Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
UUma anedota elogiosa ronda o cinema brasileiro desde que Eduardo Nunes lançou o cultuado "Sudoeste" (2011), referindo-se ao fato de que o P&B empregado por ele "ostenta o preto mais preto e o branco mais branco que a suspensão do real produzida pela ausência de cor jamais viu igual". A brincadeira é uma forma de elogiar experimentos como "Cinco da Tarde", terceiro longa-metragem do cineasta de 57 anos, formado pela Universidade Federal Fluminense em 1995, que estreia nesta quinta. Exibida no Girona Film Festival da Espanha, no International Film Festival of Nepal e no indiano Kolkata Film Festival, essa coprodução com Portugal terá uma pré-estreia nesta quarta, no Cine Arte UFF, em Niterói, seguida de debate entre Nunes e os professores da UFF Tunico Amâncio e Mariana Baltar.
De uma delicadeza contagiante, "Cinco da Tarde" acompanha Anabel (Bárbara Luz), uma jovem de 17 anos que está lidando com a morte de sua avó e encontra em Meiko (Sharon Cho), sua vizinha tímida, uma conexão inesperada. À medida que se aproximam, as duas descobrem experiências em comum e compartilham sentimentos... de perda, solidão e pertencimento.
De que maneira Anabel e Meiko se espelham e se complementam na relação de afeto (ou de descoberta) que formam; e de que forma, a inevitável lembrança de "Persona" (1966), de Bergman, provocada pelo seu P&B delicado, marca conscientemente esse espelhamento?
Eduardo Nunes - Vejo a Anabel e Meiko com posições bem distintas em relação ao luto. Anabel tem uma reação dinâmica, impaciente com a ideia da morte. Acho que até um pouco de raiva. Não sabe como se comportar com este sentimento na relação com as outras pessoas. Como se negasse esta morte, o que faz parte do processo de luto. A Meiko, por sua vez, é mais compreensiva. Talvez porque já tenha vivenciado este luto há mais tempo, ou talvez por seu próprio temperamento. Mas cada uma delas se reconhece na outra. Reconhece uma forma possível de viver o luto; e neste sentindo é como um espelho. Pois um espelho nunca reflete uma imagem fiel, mas algo sobre um determinado ponto de vista, às vezes, até oposto. O "Persona" é uma referência importante para mim, na minha formação como cineasta e como ser humano. Acredito que o P&B com predominância de sombras e um contraste alto aproxime a imagem dos dois filmes. Mas gosto ainda mais de pensar na proximidade criada por uma situação limite: onde duas mulheres dividem um mesmo ambiente, e as duas estão em crises existenciais. Adoraria que isso aproximasse estes dois filmes.
De que maneira "Cinco da Tarde" funciona, na tua obra, como um retrato geracional, como investigação sobre as conexões que se formam na primavera da vida?
Quando comecei a escrever o argumento pensei que isso seria um desafio. Não convivo com tantos jovens nesta idade. Mas, ao mesmo tempo, esse não era um assunto totalmente novo para mim: a personagem de "Sudoeste" vive diversas fases da vida, passando por este momento também; em "Unicórnio", a Maria (também interpretada pela Barbara Luz) vive um momento de abandonar a infância e viver a adolescência. Mas estes dois filmes eram assumidamente fábulas. "Cinco da Tarde" pretende ser um filme contemporâneo e com questões atuais (inclusive datando a pandemia). Eu não queria retratar a Anabel e Meiko como clichês de uma geração: sim, elas usam o celular o tempo todo, possuem o comportamento desta geração, mas gostaria de investigar um pouco mais: de como esta geração reage a dor da perda. E aí acho que encontramos muitas semelhanças entre as diferentes gerações.
O que o P&B de seu habitual parceiro, o fotógrafo Mauro Pinheiro Jr., oferece a você como espaço de investigação não apenas do real, mas do onírico, da imaginação?
Eu e o Mauro gostamos muito do P&B, de minha parte por fugir de um registro real. Vemos um mundo em cores (a maioria de nós) e o P&B sugere uma "narrativa inventada" distante do real. Por isso, abre esse espaço para o onírico. Mesmo no "Unicórnio", o colorido era irreal sugerindo o ambiente de sonho. Eu, pessoalmente, não consigo criar uma narrativa realista, se chamarmos assim. Talvez porque a minha forma de ver a vida misture sonho e real, alguns episódios na minha história não sei se realmente aconteceram ou se alguém contou... ou não sei mesmo se sonhei com isso. Acho que o cinema tem essa capacidade incrível de filmar sonhos. Não podemos desperdiçar isso. Há uma cena no "Cinco da Tarde" de que gosto muito. Toda vez que Anabel vai visitar a avó procuramos dar este tom a mais de onírico, fragmentando essa fronteira com o real. E em uma das vezes o apartamento está quase completamente escuro, apenas o aquário está aceso. Anabel vai entrando e não encontra a avó, então abre uma porta e entra no que seria o quarto dela, mas o que vemos é o avesso do cenário, com madeiras, refletores, escadas, etc... E a avó está sentada normalmente, como se fosse o quarto dela. Acho isso tão bonito. Misturamos o real, o imaginário e o "fazer o imaginário com o real" que é justamente criar um filme. Muito tempo depois vi uma cena semelhante em "Ervas Secas", de Nuri Bilge Ceylan, um cineasta que gosto muito.
As marcas mais existencialistas que te seguem desde "Sudoeste" (2011) não parecem apontar para a solidão, mas, sim, para novos códigos de convívio. Que conexões sentimentais/relacionais pavimentam seus filmes, sobretudo "Cinco da Tarde"?
É uma pergunta linda. Eu tenho uma relação muito especial com a solidão, vivo sozinho há muitos anos, e, estranhamente, é algo que te permite olhar o mundo de um jeito especial. O tempo todo criamos máscaras para qualquer tipo de relação, até mesmo para a relação com nós mesmos. Mas é possível praticar uma relação mais direta com o mundo, e talvez, quando estamos sozinhos, isso fique mais fácil. Digo numa relação mais sensorial com o mundo: escutar os silêncios; observar as pessoas e os animais e as coisas quando estas não sabem que estão sendo observadas; sentir os cheiros etc... é preciso estar atento a isso tudo. E talvez, quando estamos sozinhos, os sentidos são direcionados a isso. Em "Cinco da Tarde", Anabel e Meiko são obrigadas a encarar a solidão, e com isso também são obrigadas e observar o mundo por um determinado prisma: ficar atenta aos detalhes. Quando Anabel caminha pelo parque pela primeira vez, ela para, observando as folhas se movendo ao vento, e, logo depois, a atenção vai para um pássaro que a encara. Acredito que se ela não estivesse sozinha, ela conseguiria observar isso. E quando as duas estão juntas, mas cada uma em sua solidão, o diálogo é preenchido por silêncios, são os momentos de solidão prevalecendo, fazendo existir o que você chamou de "novos códigos de convívio".
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