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Cinema

O cinema engajado mora em Maricá

Cidade da Região dos Lagos reúne até domingo gente que pensa e faz cultura no III Festival de Cinema e Política com filmes, mesas de debate, masterclasses e apresentações artísticas

O cinema engajado mora em Maricá
O Cine Henfil, no centro de Maricá, recebe as atividades do festival, uma programação inteiramente gratuita Crédito: Divulgação/Prefeitura de Maricá

A relação entre cinema e política voltará ao centro das atenções no estado do Rio de Janeiro com a realização da terceira edição do Festival de Cinema e Política de Maricá, que acontece até domingo (21). Reunindo realizadores, pensadores, escritores, músicos, ativistas e gestores culturais, o evento aposta numa programação que combina exibições de filmes, mesas de debate, masterclasses e apresentações artísticas, consolidando-se como um dos mais relevantes espaços de reflexão sobre o papel da imagem na construção da memória coletiva e da cidadania.

Com curadoria de Sady Bianchin, o festival abriu nesta terça-feira (16) suas atividades com uma cerimônia oficial reunindo representantes da administração municipal e do setor cultural, seguida pela mesa "Cinema, Política e Vanguarda". O encontro teve a participação da cantora, realizadora e artista visual Ava Rocha, do cineasta Luiz Carlos Lacerda, conhecido como Bigode, e de Pedro Paulo Rocha, também filho de Glauber. A programação cinematográfica do primeiro dia foi marcada pela exibição de "Terra em Transe", clássico incontornável de Glauber, obra que permanece como uma das mais contundentes reflexões sobre poder, ideologia e disputas políticas na história do cinema latino-americano.

Nesta quarta, o festival amplia o diálogo entre cultura e identidade ao receber o Coral Arandu Mirim, ligado aos povos originários. Em seguida, a mesa "A Poética no Cinema Político" reunirá o escritor Ivan Cavalcanti Proença e o realizador Walter Lima Jr., com participação prevista do diretor de fotografia Walter Carvalho. A programação inclui ainda a exibição do curta "Em Busca das Terras sem Males", de Anna Azevedo, antecedendo a sessão de "A Ostra e o Vento", uma das obras mais celebradas da filmografia de Walter Lima Jr., premiada em diversos festivais internacionais.

A quinta-feira será dedicada às relações entre experiência pessoal, militância e criação artística. O encontro "A Vida como Roteiro na Política" prestará homenagens a figuras ligadas à história política brasileira, contando com a participação prevista de Vladimir Palmeira. Na sequência, o documentarista Emílio Domingos ministrará uma masterclass. Mais tarde, a mesa "Cinema e a Negação do Brasil" reunirá Adélia Sampaio, Emílio Domingos e, possivelmente, Zezé Motta, numa discussão inspirada pelo documentário "A Negação do Brasil", de Joel Zito Araújo, que será exibido após a sessão do curta "O Olhar dos Anos 60", realizado por Adélia Sampaio.

A programação de sexta-feira aproxima o audiovisual das estratégias de desenvolvimento regional. O debate sobre Film Commissions e políticas de incentivo à produção audiovisual contará com profissionais ligados ao setor, refletindo sobre o potencial econômico e cultural da atividade cinematográfica. Mais tarde, o festival promove a mesa "Cinema, Futebol e Política", reunindo o jornalista Nando Antunes, o ex-jogador Afonsinho e a realizadora Anna Azevedo. O tema dialoga diretamente com a exibição de "Linhas Tortas: Nando, o Primeiro Jogador Anistiado", documentário de João Wainer que revisita a trajetória de um dos nomes mais importantes da resistência democrática no futebol brasileiro. A noite será concluída com a transmissão do jogo da seleção brasileira.

O fim de semana concentra algumas das atividades mais aguardadas da programação. No sábado, a realizadora Lúcia Murat, uma das figuras centrais do cinema político brasileiro contemporâneo, conduzirá uma masterclass antes de participar da mesa "Mulheres na Linguagem Cinematográfica", ao lado de Carla Camurati e representantes de instituições ligadas às políticas públicas para mulheres. A sessão principal do dia será dedicada ao documentário "Raízes do Sagrado Feminino", dirigido por Carla Camurati.

O encerramento, no domingo, reforça a dimensão internacional do evento. A programação começa com a exibição do curta "Hasta Siempre, Pepe Mujica", de Thiago Prado, dedicado ao antigo presidente uruguaio que se transformou numa referência ética e política muito para além das fronteiras do seu país. Em seguida, a mesa "A Arte Contra a Barbárie" reunirá três nomes fundamentais da cultura ibero-americana: Thiago Prado, Ruy Guerra e Neville D'Almeida. O festival termina com a exibição de "Jardim de Guerra", filme de Neville D'Almeida que revisita questões históricas e políticas através de uma abordagem estética marcada pela experimentação.

Ao longo de seis dias, o Festival de Cinema e Política de Maricá propõe um encontro entre diferentes gerações de criadores e pensadores, reafirmando a capacidade do cinema de estimular reflexão crítica sobre o passado, o presente e os desafios futuros da sociedade. Mais do que uma mostra de filmes, o evento assume-se como um espaço de debate público onde a arte surge como instrumento de memória, resistência e transformação cultural.

