Correio da Manhã
Festival de Veneza

A arena é deAlbert Serra

Queridinho da revista 'Cahiers du Cinéma', a Bíblia da crítica, cineasta catalão tem seu premiado 'Tardes de Solidão' lançado no Brasil, via MUBI, enquanto finaliza novo longa

A arena é deAlbert Serra
O catalão Albert Serra com a Concha de Ouro conquistada por "Tardes de Solidão" Crédito: Jorge Fuembuena/SSIFF

Rodrigo Fonseca

Está previsto para a última semana de julho o anuncio da competição pelo Leão de Ouro do 83° Festival de Veneza (agendado de 2 a 12 de setembro), mas já uma torcida pela inclusão de "Out Of This World", do espanhol Albert Serra, entre os concorrentes. Uma única imagem do filme - definido como um estudo sobre o impacto internacional da Guerra da Ucrânia - que tem em seu elenco Riley Keough, F. Murray Abraham, Evgenyia Gromova e Liza Yankovskaia, foi divulgada pela revista "Variety", ampliando a expectativa pela produção. A espera por ele é das mais fortes pelo fato de Serra estar vivendo um momento de apogeu, coroado com a conquista da Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, em 2024, com "Tardes de Solidão", um ensaio documental que acaba de chegar ao Brasil. Aqui esse longa-metragem não teve chance em tela grande, indo diretamente para o streaming, via MUBI.

Possivelmente é lá, no www.mubi.com, também que "Out Of This World" vá estacionar tão logo dispute algum troféu de peso. Seu roteiro acompanha uma delegação americana que viaja para a Rússia em meio ao combate contra a população ucraniana, enquanto tenta resolver uma disputa econômica que se intensifica. O projeto investiga a rivalidade de décadas entre a Rússia e os Estados Unidos, combinando sob uma ótica geopolítica. Soube-se que Serra filmou 800 horas de material durante as quatro semanas de filmagem na Letônia, em 2025. Sua nova expressão autoral é produzida por Les Films du Losange, Idéale Audience Group e Andergraun Films, em associação com Felix Culpa, e em coprodução com Rosa Filmes e Pandora Film.

Em meio à filmagem, "Tardes de Soledad" (título original de seu mais recente lançamento) foi para a capa da revista "Cahiers du Cinéma". Fiel à sua cria, o periódico mais respeitado da cultura audiovisual desde 1951, dedicou a manchete de sua edição de março ao novo exercício autoral do diretor catalão. A relação entre a revista e Serra passou a ser de amor depois que seu coletivo de críticos elegeram o longa-metragem anterior dele, "Pacifiction" (encontrável na plataforma Prime Video), "O" filme de 2022. Essa estampa de qualidade do mais respeitado veículo de imprensa do mundo cinéfilo transformou o que era uma potente dramaturgia (sobre a ressaca política de um mundo de ideologias afogadas) num acontecimento.

A obra de Serra virou aquilo que revistas como a "New Yorker" chama de talk of the town, ou seja, "O" assunto da cidade. Muitas vezes essa bênção francesa da "Cahiers" erra, sacralizando bezerros de ouro. Em outras (as enquetes em que figuraram Bertrand Mandico, Maren Ade, os Irmãos Safdie, Patricia Mazuy, Hong Sangsoo, Ladj Ly e Kleber Mendonça Filho), os acertos foram reconhecidos e atestados pela História, como se vê agora com o diretor espanhol. Seu .doc chega à França com status de obra-prima.

Encarado desde a sua primeira exibição pública, em setembro, no Festival de San Sebastián, como um gesto de ousadia e um convite à provocação, "Tardes de Solidão" fez jus à brutal controvérsia que despertou ao receber a Concha de Ouro de 2024, por sua excelência de linguagem. Venceu uma acirradíssima disputa no País Basco com um objeto de estudo dos mais indigestos para os novos tempos: a tradição da tourada. Ao seguir o dia a dia de um toureiro peruano visto como celebridade em seu ofício, Andrés Roca Rey, o realizador de cults como "A Morte de Luís XIV" (2016) combate o machismo e também a naturalização da violência contra os animais inerentes àquela tradição ibérica. Sagrou-se ganhador de um evento que falou de finitudes (de corpos idosos, de velhos costumes) do começo a fim.

"Como meu fotógrafo, Artur Tort, também é um montador, tive a "Como meu fotógrafo, Artur Tort, também é um montador, tive a chance de explorar as imagens que rodamos com respeito à solidão das pessoas que estão nas arenas de touros, mas sem romancear aquele costume", disse Serra em resposta ao Correio da Manhã em sua coletiva em Donostia, o nome de San Sebastián em basco.

Serra nunca havia feito um longa de não ficção antes. Sem fazer juízos de valor, esse artesão da imagem registra uma série de "combates" travados por Roca Rey. Em planos longos, com muitos closes, o diretor desconstrói o simbolismo de virilidade que cerca os toureiros, captando frases de fãs como "seus colhões são maiores do que essa praça", que, ouvidas no contexto estético do longa, ganham tom irônico. "Tenho formas de pensar a linguagem que passam por uma herança de meu país nas telas", disse Serra ao Correio, antes de atuar como jurado da Berlinale 2024, na Alemanha. "Sou, sim, um cineasta espanhol, pela minha gênese pessoal, mas o meu cinema não está preso a paradigmas nacionais, nascendo de uma troca com outras pátrias, no desejo de expressar o mundo a partir de uma inquietação formal que não se defina meramente pela palavra, ainda que esta, quando aparece em cena, tem relevância, um sentido, um efeito".

As páginas da "Cahiers du Cinéma", hoje disponíveis online, analisaram a forma peculiar de criação de Serra, na ficção. "Eu não uso o roteiro com os atores. Eu converso com eles, cena a cena, para tentar que eles se guiem pelo sentimento que cada sequência proposta sugere", disse o cineasta em San Sebastián.

"Pacification" provava que existem várias moléstias na dramaturgia de Serra e o tédio é uma delas, quase sempre acompanhado de um certo esnobismo maquinal, ou seja, uma arrogância em relação aos processos de interação social e de trocas financeiras. Assim sendo, lirismo é algo que não lhe cabe, ainda que exista algo de lúdico no verdume das florestas da Polinésia Francesa onde a trama se passa.

Mas a preferência de Serra é pelo que existe (ora) de arenoso e (ora) de lamacento na alma do personagem central daquele Éden em falência: um misantropo alheio à perseverança humana chamado De Roller, Alto Comissário da República no Taiti. Para viver a figura enigmática, que é galã e monstro no mesmo corpo, operando como Jekyll pro neoliberalismo e Mr. Hyde para o discurso ecológico, Serra convocou um ator em estado de graça: Benoît Magiel.