Julián um espaço para explorar, refletir e imaginar possibilidades. O oceano representa diversidade, descoberta e liberdade. É um ambiente onde ele pode experimentar diferentes versões de si mesmo.

Embora o filme seja repleto de pessoas amorosas em conexão, a solidão parece ser um tema central na narrativa. O quão solitárias são as personagens de "Julián"?

Acho que a solidão faz parte do crescimento. Você pode estar cercado de pessoas e ainda assim sentir que não pertence àquele lugar. Julián, seu pai e sua avó passam por isso de maneiras diferentes. A história acompanha justamente a construção de conexões que ajudam a superar esse sentimento. Vivemos hoje uma época muito interessante para a animação em que há uma diversidade muito maior de histórias sendo contadas. Isso permite abordar temas complexos e alcançar plateias distintas sem perder a dimensão artística.

O que as sereias simbolizam no filme?

Elas representam várias coisas ao mesmo tempo. Há uma conexão com a feminilidade, mas também com a curiosidade, a exploração e a liberdade. Para Julián, a sereia reúne tudo aquilo que ele admira e deseja compreender sobre si mesmo.

Quando criança, Julián sonha ser uma sereia. Qual era a sua fantasia infantil?

Eu queria ser uma estrela do rock. Talvez porque enxergasse nisso uma forma de liberdade e confiança. Eu não era exatamente uma criança extrovertida, mas adorava imaginar que estava num palco me apresentando para uma plateia.

Como filmes como os produzidos pela Cartoon Saloon conseguem sobreviver economicamente?

Não existe uma fórmula. Cada projeto exige um novo processo de financiamento. As coproduções internacionais ajudam muito, assim como os mecanismos públicos de incentivo existentes na Europa. É um trabalho constante de construção de parcerias.