Correio da Manhã
Cinema

Em modo Hsu Chien, o Grajaú vira a Cinecittà

Prolífico realizador sino-carioca junta um elenco colossal, com Marisa Orth e Luiz Fernando Guimarães nos papéis centrais, numa comédia sobre livros, agentes secretos e improvisos

Em modo Hsu Chien,
o Grajaú vira a Cinecittà

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Parece um encontro de titãs ver o Rui de "Os Normais" (que volta aos palcos, nesta sexta, no Teatro Clara Nunes, com a peça "Baixa Sociedade") ao lado da eterna Magda de "Sai de Baixo", Marisa Orth, no bastidor de um longa que tem tudo para vivar um blockbuster do riso. "É uma história sobre o amor dos imperfeitos, de quem não corresponde às idealizações das redes sociais, num triunfo das pessoas reais", diz Marisa, que foi homenageada na Mostra de Cinema de Ouro Preto (MG), em 2025, pelo tanto que já fez o Brasil rir... inclusive na telona.

Por mais que seriados humorísticos dos anos 1990 e 2000 pipoquem na nossa mente ao pensar nela e em Luiz Fernando, a começar pela "TV Pirata", ambos desfilaram pela nata do cinema autoral deste país. Marisa, que esteve no cult "Não Quero Falar Sobre Isso Agora" (1991), filmou mais de uma vez sob as grifes de Lucia Murat e Anna Muylaert. Trabalhou com outras diretoras de prestígio, até algumas que passaram da marca do milhão (de ingressos vendidos), como Carla Camurati e Cris D'Amato.

Já Luiz Fernando, que estrelou dois blockbusters derivados de "Os Normais", em 2003 e 2009, esteve no foco da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood depois da indicação de "O Que É Isso, Companheiro?" ao Oscar, em 1998. Bebeu no "Bar Esperança" (1983), de Hugo Carvana, e flanou machadianamente pelas memórias do "Brás Cubas" (1985), de Julio Bressane. Seu currículo de diretores soma ainda Haroldo Marinho Barbosa, Arnaldo Jabor e Domingos Oliveira. "Aí aparece na frente da gente o Hsu, que é um príncipe, e torna tudo no processo leve, em parte por amar loucamente o cinema e ter visto de tudo, e em parte por gostar de resolver os problemas que aparecem num set... e saber resolver", elogia Marisa.

Luiz Fernando, que cruzou com Hsu ao filmar "Se Puder... Dirija" (2013), tem visão parecida: "Procuro trabalhar com pessoas com características que possam nos preencher, e nunca chego a uma cena engessado. Qualquer resultado bom que se veja na tela, quando faço cinema, será o produto da minha afinidade com o diretor. Aqui, com o Hsu, interpreto uma história de casal na qual o homem que eu faço vê em sua mulher a heroína da vida dele", define Luiz Fernando.

Ele é o motorista de táxi Ricardo e Marisa, a escritora Viviane. Para contar como essas duas almas se amalgamam, numa rotina onde problemas se engalfinham, Hsu - como praxe em sua obra como realizador, desde "Ninguém Entra, Ninguém Sai", de 2017 - trouxe uma constelação de talentos, das mais variadas gerações. Tem Carol Castro, Marcelo Adnet, Leandro Lima, Valentina Bandeira, Carmo Dalla Vecchia, Diogo Almeida e uma diva multimídia, que já lotou salas de projeção e cruzou oceanos com a novela "Escrava Isaura" (1976): Lucélia Santos. "A paixão me move e, quando eu me conecto com a fala de uma personagem, nem preciso fazer esforço, pois tudo é jogo, embora com muito respeito ao texto", disse Lucélia ao Correio da Manhã, num set que conta sempre com os auspícios de uma crítica de cinema de fina tarimba analítica, Janda Montenegro, doutora em Letras pela UFRJ, que virou uma espécie de anjo da guarda do Hsu, no posto de assistente de direção.

Fruto da sinergia entre a distribuidora Imagem Filmes e as produtoras La Duka, Uno, Moro e Bronze, "Um Casal Quase Perfeito" foi escrito por Beatriz Rhaddour e Ana Eliza Guerreiro, com colaboração de Renata Dias Gomes e Claudio Simões. Miguel Falabella, com quem Hsu rodou a quatro mãos o ainda inédito "Querido Mundo", assina a supervisão artística. No roteiro dessa turma, Viviane (Marisa) e Ricardo (Luiz Fernando) parecem ter a vida perfeita. Ela é uma autora de sucesso, responsável por escrever as aventuras da Agente Sedução (papel de Carol Castro), e ele, um chofer de praça, apoia sua companheira em cada passo. O caso é... na vida, sempre existe um "mas...", e o advérbio vem para chacoalhar a estabilidade do casal quando a editora de Viviane decide, inesperadamente, cancelar o lançamento do seu próximo livro.

