Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Aberto na voz de Caetano Veloso, a cantar "Mérica, Mérica" numa evocação do hino dos imigrantes da Itália, "O Quatrilho" ganhou as telas do país em 21 de agosto de 1995 e, ao redor dos sete meses seguintes, levou 1.117.754 pagantes às salas de projeção de um Brasil que não sabia o que era concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (chamado hoje de Filme Internacional) desde a indicação de "O Pagador de Promessas", em 1963. Fábio Barreto (1957-2019) acabou com esse jejum ao ter seu nome listado entre as nomeações feitas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood há 30 anos, o que celebrizou um longa essencial na Retomada do cinema brasileiro, na base dos investimentos da então recém-nascida Lei do Audiovisual.
Neste domingo (21), às 16h, a televisão aberta vai abrir uma vitrine mais do que merecida para essa produção da LC Barreto, à força do investimento da TV Brasil na formação de público cinéfilo por meio da telinha. Na transmissão desse sucesso - hoje não tão cultuado como poderia ser - muitas histórias de bastidor virão à tona.
Filho dos produtores Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto, Fábio passou pela Quinzena de Cannes de 1982 com "Índia, A Filha do Sol" e, nos anos seguintes trafegou por diferentes adaptações de literatura e teatro até se deparar com "O Quatrilho", romance homônimo de José Clemente Pozenato.
O livro recria uma história de infidelidade (e amor) ocorrida entre imigrantes italianos do Rio Grande do Sul no início do século XX. O filme recria essa trama, escalando Gloria Pires e Patrícia Pillar nos papéis centrais, como as forças femininas de dois casais.
O elenco reuniu alguns dos maiores intérpretes brasileiros de sua geração. Entre eles estava Cecil Thiré, nascido em 28 de outubro de 1943 e falecido em 9 de outubro de 2020, intérprete do Padre Gentile. Filho da atriz Tônia Carrero, Cecil construiu uma carreira sólida no teatro, na televisão e no cinema, participando de dezenas de produções marcantes.
Outro gigante presente na produção era Gianfrancesco Guarnieri, que viveu o Padre Giobbe. Nascido em 6 de agosto de 1934, em Milão, e falecido em 22 de maio de 2006, em São Paulo, Guarnieri foi um dos pilares do moderno teatro político brasileiro, autor de clássicos como "Eles Não Usam Black-Tie" e referência central na formação artística do país. Sua presença em "O Quatrilho" ajudou a conferir densidade histórica e dramática à narrativa.
A trama acompanha quatro colonos italianos que dividem a mesma casa para sobreviver às dificuldades econômicas da Serra Gaúcha. Com o passar do tempo, Teresa, interpretada por Patrícia Pillar, apaixona-se por Massimo, vivido por Bruno Campos. A fuga dos dois provoca um terremoto moral numa comunidade profundamente católica, obrigando os abandonados Pierina, papel de Glória Pires, e Angelo, interpretado por Alexandre Paternost, a reconstruírem suas vidas. O título faz referência a um jogo de cartas em que a troca de parceiros é parte essencial da estratégia de vitória.
O êxito comercial foi extraordinário para os padrões brasileiros da época. O filme ultrapassou a marca de um milhão de ingressos vendidos, tornando-se um dos maiores sucessos nacionais da década de 1990. Em um momento em que a produção brasileira ainda tentava se reorganizar institucionalmente, esse resultado serviu como prova de que existia público para o cinema nacional.
A circulação internacional também foi expressiva, com passagens pelos festivais de Xangai e de Tóquio. Além da histórica indicação ao Oscar, "O Quatrilho" conquistou em Cuba, no Festival de Havana, três distinções importantes: Melhor Atriz, para Glória Pires; Melhor Direção de Arte (Paulo Flaksman) e Melhor Trilha Sonora (Caetano e Jacques Morelenbaum).
A repercussão no exterior foi suficiente para transformar o filme num cartão de visitas do novo cinema brasileiro. Uma avaliação internacional reproduzida no agregador Rotten Tomatoes definiu a obra como "an important landmark in the history of South American cinema" ("um marco importante na história do cinema sul-americano"), destacando seu papel na recuperação da indústria audiovisual brasileira após anos de crise. Em 1998, a LC obteve nova indicação ao Oscar, com "O Que É Isso, Companheiro?".
Hoje, quando se observam os caminhos que levaram o Brasil às indicações de "Central do Brasil", "Cidade de Deus", "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto", o caminho percorrido por Fábio merece ser reconhecido e exaltado como um pavimento historico essencial. A sessão da TV Brasil deste domingo e ainda um convite pra gente repensar a falta que Fábio faz... e é muita... como um artista pautado pela doçura em seu entedimento do que faz um país como o nosso encantar as telonas do exterior.
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