Correio da Manhã
Cinema

Futuro do pretérito

Aos 79 anos, Steven Spielberg emplaca, com "Dia D", uma das discussões mais polêmicas de sua carreira, fazendo sucesso num ano em que veteranos na casa dos 70, 80 e 90 brilham

Futuro do
pretérito

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Ofilme do momento, "Dia D", é assinado por um jovem de 79 anos. Amem-no ou odeiem-no, o novo Spielberg, "Disclosure Day" (no original), provoca, inquieta. Suas plateias se racham em inflamados debates, que vão das fake news à dimensão filosófica da Ufologia, e, no quebra-pau, transformam o regresso do diretor de "Tubarão" (1975) às telas na coqueluche cinéfila do momento. Há quem repudie o olhar do realizador sobre seres do espaço e há quem reclame de ele estar apenas reciclando um histórico que vem lá de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977).

Já a Bíblia do pensamento crítico do audiovisual, a revista "Cahiers du Cinéma", rendeu-se à excelência do realizador, pelo que diz o resenhista Raphaël Nieuwjaer: "O espectador é cativado desde o início. E até mesmo lançado no ar, jogado contra as cordas, jogado no chão. O longa começa com tudo: em câmera subjetiva, no meio de uma luta de wrestling. É ao mesmo tempo uma distração e um aviso. A luta é apenas um disfarce. O essencial acontece nas arquibancadas, onde um trio sinistro aproveita a confusão para roubar a mochila de um homem que só a abandona sob coação. Mas o filme também se apresenta, sem rodeios, como uma experiência cinética, cujo objetivo é transportar o público". Essa empolgação de Raphaël se nota na bilheteria dessa produção de US$ 115 milhões: desde sua estreia, no dia 11, seu faturamento beira os US$ 98 milhões.

Numa indústria que sucateia, de modo silencioso, seus veteranos, um artesão autoral que chega aos 80 no dia 18 de dezembro põe o planeta no bolso com uma ode à ficção científica a serviço do conhecimento. É uma trama sobre o direito à verdade, que faz sucesso num ano em que muitas vozes autorais já veteranas ganham a ribalta, com filmes imperdíveis.

Foi uma germânica de 84 anos quem deu à Berlinale de 2026 seu melhor filme: Ulrike Ottinger. É dela o delicioso "The Blood Countess". Um trinômio do Capeta — o guarda-roupa concebido por Jorge Jara, a maquiagem exuberante de Tünde Kiss-Benke e um design de produção, de Christina Schaffer, que remete a uma casa de bonecas — pavimenta o engenho simultaneamente excêntrico e belo desse terrir que inquieta sob o prisma político. Ao fim da I Guerra, F. W. Murnau filmou vampiros (no caso, o "Nosferatu" de 1922) a fim de alertar para um ovo de serpente que os povos germânicos chocavam. Agora, a octogenária diretora de "Joana D'Arc da Mongólia" (1989) apela para uma aristocrata vampira para alardear seu medo diante do avanço da extrema direita alemã. O resgate da condessa assassina Erzsébet Báthory (1560-1614) é crucial para esta mistura de teatro de cabaré com "A Hora do Espanto", tendo Isabelle Huppert de caninos afiados e Lars Eidinger de psicanalista.

Ulrike clama pelo fim dos segredos ocultos. O "Dia D" de Spielberg também. Num dado momento, o vilão arrepiante (mas humanizado) vivido por Colin Firth, Scanlon, fala que a realidade sobre a presença de óvnis entre nós "é um vírus contra o qual a Humanidade não tem anticorpos". A organização que ele lidera, a Wardex, quer manter o planeta na caverna do desconhecimento. Mas um time formado pela apresentadora do tempo Margaret Fairchild (Emily Blunt), o especialista em computação Daniel Kellner (Josh O'Connor) e o ativista em prol do livre conhecimento (o tal "disclosure" do título original) Hugo Wakefield (Colman Domingo) vai desafiar a vontade do status quo... do Poder.

O mesmo raciocínio se aplica a "Merci d'Être Venu" (título literalmente traduzível como "Obrigado por Ter Vindo"), um dos achados da Quinzena de Cineastas de Cannes, em maio, cujo diretor é um patrimônio (hoje nonagenário) do audiovisual francês: Alain Cavalier. Na ativa desde 1958, quando dirigiu "Un Américain", o realizador de 94 anos bagunça fronteiras formais em sua nova produção, convocada para a Quinzena de Cineastas. Ele atribui o projeto a um empurrãozinho afetivo do produtor Michel Seydoux, com quem trabalha há quarenta anos.

Nesse bonde dos artistas outonais que clamam por espaço no circuito, entra o espanhol Pedro Almodóvar, hoje com 76 anos. Seu "Natal Amargo" agarrou uma fatia de público polpuda, na Espanha e no Brasil, partindo da metalinguagem para debater os limites da criação e perguntar a quem pertence uma narrativa.

Ampliando esse espaço da longevidade criativa de realizadores que atravessam gerações, o Festival de Cinema e Política de Maricá, hoje em curso, cumpre uma tarefa louvável ao abrir espaço em sua grade, neste domingo, para unir Neville d'Almeida (hoje com 85 anos) a Ruy Guerra (de 94 anos). O primeiro, mineiro lá das Gerais, consagrado com "A Dama da Lotação" (1978), realiza videoartes e curtas sem parar, alimentando o projeto de filmar "A Dama da Internet". Já Ruy, moçambicano de ascendência portuguesa, radicado aqui desde os anos 1950, lançou há cerca de dois meses "A Fúria" e tem mil projetos em curso. Os dois são primavera. São o futuro... com o privilégio da experiência.