 

Sandy Bianchin: 'O cinema conta histórias que a sociedade quer esquecer'

Sandy Bianchin: 'O cinema conta histórias que a sociedade quer esquecer'
Sady Bianchin Crédito: Divulgação

Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Gente que fala, mas faz (e bem pacas), Sady Bianchin é onipresente onde a arte tem poder analgésico e reconstrutor, participando ativamente de tudo quanto é evento do Rio de Janeiro sempre de butuca ligada no saber... na manha da escuta... na sabedoria do aprender. Ao se tornar secretário de Cultura e das Utopias de Maricá, esse multiartista passou a trabalhar (lá, aqui, nas fronteiras digitais das redes sociais e nas instâncias estéticas da criação) para fazer daquela cidade um perímetro de resistência. Parte expressiva de seu engenho se materializa na forma de um festival de curtas e longas-metragens, que começou na terça-feira e segue até domingo. É a terceira edição do Festival Cinema e Política. É mais do que um jeito de se partir de expressões fílmicas para debater o Poder. É uma estratégia de dar visibilidade tanto a mestres que merecem mais espaço e prestígio do que têm (como Lúcia Murat, Ruy Guerra, Luix Carlos Lacerda, Walter Lima Jr. e Neville D'Almeida) quanto a jovem esquadra de argonautas maricaenses da produção audiovisual. Nesta quinta, rola um debate decolonial sobre a Negação do Brasil, com Adélia Sampaio e Emílio Domingues.

Afinado com projetos inclusivos do prefeito Washington Luiz Cardoso Siqueira, mais conhecido como Washington Quaquá (PT), que redefiniu o papel de Maricá no Brasil, Sady encampou o cinema como um xodó. Neste papo ele explica que sonho não tem the end.

Qual é o projeto cinematográfico que Maricá tem pela frente e de que maneira o festival contribui para ele?

Sady Bianchin - Maricá começou a desenhar um polo de cinema com as criações da Maricá Filmes, da Incubadora Cultural, do Cine Henfil (sala de projeção de rua totalmente gratuita), do Estúdio Público Glauber Rocha e do Festival de Cinema e Política. Agora, por iniciativa do prefeito Washington Quaquá, foi criada a Maré, uma companhia presidida por Antônio Grassi que está lançando editais para fomentar a cadeia produtiva do audiovisual. O festival tem uma enorme contribuição nesse processo, pois, além de levar grandes nomes do cinema já consagrados, coloca lado a lado novos realizadores locais talentosos. Isso permite dar uma dimensão nacional a Maricá e incentivar a qualidade da produção regional, além de promover a geração de economia criativa e a inclusão dos realizadores do município no orçamento cultural.

Quais são as apostas do evento para o fim de semana e o que podemos aguardar das homenagens a Ruy Guerra, além da presença cinéfila de medalhões como Lúcia Murat, Adélia Sampaio, Neville D'Almeida, Luiz Carlos Lacerda (o Bigode) e Walter Lima Jr.?

Aos grandes nomes do cinema brasileiro estamos oferecendo a Medalha Darcy Ribeiro, símbolo da dedicação à arte cinematográfica ao longo de suas vidas. Assim como Darcy, que pensava uma nova civilização tropical e apostava na potência das nossas matrizes étnicas, nós, da Secretaria de Cultura e das Utopias, acreditamos na arte como instrumento de transformação social, capaz de mudar a vida das pessoas.

Que vocação artística Maricá traz em sua história e como expandir essa relação com as artes?

Maricá, a cidade das utopias, é um laboratório de políticas públicas com investimentos no social e também na cultura, colocando a população no centro do orçamento da cidade por meio de seus programas. A ideia é preparar Maricá para o futuro através da cultura, que é um produto infinito e tem como características as invenções democráticas, maneiras criativas e solidárias de desenvolver autonomia e cooperação no território. Maricá se transforma em um grande palco e tela de reflexões, arte e cultura, reunindo cineastas, pesquisadores, artistas e o público em uma programação totalmente gratuita. Serão seis dias de mesas de debate, masterclasses, exibições de filmes e curtas maricaenses, além da presença de importantes nomes do cinema brasileiro.

Que recado se dá ao abrir um festival com Glauber Rocha, como vocês fez, terça passada, ao trazer "Terra Em Transe" para Maricá?

O recado que queremos passar com a homenagem a Glauber Rocha é que a nossa cultura popular brasileira é o único lugar onde não somos colônia. Precisamos preservar e disputar a memória para impulsionar o desenvolvimento das gerações futuras. O cinema conta histórias que a sociedade quer esquecer. Por isso, o Festival de Cinema e Política é um espaço de reflexão para construir uma nova visão de mundo, mais justa e igualitária, onde a dignidade seja a referência, da ideia na cabeça à prática na mão. Acreditamos que a teoria é a prática do pensamento e que a utopia é o sonho que se realiza na luta do dia a dia.