Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
CEP do coração de uma Nova York pé no chão (ou seja, intelectual, mas sem fortuna), Tribeca virou um endereço obrigatório do cinema mundial há um quarto de século cravado, quando o susto provocado pelos atentados ao World Trade Center gelou a espinha do planeta e deu um ultimato de alerta para a maior metrópole do planeta. Em 2001, pouco depois da tragédia do 11 de Setembro, o ator Robert De Niro mobilizou parceiros a fim de elevar o ânimo do povo nova-iorquino com a criação de um evento cinematográfico competitivo..
Pois não é que aquele festival - sempre aberto ao Brasil - chegou aos 25 anos. Sua mais famosa descoberta foi "Deixa Ela Entrar" (2008), do sueco Tomas Alfredson, uma das histórias de vampiro mais invejadas das últimas três décadas. Por sua aposta nas expressões narrativas mais indies, suas mostras viraram grife de invenção, tendo De Niro como mecenas.
Desta quarta-feira até o dia 14 de junho, a cidade cantada por Frank Sinatra e filmada por muitos gênios das telas volta a ser o epicentro de uma maratona de descobertas. A direção artística do evento é de Jane Rosenthal e a programação é supervisionada por Cara Cusumano. Este ano, o festival abre com "Earth, Wind & Fire: To Be Celestial", documentário musical realizado por Questlove sobre a lendária banda norte-americana, e encerra com "Alicia Keys: Girl on Fire's Kitchen".
Muito se espera de uma coprodução entre diversas nações hispano-americanas chamada "Summer War", de Alicia Scherson. Ela se passa no Chile, em 1989. Na ocasião, o regime de Pinochet está em declínio e o campeão de jogos de guerra de mesa Udo Berger está de férias com a namorada num resort à beira-mar. Quando um amigo desaparece de repente, Udo convida um misterioso habitante local para se juntar a ele numa partida. A literatura (de prosa com Roberto Bolaño) é o eixo do longa.
Muito se espera também do haitiano "The Tropic Sun and His Eyes", de Elisee Junior St Preux. Sua narrativa segue os passos de Ruben (Stevenson Jean), viajante que regressa ao Haiti para restabelecer o contacto com o pai, de quem se afastara. Quando um garoto pobre persistente (Blangue Machiny) começa a segui-lo, ele faz um acordo com o guri: se ele ajudar a encontrar um atalho e mantiver alguma distância, poderá ficar. Um parentesco se forja aí.
A seleção internacional volta a ser uma das mais abrangentes do circuito mundial, reunindo produções oriundas de pelo menos 40 países. Entre os títulos mais aguardados destacam-se "Against the Flow", do realizador chinês Tao Zhang, uma coprodução entre França, Luxemburgo, Portugal e Suécia; "Árru", da cineasta Elle Sofe Sara, representando Noruega, Suécia e Finlândia; "Crocodile", da neozelandesa Pietra Brettkelly, numa parceria entre Nova Zelândia e Nigéria; além de obras provenientes do Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, México, Argentina e Canadá, confirmando o perfil cosmopolita que transformou o Tribeca numa vitrina privilegiada para o cinema independente contemporâneo.
Tribeca já colheu grandes filmes brasileiros em sua história, incluindo "Estranho Caminho", de Guto Parente; "Festa de Margarette", de Renato Falcão; "Santiago", de João Moreira Salles; "Elvis & Madona", de Marcelo Laffitte; e "Califórnia", de Marina Person. Marcaremos presença lá com "Funk", dirigido por Aly Muritiba, selecionado para a Competição Internacional. O filme acompanha Sabrina, uma jovem da periferia carioca determinada a conquistar espaço no universo dos bailes funk, enfrentando desafios sociais, familiares e profissionais enquanto tenta transformar o seu talento em ascensão artística. Combinando música, sensualidade e questões de mobilidade social, a produção propõe uma leitura contemporânea da juventude urbana brasileira, explorando o funk como instrumento de afirmação cultural e sobrevivência económica.
O Brasil aparece como cenário do curta "White Belt", de Branislav Jankic. Segue uma lutadora em ação. Na véspera do seu primeiro grande torneio de Jiu-Jitsu, a outrora supermodelo Monika «Jac» Jagaciak — outrora o rosto da moda mundial — revela a sua extraordinária transformação ao trocar as passarelas pelos tapetes de luta, enfrentando o seu passado e recuperando o controlo da sua vida através da disciplina dos desportos de combate.
Entre as produções estadunidenses de ficção em disputa, os debates sobre inclusão social têm predileção. Há uma torcida formada em torno de "Airport BLVD", de Alejandro Hendricks. Em seu enredo, Xavier (Jamal Gamble) é um jovem de modos suaves que vê todo o seu mundo desmoronar-se à sua volta. Fala-se muito ainda de "Mother Future Self", da diretora estreante Tori Lancaster. No seu roteiro, Sofi (Imani Jade Powers) e Jordan (Betsey Brown) não se vêem há anos, após uma misteriosa desavença.
Paralelamente às projeções, o festival mantém a sua tradicional agenda de conversas públicas, as Tribeca Talks, que reúnem personalidades com o Madonna, Bruce Springsteen e Paul Rudd.
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