"Como o Hsu saca tudo de cinema... pois é o cara que mais vê filme neste país..., vem muita referência pra gente compor, pois as influências de muitos bons diretores estão no radar, em especial no caso do meu papel: tenho uma personagem que é personagem, que só existe nos livros, mas vem pra vida real", explica Carol Castro, que trabalhou com o cineasta quando ele ajudou Falabella a filmar "Veneza", em 2018, no Uruguai. "Este trabalho transpira vida para além da trama. Tudo é surpresa, num processo de muito improviso".

Um dos assistentes de direção mais requisitados do Brasil entre 1997 e 2017, Hsu é sinônimo de entrega (com o binômio competência poesia) nos ouvidos de qualquer produtora. "O Miguel Falabella diz que quando você acerta uma escalação de elenco, os personagens estão lá e tudo funciona. Um nome como o Hsu nos ajuda a mobilizar estrelas com carreiras consistentes, pois traz solidez", diz Diego Timbó, um dos produtores de "Um Casal Quase Perfeito", que, na gíria de Hollywood seria um Eye Candy, termo que designa filmes de elenco estrelado, juntando talentos bajulados pela crítica e ímãs de multidões. "Fazemos comédia porque o gênero representa a continuidade da formação de plateias de que nosso cinema precisa historicamente. Ela conecta todo o país".

Depois que iniciou uma carreira autoral, com o curta "Pietro" (2013), Hsu estendeu a dinâmica disciplinada de criar encantamento para seu próprio universo, filmando seus próprios longas, como (a delicinha) "Quem Vai Ficar Com Mário?" (2021), hoje na Prime Video, e "Licença Para Enlouquecer" (2024), sempre aberto a sugestões de suas equipes e trupes, mas, atento aos descontroles que pautam a vida em sociedade. Todos os seus filmes se debruçam sobre os laços de aliança que pessoas, em situações de estresse, precisam tecer. Essa tessitura fica mais viva com a habilidade de escuta do realizador.

"Sou paraibano e sugeri que meu personagem, nesta história ambientada no Rio, tivesse um traço nordestino na fala, e ele comprou, pois ficaria orgânico", diz o ator Leandro Lima, que vive o Agente Tentação, personagem que surge a partir do livro do Manuel Prado (Adnet) como concorrente da Agente Sedução. "No momento em que nosso cinema encontra para si novos espaços, buscando novas narrativas, o Hsu me chega com esta comédia louca, falando de gente real, com afetuosidade, com troca".

O Correio da Manhã visitou um uma filmagem no Grajaú em que Viviane ia conversar com a vizinha (Lucélia) levando a Agente Sedução (Carol) consigo. O clima lembrava as boas comédias dos anos 1980 com Shelley Long e Bette Midler (tipo "Que Sorte Danada!").

No enredo, em meio à crise criativa e profissional, Viviane, uma máquina de gerar best-sellers, acaba descobrindo um obscuro esquema de lavagem de dinheiro ligado aos bastidores do mercado editorial. Em busca de salvar a própria vida, Agente Sedução, a heroína de seus livros, cruza a linha entre a ficção e a realidade, ganhando vida diante dos olhos da personagem de Marisa, incentivando-a a não desistir das aventuras literárias de sua Modesty Blaise cheia de brasilidade. A situação foge do controle quando uma empresária corrupta, ligada à lavagem de dinheiro, tenta matar o editor de Viviane. Aí, o casal (Marisa Luiz Fernando) e a Agente imaginária precisam desvendar a conspiração, provar sua inocência e sobreviver a uma trama de ação que desafia as condições normais de temperatura e pressão da fantasia.

"Boa parte das pessoas desconhece que, quando quis me tornar cineasta, nunca havia pensado em fazer comédia", explica Hsu. "O gênero surgiu na minha vida quando fui dirigir duas séries para o Miguel Falabella na TV Globo, entre elas, 'Pé na cova', que foi a minha escola nesse filão. Não somente me identifiquei de imediato com as estruturas cômicas, como fui fisgado por um tipo de humor específico do autor Falabella, que por acaso, é supervisor de roteiro e de direção aqui no 'Um Casal Quase Perfeito'. É um humor que ele chama de 'alta comédia', rica em diálogos, mas unindo lirismo, poesia, drama. Para mim, foi um grande presente dirigir artistas que sempre admirei: Marisa Orth, Luiz Fernando Guimarães, Carol Castro, Lucélia Santos, Marcelo Adnet, Carmo Dalla Vecchia, Carla Cristina. São escolas diferentes de comédia, mas que, unidos em cena, formam um caldeirão fervente de ideias e de improvisos, que é sempre surpreendente. A esse elenco de veteranos, temos também um time incrível de comediantes jovens, como Valentina Bandeira e Leandro Lima".