Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Ofilme do momento, "Dia D", é assinado por um jovem de 79 anos. Amem-no ou odeiem-no, o novo Spielberg, "Disclosure Day" (no original), provoca, inquieta. Suas plateias se racham em inflamados debates, que vão das fake news à dimensão filosófica da Ufologia, e, no quebra-pau, transformam o regresso do diretor de "Tubarão" (1975) às telas na coqueluche cinéfila do momento. Há quem repudie o olhar do realizador sobre seres do espaço e há quem reclame de ele estar apenas reciclando um histórico que vem lá de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977).
Já a Bíblia do pensamento crítico do audiovisual, a revista "Cahiers du Cinéma", rendeu-se à excelência do realizador, pelo que diz o resenhista Raphaël Nieuwjaer: "O espectador é cativado desde o início. E até mesmo lançado no ar, jogado contra as cordas, jogado no chão. O longa começa com tudo: em câmera subjetiva, no meio de uma luta de wrestling. É ao mesmo tempo uma distração e um aviso. A luta é apenas um disfarce. O essencial acontece nas arquibancadas, onde um trio sinistro aproveita a confusão para roubar a mochila de um homem que só a abandona sob coação. Mas o filme também se apresenta, sem rodeios, como uma experiência cinética, cujo objetivo é transportar o público". Essa empolgação de Raphaël se nota na bilheteria dessa produção de US$ 115 milhões: desde sua estreia, no dia 11, seu faturamento beira os US$ 98 milhões.
Numa indústria que sucateia, de modo silencioso, seus veteranos, um artesão autoral que chega aos 80 no dia 18 de dezembro põe o planeta no bolso com uma ode à ficção científica a serviço do conhecimento. É uma trama sobre o direito à verdade, que faz sucesso num ano em que muitas vozes autorais já veteranas ganham a ribalta, com filmes imperdíveis.
Foi uma germânica de 84 anos quem deu à Berlinale de 2026 seu melhor filme: Ulrike Ottinger. É dela o delicioso "The Blood Countess". Um trinômio do Capeta — o guarda-roupa concebido por Jorge Jara, a maquiagem exuberante de Tünde Kiss-Benke e um design de produção, de Christina Schaffer, que remete a uma casa de bonecas — pavimenta o engenho simultaneamente excêntrico e belo desse terrir que inquieta sob o prisma político. Ao fim da I Guerra, F. W. Murnau filmou vampiros (no caso, o "Nosferatu" de 1922) a fim de alertar para um ovo de serpente que os povos germânicos chocavam. Agora, a octogenária diretora de "Joana D'Arc da Mongólia" (1989) apela para uma aristocrata vampira para alardear seu medo diante do avanço da extrema direita alemã. O resgate da condessa assassina Erzsébet Báthory (1560-1614) é crucial para esta mistura de teatro de cabaré com "A Hora do Espanto", tendo Isabelle Huppert de caninos afiados e Lars Eidinger de psicanalista.
Ulrike clama pelo fim dos segredos ocultos. O "Dia D" de Spielberg também. Num dado momento, o vilão arrepiante (mas humanizado) vivido por Colin Firth, Scanlon, fala que a realidade sobre a presença de óvnis entre nós "é um vírus contra o qual a Humanidade não tem anticorpos". A organização que ele lidera, a Wardex, quer manter o planeta na caverna do desconhecimento. Mas um time formado pela apresentadora do tempo Margaret Fairchild (Emily Blunt), o especialista em computação Daniel Kellner (Josh O'Connor) e o ativista em prol do livre conhecimento (o tal "disclosure" do título original) Hugo Wakefield (Colman Domingo) vai desafiar a vontade do status quo... do Poder.
O mesmo raciocínio se aplica a "Merci d'Être Venu" (título literalmente traduzível como "Obrigado por Ter Vindo"), um dos achados da Quinzena de Cineastas de Cannes, em maio, cujo diretor é um patrimônio (hoje nonagenário) do audiovisual francês: Alain Cavalier. Na ativa desde 1958, quando dirigiu "Un Américain", o realizador de 94 anos bagunça fronteiras formais em sua nova produção, convocada para a Quinzena de Cineastas. Ele atribui o projeto a um empurrãozinho afetivo do produtor Michel Seydoux, com quem trabalha há quarenta anos.
Nesse bonde dos artistas outonais que clamam por espaço no circuito, entra o espanhol Pedro Almodóvar, hoje com 76 anos. Seu "Natal Amargo" agarrou uma fatia de público polpuda, na Espanha e no Brasil, partindo da metalinguagem para debater os limites da criação e perguntar a quem pertence uma narrativa.
Ampliando esse espaço da longevidade criativa de realizadores que atravessam gerações, o Festival de Cinema e Política de Maricá, hoje em curso, cumpre uma tarefa louvável ao abrir espaço em sua grade, neste domingo, para unir Neville d'Almeida (hoje com 85 anos) a Ruy Guerra (de 94 anos). O primeiro, mineiro lá das Gerais, consagrado com "A Dama da Lotação" (1978), realiza videoartes e curtas sem parar, alimentando o projeto de filmar "A Dama da Internet". Já Ruy, moçambicano de ascendência portuguesa, radicado aqui desde os anos 1950, lançou há cerca de dois meses "A Fúria" e tem mil projetos em curso. Os dois são primavera. São o futuro... com o privilégio da experiência.
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